Semi-cristãos

Dom Pedro Josè Conti,
Bispo de Macapà

Ultimamente ando reparando como muda o uso das palavras. Até alguns tempos atrás, a loja que vendia carros com uns bons quilômetros andados, apresentava-os como "carros usados". Hoje lemos, a letras gigantescas: "semi-novos". Os carros continuam velhos, mas a impressão é diferente. Só pesquisando muito, talvez, conseguimos saber se eles estão mais perto dos novos ou dos usados. O mesmo acontece com a bijuteria. Hoje chama-se de semi-jóias. Quer dizer que não são jóias verdadeiras, mas também não querem ser classificadas como mera bugiganga de enfeite pessoal. Conclusão: não existem mais carros velhos, ninguém usa mais bijuteria, tudo deve parecer "zero-quilometro" ou brilhar como uma verdadeira pérola preciosa.

Também já vi na televisão que político educado não ousa dizer que o seu colega falou uma mentira, simplesmente o que disse foi uma "inverdade".

Deste jeito também não existem mais mentiras. Tudo virou novo, brilhante, verdadeiro. Enfim, é tudo uma beleza ou uma grande ilusão. Se não posso ter o carro novo, terei um semi-novo. Se não possuo uma jóia, terei uma semi-jóia. Se escondo a verdade, não minto, simplesmente digo uma inverdade.

E assim por adiante. O que vale são as aparências ou o resultado. Temos vergonha de ser o que somos. Por que devemos nos disfarçar, nos esconder?
Estamos tornando-nos mestres das meias verdades e das meias decisões. Só que o jogo das palavras pode nos trazer grandes enganos na vida. As palavras acabam escondendo a verdade.

Jesus foi mais radical. Foi mais corajoso e decidido. Deixou dito aos seus que não podiam servir a dois senhores. Acabariam amando um e odiando o outro. Pior ainda se este outro é o dinheiro. Falou claro: "Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro" (Mt 6,24).

Nós gostaríamos muito poder ficar com os pés nas duas canoas. Somos mestres do equilíbrio. Nem de um lado e nem do outro. Assim sobrevivemos, mas também assim não mudamos nada, porque nunca decidimos e nunca nos libertamos.

Querendo ficar com tudo, acabamos ficando com nada. O pior é que Deus está sendo deixado cada vez mais para trás. Se é para servir um só Senhor, que seja o nosso sucesso, que seja a nossa vontade, que seja o nosso lucro. Está nos acontecendo com o dinheiro o que acontece ao beberrão. Ele sempre diz que para de beber quando quiser, mas nunca para, nunca decide. Não admite, mas já está viciado.

Para nos libertar de verdade e sair da escravidão da cobiça, Jesus nos convida a olhar a natureza, aos pássaros do céu e aos lírios dos campos. Não plantam, nem fiam e vivem da alegria de voar e de ser bonitos; vivem pela simplicidade e não pelo acumulo. Satisfazem as suas necessidades e não se deixam dominar pelos desejos insaciáveis. É Deus Pai que alimenta os pássaros e veste de cores a erva do campo, de vida tão curta. O nosso trabalho deveria ser para satisfazer as necessidades, para nos permitir viver em paz e não para acumular sem limites. Certos desperdícios, como certas riquezas esbanjadas, só para nos mostrar, são uma verdadeira ofensa aos pobres que mal sobrevivem. Manifestam que ainda somo obedientes servidores do dinheiro e não do único Senhor verdadeiro.

Vivemos mais preocupados com o nosso bem estar. O que vamos comer? O que vamos beber? O que vamos vestir? A fraternidade e a paz, nossa e dos outros.

Somos semi-cristãos. Cada um veja se está mais perto de ser um cristão verdadeiro, decidido e sincero ou se ainda está muito longe. Se não dá para ser um cristão semi-novo, sejamos, ao menos, cristãos semi-velhos, com vontade de mudar e de nos libertar.