Macapá, a cidade dos santos.

Chico Terra*

Se depender dos santos católicos, ou melhor, dos nomes deles, caso eles existam, Macapá subirá aos céus feito uma arca iluminada pelas auréolas dessas entidades que emprestaram seus nomes a tudo, substituindo as nomenclaturas originais de muitos bairros desta cidade, matando sem nenhuma piedade a história por obra e graça da santa amada igreja.

Minha vontade de escrever este artigo, aumentou na manhã chuvosa deste 16 de janeiro, quando ao surfar pelos canais de Tv, ouvi um trecho do sanba da escola Solidariedade que dizia: “Jacareacanga meu amor...”. Jacareacanda é o nome original do bairro Jesus de Nazaré, onde ficava a rádio educadora e o jornal “A voz católica” do padre Jorge e sua bicicletinha italiana.

O Bairro da CEA, se transformou em Santa Rita

Recordo desse bairro com saudade de um tempo feliz quando éramos escoteiro do grupo São Maurício (nem sei quem é esse santo) cuja sede ficava contígua a igreja de Nossa Senhora de Fátima (essa aí todo mundo sabe que inclusive tinha um irmão chamado Francisco, meu xará) onde, sob a batuta do bem humorado e bom de ping pong chefe Madureira e do chefe Orlando, eu e muitos meninos e meninas recebíamos complementos de educação, civismo e bons modos dos que tínhamos no lar. Acampávamos cantando em volta das fogueiras sob a noite escura sem energia elétrica, mas naquele tempo, a abóboda celeste brilhava mais intensamente na noite, que me diga minha mana Alcinéa Cavalcante que junto comigo, morava na Favela que parte virou centro e parte Santa Rita, uma partilha que nem por nós foi consultada para que se fizesse.

Como toquei em carnaval e Macapá tem tradição nesta festa, não poderia esquecer que na Favela nasceu a escola Maracatu, campeã do ano de 2007, cuja foto estampada na capa do Vangurarda Cultural foi elogiada até pelo Caetano, me disse Aroldo Pedrosa. Outro dia em papo com meu ex-vizinho do trem o Manoel, declarei que meu coração bate pelo Piratão, mas se descompassa pela Maracatu. Pelo Piratão porque morei no Trem, época que casei com Filó que é mãe de meus três filhos mais velhos. Mas minha vida, infância e juventude foram na Favela onde nasci pelas mãos de mãe Domingas, uma preta velha que me deu o primeiro dos inúmeros tapas que levei na bunda e me amamentou. Entre estas e outras se justifica meu amor pela Maracatu da D. Fitita e da Osvaldina.

Havia mulheres no Igarapé

Hoje Perpétuo Socorro (minha irmã Graça é devota, não perde uma missa terça-feira), se à época em que a frente de Macapá foi aterrada para fazer o quebra-mar houvesse responsabilidade ambiental, provavelmente não se teria cometido esse que considero o maior crime ecológico contra esta cidade. Meu irmão mais velho, finado Antônio Pacapeá, morou a vida toda lá. Costumávamos sair de madrudada para pescar camarão na praia e pegávamos em grande quantidade. Lembro de uma vez que o Antônio levou uma ferrada de arraia e tivemos de voltar sem nada. Era na volta da pescaria que a festa era nimada. As mulheres que lavavam roupas no igarapé ao nos ver passar carregando o pescado e as redes gritavam:

- Cadê o camarão seu Antônio!!?

E ele, dando gargalhadas em meio à fumaça do porronca que acendia para espantar os carapanãs, respondia:

- Passa lá em casa!

Por volta dos 12 anos de idade quando meu pai morreu, eu e meu irmão tivemos de nos virar para ajudar o sustento da casa e aquela beira de rio em momentos que não eram raros, bricávamos sobre os troncos trazidos pela maré. Que saudade! Não conhecia o Osmar Júnior, mas tenho certeza que ele também viveu isso, pois não teria escrito “Igarapé das Mulheres” com tanta riqueza de detalhes em uma música cuja letra nos lembra a realidade dura de que o “tempo leva tudo”, inclusive a vida!

Transpotando-me aos dias de hoje, às vésperas de completar 250 anos, quando nossa cidade saqueada vive um imenso mal de amor por quem a governa e pela população que hoje a habita, não posso concordar que Macapá mereça ser tema de escola de samba no Rio de Janeiro. Quem nasceu, cresceu e viveu aqui e vive ainda nesta cidade como eu, deve concordar comigo. Macapá que já foi intitulada “Cidade Jóia da Amazônia”, passou. Ivadiram até mesmo a orla do Amazonas onde brincávamos na nossa infância. Com ilusões de Eldorado inexistente, muita gente migrou, principalmente do Maranhão para cá em busca de uma vida que lhe foi do mesmo modo roubada pelo coronelismo vigente até hoje, infelizmente neste país.

Esburadacada, sem saúde, suja , muito suja e rôta, Macapá cambaleia e pede ajuda aos céus. A fortaleza, guardiã da história, ainda permanece a lembrar que de sofrimento em sofrimento, construímos essa cidade, sonho de muitos, como meu pai Antônio Almeida que veio do Afuá para trabalhar nas obras comandadas pelo mestre Júlio no governo do Janary. Só pra lembrar ele fez as paredes de madeira do estádio Glicério Marques.

Já passou, já passou...

São José, de costas para a cidade, parece ignorar essa jovem prostituída. Mas quem pode afirmar que a redenção de Macapá virá pelos santos católicos? Havia na minha infância, isso eu ví, ningem me contou, uma entidade espiritual que se manifestava em terreiros de umbanda desta forma:

Eu sou a loura da praia de Macapá
Me chamo Zelinda, sou princesa imperial
Se algum dia, me desencantarem
Esta cidade, vai afundar
Meu Pai é rei e eu sou dona desse lugar...


*Chico terra é jornalista - repórter fotográfico
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