Trilha sonora de uma vida militante

*João Capiberibe


Manifestação dos estudantes mineiros contra a ditadura militar,
em frente à Faculdade de Direito da UFMG.
Foto: Arquivo Nacional / Correio da Manhã


No começo, eu não ousava nem mesmo me aproximar, ficava de longe torcendo pelos que sempre levavam a pior e não se emendavam, ia e vinha, lá estavam eles a desafiar os "homens" da lei que jogavam seus cavalos pra cima de manifestantes a pé e desarmados, causando enormes estragos. O contra-ataque não demorou, as bolinhas de gude espalhadas no asfalto pelos estudantes provocavam tombos espetaculares, minando o moral da tropa repressora, ao mesmo tempo em que levantava a estrepitosa torcida que se aglomerava espremida nas calçadas, janelas e sacadas dos edifícios para aplaudir e jogar papel picado nos que ousavam desafiar a ditadura na Avenida Afonso Pena.

Era tempo de Travessia nas noites pré-1968 de Belo-Horizonte, os bares transbordavam de gente, a maioria, protagonistas dos acontecimentos do dia. Tudo era iminente, a ditadura parecia balançar, mais uma ou duas manifestações daquelas e pimba! Os militares voltariam aos quartéis. Relatos, seguidos de inflamados debates, sobre os rumos do movimento ganhavam a madrugada ao som de muita música popular brasileira, às vezes cantada, às vezes maltratada.

Os instrumentos, uma caixinha de fósforo, duas colheres e o tampo da mesa como atabaque e um coro de desafinados enchiam o ambiente carregado de fumaça de cigarro, às vezes de melancolia, outras de alegria e descontração. Lá pelas tantas todas as vozes se uniam e o bar inteiro cantava:

Quando você foi embora
Fez-se noite em meu viver
Forte eu sou, mas não tem jeito,
Hoje eu tenho que chorar
Minha casa não é minha,
E nem é meu este lugar
Estou só e não resisto,
Muito tenho pra falar.
Travessia
Milton Nascimento

Nos dias seguintes, lá estava a linha melódica grudada nos labirintos da memória, ficava ali meses, às vezes anos, até que novos acontecimentos sacolejassem o ritmo de nossa vida política.


As agitações e turbulências de 1968 fizeram subir a escalada repressiva. No ano seguinte, a torcida foi minguando, desaparecendo das calçadas. Parou a chuva de papel picado das janelas e sacadas dos edifícios. Os "homens" deixaram os cavalos pastando, vinham para avenida protegidos e armados até os dentes, com bombas penduradas na cintura, escudo na mão direita e na esquerda um enorme cassetete. Seguiam o rastro de um animal metálico esquisito chamado Brucutu, que esguichava violentos jatos d´água, varrendo quem estivesse pela frente: manifestantes ou simples transeuntes.

Os que caiam iam sendo recolhidos a pauladas e pontapés até que adentrassem nos camburões que vinham na retaguarda. Marcão, nosso companheiro de república, viveu e nos relatou sua amarga experiência nas mãos dos "homens". Os ventos estavam mudando de direção.

Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...
Caetano Veloso


Passeata de estudantes em 4 de julho de 1968, no Rio de Janeiro. Foto: O Globo


Resistentes, brotavam do nada, vindos sabe Deus de onde, às centenas se aglomeravam em um ponto e hora que só eles sabiam, de repente alagavam a Afonso Pena e marchavam, sem lenço e sem documento, com as armas de sempre, faixas e cartazes com as frases: ABAIXO A DITADURA. O POVO UNIDO JAMAIS SERÁ VENCIDO.

A temperatura política esquentara, à noite também, menos descontraída e mais tensa. A música de fundo, era outra, refletia ansiedade e rebeldia, um incontido desejo de liberdade:

É proibido proibir
Caetano Veloso

Me dê um beijo meu amor
Eles estão nos esperando
Os automóveis ardem em chamas
Derrubar as prateleiras
As estantes, as estátuas
As vidraças, louças
Livros, sim...
E eu digo sim
E eu digo não ao não
E eu digo: É!
Proibido proibir
É proibido proibir
É proibido proibir


Confronto entre policiais e estudantes durante a manifestação contra aprisão do repórter Humberto Kinjo, em São Paulo, em agosto de 1968. Foto: Arquivo Nacional/Correio da Manhã.

A juventude ganhara as ruas nos quatro cantos do mundo, a chama da revolução se espalhara de Paris a Tóquio, de Praga a Washington. A disposição era enorme, reduzir tudo às cinzas para depois reconstruir uma sociedade que tivesse a cara e o tamanho da generosidade de seus protagonistas. Estava decretado o fim da desconfiança, da cobiça e da ambição, como dizia o poeta: O homem confiará no homem como o menino confia em outro menino. Não deu certo, restou a ressaca cívica que varou o tempo.


Estudantes velam o corpo de Edson Luís Lima Souto, morto em confronto com a polícia militar durante uma manifestação contra o fechamento do restaurante Calabouço, em 28 de março de 1968, no Rio de Janeiro.


Brasil, março de 1968, a ditadura faz sua primeira vítima entre os estudantes, Edson Luís de Lima Souto, dezessete anos, é assassinado com um tiro no peito pela polícia durante uma manifestação contra o fechamento do restaurante Calabouço: "Mataram um estudante, podia ser seu filho". Esta frase ecoou de Norte a Sul do país causando inusitada indignação política, levando os estudantes a organizar grandes manifestações nas principais capitais brasileira, culminando com a passeata dos Cem Mil, que partiu da Cinelândia e terminou na Central do Brasil no Rio de Janeiro. A ditadura reagiu com intolerância, reprimindo com violência, prendendo e assassinando mais estudantes.

A essa altura, eu já não era apenas o simpatizante que olhava os acontecimentos à distância. Aos poucos fui abraçando aquela causa que não compreendia lá muito bem, porém já conseguia separar as coisas, de um lado os que tinham sede de justiça, do outro os opressores. O cerco ia se fechando, tudo era proibido, tudo era perigoso, mas não dava prá engolir, não dava prá ficar na praça dando milho aos pombos. Era preciso fazer alguma coisa, era preciso seguir a canção:


Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz à hora
Não espera acontecer...
Geraldo Vandré


Foi a senha para a radicalização, se tudo era proibido, então o que fazer? Cruzar os braços? Desbundar? Como se dizia na época. Se engajar na luta armada? Que mais? Ah! Sim, mergulhar na meditação transcendental em uma comunidade alternativa.

Mesmo sem saber atirar, decido pela luta armada. Troco Minas pelo Pará, onde me dedico integralmente à militância. Vou ao Rio de Janeiro para um encontro com Carlos Marighella, líder da ALN (Ação de Libertação Nacional), na volta por Belo Horizonte, mais dois estudantes se integram a organização, Élson Martins e Tito Guimarães Filho, que de armas entendiam tanto quanto eu.

No meio desse turbilhão, em uma noite de Natal, depois da Missa do Galo, sentados em uma praça deserta, no meio do mundo, ouvindo a música, que se transformaria para sempre na trilha sonoro de nossas vidas:
Here, There and Everywhere (Aqui, aí e em todo o lugar) The Beatles To live a better life (Para viver uma vida melhor) I need my love to be here (Eu preciso que meu amor esteja aqui)

Eu e Janete selamos um pacto de amor e luta. Foi na Linha do Equador em Macapá, na virada da década de sessenta. De lá para cá, de mãos dadas, vivemos cada momento, compartilhamos cada emoção. Na mesma época, mais dois voluntários, colegas de sala de aulas, sem qualquer aptidão às armas, se incorporam a luta, Aldoni da Fonseca Araújo e Leonardo Gazel.

Nossas escolhas e desafios nos levaram a viver situações extremas, a primeira aconteceu lá atrás quando da nossa prisão ou foi seqüestro? No dia 7 de setembro de 1970.
A segundo, trinta e três anos depois, já na "democracia operária" do presidente Lula. Quando menos se esperava que pudesse acontecer, de repente aconteceu. Disso falaremos no final.


Dos porões da ditadura consigo escapar graças a um mutirão organizado por Janete entre nossos amigos de Belém. Antes de completar um ano de prisão, em uma noite quente do final de julho de 71, vestido de médico, deixo o hospital pela porta da frente, dando boa noite aos meus carcereiros.

Foram vinte e cinco dias pelo Rio Amazonas até Rondônia, de onde atravessamos para Bolívia pensando em pedir asilo político. Não levamos sorte, demos de cara com uma quartelada sangrenta.


Na Bolívia com a filha Artionka

Nessas andanças já éramos três, Artionka, que nascera quando estávamos na prisão, nos fazia companhia. Ficamos clandestinos em Cochabamba esperando acalmar a tempestade política. Fizemos amigos entre os índios Quechuas e Aymaras, com quem aprendemos sobre sua cultura e provamos sua bebida milenar, a ticha, nos deixamos levar pelos sons das Quenas e Charangos:

El Cóndor pasa
Ó majestoso Condor dos Andes,
leva-me ao meu lar, nos Andes, Ó Condor.
Quero voltar à minha terra querida e viver com meus irmãos Incas,
que é o que mais anseio Ó Condor.
Em Cusco, na praça principal, espera-me,
para passearmos em Máchu Pícchu e Huayna Picchu
Daniel Alomia Robles/Julio de La Paz


Foram três meses de espera para, em um lance perigoso, conseguirmos cruzar a fronteira e chegar ao Peru, depois no Chile de Salvador Allende onde recebemos asilo político e também, para completar nossa felicidade, ganhamos a companhia dos gêmeos Camilo e Luciana e da música de Violeta Parra.


Gracias a la vida
Gracias a la vida que me ha dado tanto.
Me há dado la risa y me há dado el llanto.
Asy yo distingo dicha de quebranto,
Los dos materiales que formam mi canto,
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos, que es mi próprio canto.
Gracias a la vida que me há dado tanto.
Violeta Parra


Manifestação em Santiago, reunindo um milhão de chilenos no dia 05 de setembro de 1973, oito dias antes do golpe que matou Salvador Allende


A experiência chilena de construção do socialismo pela via democrática termina em tragédia, com milhares de mortos e desaparecidos, incluindo o assassinato do presidente Allende, eleito pelo voto popular.


A chegada no Canadá em 1973, já com os gêmeos Camilo(com Capi) e Luciana(com Janete), ao centro a irmã mais velha, Artionka

Após quatro meses vivendo em campo de refugiado das Nações Unidas, com passaportes da Cruz Vermelha Internacional deixamos Santiago com destino a Toronto no Canadá. Uma semana depois já estávamos em Quebec, onde permanecemos por quatro anos, estudando e convivendo com a cultura política e a música que marcou a chamada revolução tranqüila:

Mon Pays
Gilles Vigneault
Mon pays ce n'est pas un pays, c'est l'hiver
Mon jardin ce n'est pas un jardin, c'est la plaine
Mon chemin ce n'est pas un chemin, c'est la neige
Mon pays ce n'est pas un pays, c'est l'hiver


No comecinho de 1978 cruzamos o Atlântico com destino a Moçambique. Lá íamos nós, contribuir na reconstrução de um país arrasado por uma longa guerra colonial. Às vezes me surpreendia imaginando o Brasil de 1825, três anos após a independência, e era bem isso, chegamos a Moçambique três anos depois de sua libertação do domínio colonial português. Uma experiência e tanto.

Foram dois anos de trabalho e aprendizado, e também, de uma enorme expectativa com a volta ao Brasil. Havíamos iniciado a contagem regressiva. Em agosto de 1979 foi aprovada a lei da anistia. Aproximava-se o fim do longo exílio. Na bagagem trouxemos os discos de um angolano, em suas músicas, o semba, precursor do nosso samba, e na sua voz dava pra sentir a alma, os sentimentos e a dor da mãe África:

Mona Ki Ngi Xica
Composição e interprete: Bonga
Eu estou em perigo de morrer,
E eu já te tenho avisado disso.
Ela estará aqui e eu partirei.
Esta minha criança, as pessoas más vão depois dela.
Esta minha criança, numa maré de infortúnio.
Deus deu-me esta descendência, trazida no mundo.
E ela ficará aqui, quando eu partir.


Vivíamos em Maputo, no terceiro andar de um prédio de apartamentos, situado na Av. Friedrich Engels, com vista para a Baía de Moçambique no Oceano Índico. Naquele dia, antes de estacionar o carro, vi Janete na janela, acenando e pulando com uma fita cassete na mão:

- Corre! Corre! Chegou a música da Elis, fala do Betinho, fala da volta. É a música da nossa volta ao Brasil.

Subi as escadas voando, à tarde não fui trabalhar, ficamos horas ouvindo a música cantada pela Elis, sonhando com a volta. Daí em diante não se falou em outra coisa até o dia do embarque.

O Bêbado e a Equilibrista
Intérpret: Elis Regina, Composição: João Bosco e Aldir Blanc
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de a...lu...guel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco
O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil
Prá noite do Bra...sil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete

O romantismo da volta começou a se desfazer já na chegada, no aeroporto do Rio de Janeiro. Fomos os primeiros a desembarcar, apartados e conduzidos para uma sala da Polícia Federal. Nos apresentaram um questionário quilométrico, queriam saber tudo sobre os últimos dez anos, um de prisão e nove de exilio. Nosso filhos, a mais velha com nove anos, os gêmeos nascidos no Chile com sete, percebendo a situação, resolveram encurtar nosso diálogo com os "homens". Aprontaram tanto que eles logo mudaram de idéia e transferiram a conversa para outra ocasião.

Sem problema, o importante era que estávamos de volta, sem grandes ilusões. Logo na chegada percebemos que havia um longo caminho a ser feito rumo à democracia. Opa! Alto lá. Ainda há muito que caminhar, não passou, mais vai passar, basta a gente resistir e continuar.


Capiberibe discursa em sua defesa na Tribuna do Senado no dia em que o Presidente da Casa, senador Renan Calheiros, decreta vaga a sua cadeira naquela casa: injustiça histórica


Ah! Sim, ia esquecendo. Foi no final de abril de 2004, que o presente encostou no passado. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral) decide rever uma decisão do TRE/AP e nos reservar um "lugar na história das eleições do país", como primeiro senador cassado, acolhendo a acusação de nossos adversários da compra de dois votos, por vinte e seis reais. Janete também teve seu mandato de deputada federal cassado pelo mesmo tribunal, um ano depois retornou à Câmara nos braços do povo do Amapá com uma votação histórica.


Vai Passar
Chico Buarque
Composição: Chico Buarque e Francis Hime

Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval


*João Capiberibe, ex-prefeito de Macapá, ex-governador e senador do Amapá, é vice-presidente nacional do PSB