Asfalto e a cidade: o buraco é mais embaixo
* Por Luan R. Menezes
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Tenho a sensação que vivo o passado e o retrocesso em pleno presente. Aqui parece que tudo é feito de maneira paliativa. Ando pela cidade e não a vejo como queria ver: com ruas uniformes, sinalizadas e bem asfaltadas, meios-fios com canteiros de flores, calçadas feitas em frente às casas, com iluminação adequada em vez de escuridão. As praças, com raríssimas exceções estão sujas e abandonadas, muitas em pleno centro da cidade, quando deveriam ser cartões postais de uma Amazônia bela e referenciada.

Penso que muito disso gira em torno do asfaltamento, uma urbe se torna plenamente madura e desenvolvida quando o seu capeamento é sólido e bem planejado, a partir desse fato, tudo ao redor de uma rua com asfalto planejado parece ser mais moderno, estruturado, desenvolvido. É padrão em toda capital brasileira, mas infelizmente a exceção é Macapá, aqui é tão raro de se ver nos bairros a combinação de rua asfaltada, sinalizada como deveria, com drenagem, saneamento, calçadas feitas e sistema de esgoto eficiente para a captação de águas pluviais.

Chega o verão e com ele as chuvas e...os buracos. Em um velho e conhecido ciclo vicioso. De novo vê-se o jogo de empurra entre empreiteiras, o Governo do Estado e a Prefeitura, para achar o culpado da situação. Quando chove na cidade, o caos fica completo: é a formação de grandes poças (espelhos d’água) na superfície das ruas - muitas vezes escondendo imensas crateras - quando estas deveriam estar devidamente delineadas para prover o escoamento das águas pelas valas laterais - as que passam em frente ao calçamento. De novo, nós, os contribuintes, que pagamos a conta, ficamos perplexo: afinal, por que as ruas de Macapá são tão ruins?

Asfalto é coisa séria. Traz inúmeros transtornos. A sociedade precisa se rebelar contra a real situação das ruas e avenidas de Macapá. Há os que são a favor de uma CPI do Asfalto no Amapá. Precisamos pressionar e bombardear as autoridades com questionamentos: Por que a qualidade do asfalto que se implanta nas ruas de Macapá e Santana é tão ruim? Onde está o padrão técnico e de qualidade? Por que não investir mais na aquisição de matéria prima de excelência para a confecção de uma camada asfáltica consistente, que dure mais? Até quando vamos nos contentar com operações do tipo tapa-buraco? Chega! Não se pode, o tempo todo, querer tapar o sol com peneira, dizer que a coisa vai mudar e nunca muda.

No Pacoval, por exemplo, bairro onde moro, existem ruas e passagens intrafegáveis. Há um longo período na cidade em que se somam asfalto de péssima qualidade com obras inacabadas por toda a cidade, prédios degradados, com sujeira e poeira, buracos e crateras no asfalto. A cada dia que passa, a buraqueira aumenta exponencialmente e nada é feita de concreto para sanar o problema em definitivo, apenas a velha maneira paliativa e provisória do governo de executar o recapeamento, jogando um fino lodo negro de massa quente sobre o solo, dizendo ser essa a solução para as ruas (há até os que debocham da situação, dizendo que até borra de café e Sonrisal é misturado ao asfalto usado). Em suma, as mazelas dessa cidade são tantas e se perpetuam por tanto tempo, que completam até aniversário e, ironicamente, são “comemoradas” pela população, como forma de protesto. São cidadãos que se sentem de mãos atadas com o descaso das autoridades.

A falta de informações precisas das empreiteiras sobre a influência dos agregados minerais, bem como dos constituintes do cimento asfáltico para o desempenho das misturas, indica a necessidade de compromisso e estudos detalhados de suas propriedades para formação de um asfalto de melhor qualidade. Sob as rodas de um automóvel, há um pavimento com várias camadas de materiais diferentes, podendo atingir mais de 1 metro de profundidade. Ele começa com a terra compactada, tem duas ou três faixas intermediárias, que podem ser formadas por brita (aqui quase não se usa esse material) ou uma combinação de terra e cimento, e termina com o chamado concreto asfáltico, mistura de asfalto com brita pequena e areia

Para cada tipo de solo, traçado e volume de tráfego da rua, será projetado um pavimento diferente, variando a espessura das camadas e o material que elas contêm. Mudanças mal estudadas na composição podem provocar buracos no futuro. Em Macapá, pouco se faz do primeiro item e muito do segundo. Normalmente, mais da metade dos problemas que analisamos nas ruas se deve a erro de projeto ou de execução da obra. Uma rua bem feita, mesmo com manutenção precária, será melhor que outra com manutenção constante, mas mal feita.

No estado do Amapá, com o aumento do poder aquisitivo da população, houve um aumento considerável de carros de passeio. Essa “grande explosão” de veículos ocasionou grandes danos aos asfaltos, como trincas, buracos e desprendimentos dos solos. A resposta mais tradicional para a rápida degradação do asfalto na cidade é que o Governo do Estado e Prefeitura têm pouco dinheiro para fazer a manutenção das ruas. Ninguém nega o fato, mas o buraco é mais embaixo, bem mais embaixo.

Hoje em dia, verifica-se que, mesmo após inúmeros consertos nas pistas de asfalto, o problema volta a aparecer após alguns meses ou até mesmo dias. Um exemplo freqüente ocorre nas proximidades dos pontos de ônibus da cidade, que não estão preparados para suportar a alta tração gerada pelos ônibus na região, pois se observa a formação de grandes ondulações fora da pista, que acabam por se desprenderem do solo, podendo ocasionar acidentes de trânsito ou a algum pedestre.

A falta de verbas para manutenção não é a principal explicação para a degradação do asfalto, mas não pode ser desprezada. Se o dinheiro é escasso, ele também não é aplicado de forma inteligente. Pela legislação atual, ao contratar uma empreiteira, o governo não paga um valor fechado pelo asfaltamento. Ele calcula o preço separado de cada serviço e no final soma tudo. Numa obra em Macapá, são calculados os metros cúbicos de terra deslocados, os quilômetros rodados pelos caminhões, o metro linear de tinta, e por aí vai. É como se você entrasse numa concessionária e tentasse descobrir quanto custa um carro pelo valor unitário das peças. O preço final fica astronômico e torna-se quase impossível fiscalizar os gastos.

Na minha opinião e de muitos moradores de Macapá, a solução seria realmente se criar uma CPI do Asfalto - com ares de Audiência Pública - a fim de que se possa discutir a fundo com o governo e encontrar a solução, através de um embasamento técnico e profissional, com o intuito de convencer as autoridades de que o asfalto que se implanta na cidade é de péssima qualidade e que não se justifica pagar mais barato ou abrir mão de certas matérias-primas essenciais na confecção do mesmo para se economizar dinheiro público. No final, quem paga a conta somos nós.

*Luan Menezes, 20 anos de idade, é Tecnólogo em Redes de Computadores;
Músico e amante da arte, atualmente trabalha na Prefeitura de Macapá.