AS APARÊNCIAS ENGANAM, SIM

Édi Prado -20/06/07

Tudo é teatro, jogo de cena. Encenação. As aparências são aparências. Nada mais do que aparências. As indumentárias são as de ocasião. Tudo tem que estar de acordo com o figurino na arte de seduzir, enganar, mentir. São uns ilusionistas e tem gente que só acredita nisso. Chega de tanta realidade. É como sempre diz o velho deitado: Eu queria ser pobre um dia. Mas todo dia é PH, ácido demais. Vejo nos jornais os operários da obra, quase embargada, do Aeroporto Internacional de Macapá. Todos eles, como se estivessem num estúdio de fotografia, prontos para um comercial de uma empresa moderna, mostrando que trabalhar com segurança é digno e dar prazer. Os operários posam de óculos protetores, capacetes limpinhos, ainda refletem a luz do sol, de tão brilhosos que estão. Luvas, botas, macacão. Isso mesmo: macacão no estilo jardineira e botas lustrosas, como soldados no quartel, antes da “revista” na tropa.

Que é bonito isso ninguém tem dúvida. Mas reparem nas fotos. No máximo três operários. Não existe o aparato da indumentária para todos. São peças de vestuários para fazer fotos e “aparecer” na televisão. Depois tira tudo e guarda no armário para a próxima sessão de fotos. É igual no teatro. É assim, mesmo.

No dia dia-a-dia, vá a um canteiro de obras. Olhe como estão trabalhando os operários. Certamente que você deve pensar que esse pessoal que está no trampo, não precise de tudo isso. Imagina: óculos, luvas, macacão, botas, capacetes... Isso deve dar um trabalhão para colocar. E o calorão debaixo daquele sol do equador?

Ainda ontem, próximo a feira maluca, vi uns operários com aquele roçador nas costas e lâminas compridas. Todos eles de macacão, óculos protetores, botas, luvas e uma cerca de plástico armadas nas calçadas, para proteger os passantes. Curioso, olhei para todos os lados. Estariam gravando uma cena para novela, filme ou documentário? Onde estavam os câmeras? Não vi ninguém. Olhei por cima do posto de combustível, nada.

Eles deveriam estar preparando cenário. À tarde, num desses programas de violência da TV local, vi os médicos, enfermeiros e até os de serviços gerais todos a caráter: Uniformes, máscaras de proteção, luvas e jalecos, batas, tudo limpinhos, em contraste com as enfermarias lotadas e os pacientes esfaqueados, baleados, vítimas de acidentes diversos.

Nas ruas, máquinas, caçambas, caminhões, cones de advertência e trânsito desviado. A primeira idéia é que aquela rua será asfaltada ou vai ser submetida a uma cirurgia de tapa buracos. E os operários sentados, encostados nas paredes, contando piadas em grupinhos e rindo. Rindo de quê?

Enquanto isso, os parlamentares todos engravatados e com ternos impecáveis, fingem que são dedicados e preocupados com a situação do País. A cara séria inspira respeito. Tudo lembra o teatro ou o picadeiro de um circo onde o palhaço, com a cara pintada de alegria, finge que está alegre. Mas o palhaço é um artista, que tem como função fazer rir, mesmo quando está triste ou não tem comida em casa. Mas se todos quiserem fingir como o palhaço, mais respeito com o palhaço. A vida não é um picadeiro, onde todos fingem o tempo inteiro. E se a arte imita a vida e a vida imita a arte porque não o fazemos de forma profissional e deixamos de ser AMA a dor?