A César, o que é de César; a Deus, o que é de Deus; e pra mim, 10% tá bom


POR EBERTH VÊNCIO


Um dos fragmentos mais conhecidos do Novo Testamento conta um episódio curioso acerca dos ensinamentos de Jesus Cristo para o povão daquela época (se na atualidade o ser humano esbanja ignorância, imagine só naqueles tempos bicudos).

Durante peregrinação com os discípulos e outros seguidores (e conta-se que eram muitos), Jesus teria sido provocado por um fariseu folgado. O espírito-de-porco perguntou ao Rabi se ele considerava justo que tributos fossem pagos pela população a Roma. Sabido até mandar parar, o mestre deu uma resposta de mestre ao interlocutor malicioso, já o repreendendo nas entrelinhas: “ — Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Na minha leiga interpretação, penso que Jesus sugerisse que não confundíssemos dinheiro com espiritualidade, ou materialismo com a fé. Departamentos avessos, diferentes. Para mim, leitor relapso dos textos sagrados, este foi o recado do Nazareno ao fariseu otário e a todos que já leram esta e outras estórias.

Estranhamente, várias religiões promovem um mix mais que profano (muitíssimo antagônico) entre os bens materiais (principalmente, a grana) e a religiosidade. Esta equivocada e perniciosa relação entre dinheiro e divindade propagada por bispos, pastores e demais domadores das massas atinge o impensável.

Por exemplo, um bando de calhordas irmanados na pilhagem do dinheiro público se abraça e reza com fervor para agradecer a Deus e enaltecer um dentre eles que proporcionara a arrecadação de mais dinheiro ilegal proveniente da corrupção. A prece macarrônica deu-se no Distrito Federal e foi filmada, escancarada nos principais veículos de comunicação do Brasil, um país que não tem tufões, vulcões, terremotos relevantes na escala Richter, mas possui um povo ainda muito deficiente em educação e cultura, beirando a calamidade...

Tramita no Congresso Nacional o projeto “Ficha Limpa”, que visa a dar uma peneirada nos candidatos a cargos eletivos, banindo do pleito aqueles que tiverem “ficha suja”, ou seja, condenações decorrentes de crimes graves como estupro, assassinato, fraude, corrupção, etc. As exíguas possibilidades de a lei vingar estão deixando um meu conhecido deveras estressado.

Homem rico e prepotente (dublê de um deus), ameaçado por ações judiciais e pela saga da Polícia Federal que “não larga do seu pé”, ele aposta a redenção nas próximas urnas. Eleito pelo povo, tangido pela força do poderio econômico, ele ficaria livre da cadeia por causa da imunidade parlamentar. A tática é bisonha, porém, corriqueira e bastante utilizada por centenas de picaretas travestidos de políticos no território nacional.

Assisti pela TV que o Estado do Mato Grosso teria, supostamente, feito a compra superfaturada de caminhões e máquinas pesadas para recuperação de rodovias. Segundo foi noticiado, o total da aquisição teria sido 241 milhões de reais, valores 10% (em média) acima do valor praticado pelo mercado. As autoridades fiscalizadoras desconfiam que cerca de 26 milhões de reais seriam destinados ao pagamento de propinas e as famigeradas comissões fraudulentas.

O modelo econômico e político brasileiro, portanto, constitui uma miscelânea de difícil compreensão para um simples (e deseducado) mortal. Uma mescla de politicagem com fins escusos; gestão pública fraudulenta; ineficiência dos órgãos fiscalizadores; desinformação por parte da população; um fanatismo religioso tão primitivo que nos faz crer que é assim mesmo, que brasileiro nasceu pra sofrer; inoperância do voto consciente (uma das ferramentas mais dignas da cidadania); falta de cobrança dos cidadãos sobre os parlamentares e o Poder Executivo.

Enfim, há um longo caminho a ser percorrido por esta e as futuras gerações até que atinjamos um modelo de sociedade mais igualitária, justa, honesta e solidária. Pode até ser que o mundo acabe antes que consigamos alcançar este objetivo (afinal, a produção de lixo e a deterioração do meio ambiente avançam em doses cavalares). Mesmo assim, não há motivos para desespero. Vide Jesus Cristo, Gandhi, Madre Tereza de Calcutá, Martin Luther King, Irmã Dulce e tantos outros mártires que caminharam sobre este judiado planeta tolerando a estultice, intolerância e estupidez dos seus pares.