O DEDO DO MESTRE

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Um provérbio oriental diz: "Quando o mestre indica a lua, os sábios olham para ela, os tolos olham para o dedo". Assim aconteceu com João Batista, o precursor, ao apontar Jesus para os discípulos dele. Sabemos que alguns seguiram o Senhor, outros continuaram como antes. Não adiantou muito o fato de João ter-lhes indicado nada menos que o Filho de Deus feito homem. Isso não cabia na cabeça e no coração deles. Foi bom para os sábios que seguiram a indicação do mestre, enxergaram bem e foram longe. Os outros, pararam no dedo, olhando o imediato, o pequeno, o relativo.

Tenho a impressão que sempre será assim. Cada um de nós vai andando na vida, seguindo as indicações dos mestres da hora e do seu tempo. "É por ai" diz um. "É por lá" diz outro. E nós vamos atrás, satisfeitos porque acreditamos estar superatualizados, pré ou pós-modernos, que seja o caminho. O importante é andar com a propaganda, com as multidões, animados pela preguiça de enfrentar uma busca séria e pessoal. Outros, ao contrário, buscam caminhos tão originais, tão sofisticados, que ninguém os entende, só o pequeno grupo dos eleitos, dos iluminados por revelações e segredos misteriosos.

Mestres como esses, não faltam. Alguns falam mais alto, são poderosos, sobressaem, juntam multidões. Outros passam quase despercebidos, poucos os seguem. Outros, enfim, são compreendidos e reconhecidos anos e anos depois da morte.

Não é fácil distinguir os verdadeiros mestres, que apontam para a verdade e o bem, dos falsos profetas, que geralmente apontam para si mesmos, diretamente ou indiretamente.

Hoje, muitos falam bonito, parece que sabem tudo e que conseguem explicar tudo. Conhecem todos os segredos escondidos, até aqueles que ninguém nunca revelou. É só deixar-se guiar pelo dedo deles, não perdê-lo de vista. Parecem apontar além. Na realidade o objetivo deles não passa do seu dedo. Leia-se: interesse, sucesso, poder, lucro pessoal.

Não é por acaso que todos os últimos Papas repetiram, e repetem, também se com palavras diferentes, que o mundo de hoje precisa mais de testemunhas que de mestres. É mais fácil ser mestres do que testemunhas. Porque o testemunho exige mais do que o ensinamento. Exige a própria doação. O mestre-testemunha paga com a própria vida o seu ensinamento. O falso mestre, muitas vezes, é pago para ensinar e lucra com a venda das suas idéias. Não dá para saber se ele mesmo acredita no que ensina, porque não dá para conhecer realmente a sua vida. Ensinamento e vivência andam separados.

A testemunha, não. Pode até não falar nada, ou podem não lhe deixar falar, mas a sua vida, suas atitudes falam por ela. Infelizmente muitos se satisfazem só com as palavras dos sagrados mestres da propaganda. Nunca se preocupam em saber se eles, ao menos um pouco, praticam o que ensinam.

João Batista disse que dava o seu testemunho sobre Jesus. Quem segue um verdadeiro mestre-testemunha também aprende a ser testemunha. Mestre e discípulos olham para a meta, fascinados pelo valor da descoberta e pela beleza do projeto. Seguindo o Único Mestre, também olham longe, trabalham para um Reino maior do que todos os poderes humanos, o grande reino da santidade e do amor. O Reino de Deus.

Em tempos de muitas palavras vazias, o testemunho da própria vida se tornou indispensável. Cada batizado deveria ser um discípulo, testemunha do Verdadeiro Mestre e apontar para outros onde estão o Caminho, a Verdade e a Vida.

Se não conseguimos ser pequenos mestres com as palavras, que o sejamos, ao menos e sem deixar dúvidas, com a nossa vida. Seremos testemunhas sinceras e ensinaremos com o nosso bom exemplo. É o mais importante.