Na carroça do Abreu tem lugar pra todo mundo


Para onde vai o Bar do Abreu, todo mundo vai atrás. Tem sido assim desde que o velho Abreu, pai de Zé Ronaldo e Marquinho, abriu o bar na esquina da avenida Ernestino Borges com a rua Odilardo Silva, na pacata fronteira entre os bairros do Laguinho e Jacaré Canga. Os anos 70 passaram, os 80 se foram e os filhos migraram com o bar e a tradição do Laguinho para o Trem e já tem um bom tempo que se instalaram no coração da cidade, o bairro Central.

O curioso é que menos interessa aos freqüentadores o endereço. Com uma devoção fiel à tradição, seguem o Bar do Abreu, transformando esse numa das mais arraigadas marcas da cultura popular da cidade de Macapá. Esse mel tem uma explicação, creio eu. No Bar do Abreu há espaço para todos, dos mais simples aos mais requintados; dos mais pobres aos mais ricos; dos mais letrados aos de menor rigor intelectual. Lá todos são servidos pelo Zé Ronaldo com uma cervejinha “no capricho”.

Esse ano, o grupo de amigos mais assíduo nas noites do Abreu resolveu organizar um bloco de carnaval, “Carroça do Abreu”, que vai enriquecer a já muito colorida Banda da terça-feira gorda. Além do bloco, a turma criou o I Encontrão de Blocos do Abreu, um festival para escolher a melhor música tema. Este ano deu Rolará, com um enredo sobre as cores do arco-íris. Em segundo lugar ficou Os Filhos da Mãe Luzia, lembrando as antigas batalhas de confete e em terceiro ficou o Mancha Negra homenageando o cangaço.

O festival foi um sucesso e como sempre reinou a diversidade. Perfumes caros, de grife internacional se misturavam a extratos baratos de prateleiras de supermercados. Circulavam profissionais liberais, gente de autoridade, desempregados, garotas apostando num fim de noite lucrativo, casais, músicos e toda sorte de gente. Um exercício natural de democracia, onde as diferenças ficam na horizontal e ninguém se sente acima ou abaixo delas.
No caldeirão do Abreu os desafetos do dia-a-dia são obrigados a coabitar, a se olhar e enxergar além. São obrigados a conviver como iguais, mesmo que lá fora essa igualdade retorne ao patamar da intolerância. Então, o Abreu é como um suspiro por onde se respira, se relaxa, se desarma; uma faixa de neutralidade, mas sem a hipocrisia da imparcialidade, porque lá todos falam sobre tudo. O Abreu é o poder popular da mesa de bar, onde todos os problemas do mundo encontram solução.

Márcia Corrêa
16/02/03