'AMIGO-VENHA-A-NÓS' MAIS UMA VEZ PEDE AJUDA - Sarney recorre a Lula para tentar salvar filho Fernando

Jornal Pequeno
20-1-2008
POR OSWALDO VIVIANI

O ex-oligarca quer ação do presidente para evitar os 'constrangimentos' causados pela investigação da PF

O senador José Sarney (PMDB-AP) está usando todo seu prestígio político em Brasília e sua proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tentar proteger seu filho, Fernando Sarney, das conseqüências das investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, que o monitoram há mais de um ano.


Sarney e Lula de mãos dadas:
um só pede, o outro não sabe dizer não

Sabe-se que nos últimos 15 dias o senador conversou privadamente com Lula pelo menos duas vezes. Nesses contatos, José Sarney teria manifestado ao presidente sua preocupação com o “lio” em que Fernando - todo-poderoso “chefão” do Sistema Mirante - se meteu.

De acordo com o que vazou para a imprensa dos encontros, o velho Sarney, muito emocionado, se disse apreensivo com os constrangimentos que podem resultar da investigação da Polícia Federal.

Sarney pai teme especialmente o indiciamento do filho, sua prisão e a expedição de novos mandados de busca nas empresas da família. Para o ex-oligarca, não haveria ferimento maior em seu orgulho do que ver o filho - que só está livre graças a dois habeas corpus preventivos, expedidos pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília - ser preso pela PF, como quer o Ministério Público Federal, que juntou robustos indícios de no mínimo dois crimes de Fernando: lavagem de dinheiro e financiamento ilegal de campanha.

José Sarney teme ainda a divulgação para a imprensa de conversas telefônicas que Fernando teve com “doleiros” e com Silas Rondeau, ex-ministro de Minas e Energia e “cria” de Sarney.

Não se sabe o que o presidente Lula prometeu fazer por seu “amigo-venha-a-nós” - aquele que está sempre pedindo alguma coisa e pouco oferece (vide os episódios: Lula dando força para Roseana em Timon; Lula nomeando Silas Rondeau; Lula nomeando Edison Lobão etc. etc). Mas não há nenhuma dúvida de que José Sarney não desgrudará do presidente enquanto pauzinhos do Planalto não forem movidos a favor de Fernando Sarney.

Na mira da PF - Desde novembro de 2006, Fernando, o administrador dos negócios da família Sarney no Maranhão, está sob investigação da PF e do Ministério Público Federal. O ponto de partida foi um comunicado do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do Ministério da Fazenda ao Ministério Público sobre movimentações atípicas, de mais de R$ 3 milhões, em contas bancárias controladas por Fernando Sarney. No fim do ano passado, a família Sarney descobriu que os telefones de Fernando estavam “grampeados” pela PF.

Transtornado por não ter sabido da investigação enquanto ela ocorria, José Sarney acionou o advogado brasiliense Antonio Carlos “Kakay” Almeida Castro, dono de forte círculo de amizades no governo, para saber a extensão dos danos. Depois de uma batalha nos tribunais para ter acesso aos dados da investigação, Kakay e o advogado Eduardo Ferrão descobriram que os sigilos bancário e fiscal de Fernando, de sua mulher, Teresa Murad Sarney, e de contadores de suas empresas também haviam sido quebrados. Na Justiça, o Ministério Público Federal no Maranhão obteve a quebra do sigilo telefônico do filho de Sarney em dezembro, mas ele já havia sido apanhado, há quase um ano, em “grampos” armados pela PF para outras investigações.

Os investigadores da PF e do MP dizem ter encontrado matéria sólida nas contas de Fernando Sarney e suas empresas. No Maranhão, o Ministério Público suspeita do trânsito de dinheiro entre o Sistema Mirante de Comunicação (rede de emissoras de rádio, televisão e jornal, vitrine dos negócios da família Sarney) e a São Luís Factoring e Fomento Mercantil Ltda., outra empresa familiar até então desconhecida.

Empresas de factoring trocam cheques e outros títulos a prazo por dinheiro à vista - e cobram comissão por isso. É o que faz a São Luís Factoring e Fomento Mercantil Ltda. O problema é que, com a quebra dos sigilos bancário e fiscal autorizada pela Justiça, descobriu-se que a São Luís só realiza transações entre as próprias empresas do grupo Sarney. Anualmente, a São Luís costuma movimentar mais de R$ 100 milhões. Só no ano passado, a empresa lucrou cerca de R$ 25 milhões em juros e comissões - supostamente cobrados de suas co-irmãs do Grupo Mirante. “Esse é o calcanhar-de-aquiles dessas operações que estamos investigando”, disse uma autoridade diretamente envolvida na apuração, sob a condição de anonimato porque a investigação corre em segredo de Justiça.

A São Luís Factoring foi aberta em julho de 2000. Hoje, está registrada em nome de um contador do grupo e de Teresa Murad Sarney. Teresa é também a atual presidente da Gráfica Escolar, que edita o jornal O Estado do Maranhão, um dos veículos do pool de comunicação da família Sarney, que inclui três emissoras de rádio e a TV Mirante. O endereço da factoring é o mesmo do jornal e da TV Mirante. Os investigadores dizem se concentrar agora na suspeita de que a empresa tenha servido para lavar dinheiro. “O lucro declarado dessa factoring pode ser uma forma de esquentar dinheiro”, afirma um dos investigadores.

Sigilo da Mirante quebrado - A Receita Federal já instaurou uma ação fiscal contra o grupo. O juiz federal Neian Milhomem Cruz, da vara especializada em lavagem de dinheiro de São Luís, autorizou a quebra de sigilo bancário da TV Mirante, da Gráfica Escolar e da São Luís Factoring. Na Polícia Federal, em vez de ser tocada pela Superintendência do Maranhão, a investigação foi concentrada em Brasília. Está a cargo da Divisão de Crimes Financeiros, a mesma que investigou o “mensalão”.

Em março do ano passado, um delegado da divisão foi a São Luís e pediu a ampliação da quebra do sigilo bancário. Hoje, nos 13 volumes que compõem o inquérito, estão todas as movimentações financeiras do grupo realizadas entre 2002 e 2006. Antes do pedido, havia sido quebrado o sigilo apenas das operações realizadas nos três meses anteriores à eleição.

Grandes saques - O relatório do Coaf alertou a Polícia Federal e o Ministério Público sobre os grandes saques em dinheiro vivo das contas de Fernando Sarney às vésperas do segundo turno da eleição de 2006. O primeiro movimento se dá em 23 de outubro. É quando o empresário Eduardo de Carvalho Lago, concunhado de Fernando Sarney, deposita R$ 2 milhões na conta da Gráfica Escolar. No dia seguinte, o dinheiro volta para a conta de Lago. Em seguida, a transferência é refeita. Desta vez, Eduardo Lago deposita diretamente na conta de Fernando Sarney. O primeiro saque, de R$ 1,2 milhão, foi feito em 25 de outubro. Os R$ 800 mil restantes foram retirados no dia 26. Nas duas vezes, o dinheiro foi sacado em espécie.

Os saques foram feitos na agência 2192 do Bradesco, no centro de São Luís, onde Fernando Sarney mantém conta. Houve ainda outras movimentações atípicas. Segundo o relatório do Coaf, entre 27 de setembro e 27 de outubro, foram retirados mais R$ 1.022.450 de contas da TV Mirante. Os saques, também em dinheiro vivo, foram feitos por Carlos Henrique Campos Ferro e Teresa Cristina Ferreira Lopes. Segundo Fernando Sarney, os dois são funcionários da emissora. Teresa Murad e advogados da família Sarney preferiram não se pronunciar sobre o caso da São Luís Factoring.

Financiamento ilegal de campanha - A proximidade das movimentações com o segundo turno da eleição de 2006, realizado em 29 de outubro, levou os investigadores a suspeitar de que os saques possam ter relação com o financiamento da campanha de Roseana Sarney ao governo do Maranhão, em 2006. Fernando Sarney era o tesoureiro informal da campanha da irmã. Roseana, à época no PFL, está hoje no PMDB. E acabou perdendo a disputa para Jackson Lago, do PDT. O maior desafio da investigação, agora, é refazer o caminho do dinheiro. Eduardo Lago e Fernando Sarney dizem tratar-se de um empréstimo para fins privados. Se a natureza da operação era essa, os investigadores se perguntam: por que, então, o dinheiro foi sacado em espécie?

Se a hipótese da investigação sobre dinheiro para financiamento eleitoral for verdadeira, essa não seria a primeira vez que os Sarney se expõem por causa de dinheiro de campanha. Em 2002, a candidatura de Roseana à Presidência da República implodiu depois que a PF encontrou R$ 1,3 milhão no escritório da empresa Lunus, dinheiro que segundo a polícia seria para o caixa dois da campanha.

(Com informações das revistas Época e Veja)