Personalidade ilustre. Poeta notável.
Espírito nobre!


Hoje eu quero homenagear neste blog um homem, uma personalidade. Não, não apenas isso. Quero homenagear também o jornalista e escritor. Mas, não posso deixar de destacar que ele é um grande poeta! Sim, poeta daqueles cuja alma se expressa com pena de ouro e cujos escritos mexem com o sentimento, com o coração e nos faz refletir.

Seus poemas são lições que nos arrancam da areia movediça do dia a dia e nos faz pairar sob um mundo mágico, encantado em que às palavras, mesmo para falar de dor e tristezas, são usadas com a leveza de uma pluma, com a espiritualidade dos seres especiais.

Encanta-me cada poema, cada frase que o poeta assenta nas páginas da vida para quem quiser nelas se embriagar, porque é poesia pura, límpida, cristalina.

Estou falando do jornalista, escritor e poeta Alcy Araújo Cavalcante que, como dizia Guimarães Rosa, "encantou", nos deixou em 1989.

Nos deixou sim, fisicamente, mas espiritualmente nunca nos abandonou, está vivo e resplandece em cada frase, em cada verso de seus belos poemas, carregados de emoção, sinceridade e de um desprendimento que só os espíritos nobres o possuem, pois não se apegam a objetos, ao materialismo que se decompõe, mas abraça e vive, atado a sabedoria da alma que impulsiona a vida, respeita os valores e ensina o jovem que viver é, antes de tudo, uma arte e contribuir, uma obrigação.

Alcy Araújo deu a sua contribuição sem que isso se tornasse um fardo, pois amava o que fazia, e como uma cachoeira produzia poesia e deixava fluir para que todos bebessem dela e assim como ele, se encantassem pela vida que dádiva é.
"Encantou" sim, mas continua vivo nas obras que deixou e na memória dos que os conheceram, pois, um poeta desse quilate não se perde no tempo, porque o Eterno tem interesse em que os corações não se embruteçam e a poesia é o refino que espiritualiza a vida.

E Alcy Araújo é a vida cantada e escrita em prosa e verso.

Na primeira foto, o poeta autografa a sua obra. Na segunda, a esposa e companheira sempre presente, professora Delzuite Cavalcante - que com ele no Eterno vive - é nome de relevo da cultura carnavalesca do Amapá, tendo ao seu lado, a filha jornalista competente e inspirada - também na poesia d’alma - Alcinéa Cavalcante, que juntamente com os demais da família dão o exemplo de que a vida é uma grande lição que o pai Alcy Araújo e dona Delzuite souberam ensinar.
Abaixo, o poeta fala do Natal. Confira.

É Natal
Alcy Araújo Cavalcante
(1924-1989)
Sabeis que é Natal. Não é necessário que eu diga isto. O anúncio da renovação do milagre do nascimento de Jesus está nesta música que vem de longe, que desce do céu e flutua, em pianíssimo, em torno de nossa alma e toca de leve o coração dos homens.
O milagre está, também, nesta luz que vem do alto e ilumina os espíritos, está no riso das crianças, na oração da rosa, na lágrima dos que sofrem, no canto dos pássaros, no sussurro da brisa, no murmúrio do rio e na saudade de minha mãe rezando.
Tudo é tão bonito que as lágrimas de dor e de saudade de infâncias inexistentes são poesia pura. O belo é tanto que não resisto à vontade vesperal de anunciar que é Natal, antes que a noite chegue, antes que seja oficiada a Missa do Galo, antes que dobrem os sinos na igreja comunicando a vinda do Messias.
Tudo é luz em torno do mundo. As trevas não prevalecerão quando cair a noite acendendo mistérios. As vozes dos anjos, o coral dos pastores de Israel, a lembrança dos Reis Magos estão presentes. Há perfume. Os turíbulos de Deus espargem incenso e mirra, porque é Natal no mundo e renasce a esperança no cumprimento da palavra dos profetas.
Mais uma vez é Natal!
Chegam as vozes da infância perdida nos caminhos e o coração enxuga saudades. Os sinos, à meia-noite, vão bimbalhar lágrimas distantes. Vêm de presépios inanimados e risos perdulários afogam angústias cotidianas.
A dor se esconde por trás de mágoas indormidas e as horas se ocultam nos relógios, para que a poesia do Natal não passe e o musical minuto dure mais um segundo na eternidade deste dia.
É Natal!
Reza a minha alma de joelhos pelo menino sem brinquedos que perdi, na minha pobreza de sempre.
É Natal!
Repetem meus arrependimentos nas estradas. E uma alegria imensa absorve as tristezas que fabriquei no mundo. Um sentimento infinito de bondade apaga as dores que construí durante o meu ontem irreversível. Uma ternura imensa acende felicidades futuras, porque é Natal, neste sábado do mundo.
Há um polichinelo no bazar.
Pertence ao menininho doente que Jesus chamou para o seu reino. Uma boneca abandonada já não chama mamãe para a garota loura que um anjo levou pela mão naquela manhã de sol.
Mas outros brinquedos coloridos fazem ciranda em torno das árvores de Natal e milhares de crianças são felizes nos lares cristãos de meu país sem coordenadas. Enquanto isto, Deus sorri, pleno de Amor, pôr trás da Eternidade.