O ENCONTRO

Dom Pedro José Conti,
Bispo da Diocese de Macapá

Quando uma pessoa manifesta aptidões para uma certa atividade, profissão ou estado de vida, é comum dizer que ela tem vocação para aquela situação. Nesses casos a predisposição, os talentos e o jeito dela se juntam com a preparação, a competência, a simpatia e o gosto por aquela atividade. Pode ser uma profissão, uma arte, uma forma de passar o tempo, uma condição de vida - como constituir uma família, por exemplo -.

A pessoa fica satisfeita, se sente realizada com aquilo que faz, pela forma que tem de conduzir a sua vida. Os outros desfrutam dos bons resultados, da sua criatividade, da sua eficiência, do seu entusiasmo. È bom para ela, é bom para os outros.

Infelizmente nem todos podem dizer que estão tão bem, que se sentem a pessoa certa no lugar certo. Muitos agüentam trabalhos e profissões indesejadas; simplesmente, por não ter tido opções. Outros, também, não se sentem felizes pelo próprio estado de vida. Acabam conformando-se com a situação, também se gostariam muito que fosse diferente. Eles tinham, provavelmente, uma outra vocação.

Isto pode se dizer depois, ao longo da vida, vendo os frutos do esforço daquela pessoa, as condições da sua vida, as dificuldades ou as alegrias que experimenta. Mas antes, quando ele, ou ela, era muito mais jovem, quando teve a chance de escolher, a possibilidade de decidir o caminho, como se deu a sua vocação? Quando e como um jovem, ou uma jovem, pode ter a clareza da própria vocação, a intuição que tomando aquela decisão algo de importante irá acontecer na sua vida?

Não é tão simples responder, cada um tem a sua história, mas acredito que toda vocação se realiza a partir de um encontro.

Uma família sempre começa com o encontro do casal. Duas pessoas antes desconhecidas ou que não ligavam uma para a outra se encontram. Olham-se e algo de bonito e de grande pode acontecer. Descobrem que podem ajudar-se na vida; o que uma tem falta à outra. Decidem juntar as suas vidas para que dali para frente seja uma vida só. É o mistério do amor entre o homem e a mulher.

Quase sempre no início da carreira de um grande artista está o encontro com alguém que o ajudou a descobrir o seu talento ou o incentivou a ir para frente. Pode ser alguém da própria família; alguém que, por acaso, o tenha ouvido cantar, tocar, o tenha visto pintar, ou mesmo o tenha descoberto num banco da escola aprendendo a crescer. Para muitas crianças um encontro com um educador, com um profissional, com uma boa pessoa, levou-as a pensar: - Quando eu crescer quero ser como ele, como ela -. E aquele exemplo nunca mais saiu da memória e dos sonhos daquela criança.

Penso ao encontro de Jesus com os pescadores na beira do mar da Galiléia. Pedro e os outros tinham as suas famílias, a sua profissão. Talvez não esperassem nada de muito novo na vida deles. Estavam, diríamos hoje, estabilizados. É uma maneira de falar por que bem pouca pode ser a estabilidade de pobres pescadores que viviam da incerteza da pesca, do tempo, das tempestades. Mas a vida deles estava traçada. Talvez tivessem também renunciado a sonhar. Bastou passar Jesus e chamá-los que, deixaram tudo e o seguiram. Jesus viu no fundo do coração deles uma potencialidade a eles mesmos desconhecida. Tinham condições para ser pescadores de homens. Nem eles imaginavam tanto.

O encontro com Jesus não deixa ninguém sossegado. Começa uma nova e sofrida aventura, mas também acontece a maravilhosa descoberta que até pescadores, cobradores de impostos, revolucionários e ladrões, podem ser apóstolos.

Que pena que muitos de nós, que nos chamamos de cristãos, nunca tenhamos encontrado Jesus de verdade.