O Elias

Carlos Augusto Ramos
Breves, abril de 2004

Velho Elias passara.

Passara por mim

e quase deu pra tocá-lo.

Homem bom, de Breves,

puro,

viúvo desde cedo na vida

e abdicado da sacanagem,

sua de direito.

Tocador de banda

daquelas que banjo e músicos

ficavam cansados nos piseiros

e dançarinos que eram vigiados pelos pais das moças,

ai de quem beijar

outrora era.

Ia para a roça,

da roça para casa

pentear filha,

catava lêndea

“e continuava homi”.

Radinho de pilha,

jogo do Remo,

sete da noite,

“pára com a zoada, meninu”,

quando o conheci.

Seu Elias, velhinho,

não podia mais roçar.

Malmente escutar rádio.

Os nervos reclamaram:

“vou imbora daqui,

si não pudé mais passá

terçado no matu!”

E foi-se certa noite.

Não foi pro céu. Já era do céu.

Uma bonita jovem de sua mocidade o aguarda:

“cata meu piolhu, Elias,

faz tempu qui eu tô esperandu. Táqui a lata”.

Enquanto isso, aqui na terra,

nós continuávamos na sacanagem...