Caldeirão de Jureminha x Transposição do São Francisco
João Capiberibe*
Domingo, 05 de maio de 2008.

Manoel e Núbia nos apanharam no hotel às oito da manhã. Lá íamos nós ao encontro dos dias passados, numa imersão no tempo da paixão e da utopia.

Puxa! Quantas indagações? Estaria funcionando a casa de farinha de Angelim? E o Caldeirão de Jureminha? Deu ou não deu certo? Tem ou não tem água? O que foi feito em Lajedo? E os pequenos agricultores da comunidade do Jenipapo? Melhoraram de vida?

A memória insegura, meio perdida na névoa do tempo buscava socorro.
A lembrança levou-me ao ano da graça de 1979. Eu, Janete e os três filhos vivíamos em Maputo, dedicados por inteiro a ajudar na reconstrução de Moçambique. Um belo dia o telefone tocou anunciando a presença no país, de um dos mitos político de nossa geração. Do outro lado da linha, a voz da inesquecível Mara, nos convidando para jantar em sua casa.

A companheira Mara, mulher guerreira, acostumada a receber revolucionários de vários quadrantes nos brindou com um jantar privilegiado com a presença de uma das figuras mais importantes de nosso campo político e ideológico, Miguel Arraes, o mito.

Quando o mestre político começou a falar, fez-se um silêncio profundo. Apesar dos longos anos de exílio, descreveu a conjuntura política como se tivesse acabado de chegar do Brasil, foi ao passado como testemunha ocular da história e projetou o futuro nos convocando para iniciarmos a caminhada de volta. Antes, de Arraes concluir sua fala, emocionado cochichei com Janete: "vamos morar em Pernambuco, vamos trabalhar com Arraes".

Dito e feito, no ano seguinte nos instalamos em Olinda, fui trabalhar no CENES (Centro de Estudos e Realizações Sociais), ONG criada por ele, coordenada por Mara, dedicado a apoiar projeto voltados aos trabalhadores rurais de Pernambuco.

Com o economista Philippe Lamy, viúvo de Mara, percorri a Zona da Mata e o Agreste fazendo contato com pessoas da relação de Dr. Arraes.

Passo a chamá-lo assim, pois era assim que o povo o chamava. Dessas andanças, das preocupações e das longas conversas com Dr. Arraes surge nosso primeiro projeto, que buscava aproximar os moradores de Ponte dos Carvalhos, bairro periférico, da cidade do Cabo, no litoral sul, com camponeses dos municípios de Lajedo e Angelim. Colocamos tudo no papel, com começo, meio e fim. Despachamos o projeto para a Europa. A resposta veio rápida e surpreendente, o projeto fora aprovado integralmente e seria financiado por uma organização holandesa.

Mãos a obra, a começar pela construção da sede da associação comunitária de Pontes dos Carvalhos, onde seria instalado um ateliê de costura para produzir roupas que seriam comercializadas nos dois municípios que abrigariam o projeto, através das associações de pequenos agricultores de Angelim e de Lajedo. Por sua vez, cada uma dessas associações receberia recursos para construir e equipar uma fábrica de farinha, cuja produção seria comercializada pela à Associação de Pontes dos Carvalhos.

O projeto contemplava também recursos para escavação de uma pedreira, transformando-a em açude, batizado de Caldeirão de Jureminha. Por último, o projeto garantia um caminhão para o transporte dos produtos. No entanto, não havia previsão de recursos para mão de obra, essa deveria ser a contrapartida das comunidades envolvidas.

Dr. Arraes me orientou que procurasse os sindicatos de trabalhadores rurais.

Assim o fiz, em Lajedo, as portas do sindicato me foram abertas pelo seu presidente Vilebaldo e pelo tesoureiro Osvaldo. Já em Angelim, o sindicato rural não quis conversa, tive que partir para o corpo a corpo, foi nessas andanças que bati na porta de Rui e Madalena, na comunidade do Jenipapo.

Rui muito atencioso, ouviu minhas explicações sobre o projeto e logo se propôs a ajudar. Alguns dias depois, graças a ele, realizei a primeira reunião ampliada na casa de Zé Tito, com a presença de seis a sete pequenos agricultores. Desse encontro saímos com data marcada do primeiro mutirão para bater o barro e fazer os tijolos.

Vinte e sete anos depois e tantas experiências vividas, eu e Janete esticamos uma estadia em Olinda, aonde viemos participar de um congresso de parteiras tradicionais, com o objetivo de rever, abraçar esses velhos amigos e saber como a vida os tratou ao longo dos anos.

Com Núbia na direção, chegamos à comunidade de Jureminha. Entramos à esquerda e quinhentos metros depois, achamos o que procurávamos, o Caldeirão, cheinho de água, do jeitinho que o deixamos há vinte e sete anos.

Estávamos tentando lembrar detalhes de como foi a retirada das pedras, se manual ou com explosivos, quando Seu Manoel, 64 anos, montado em uma bicicleta vermelha, se aproximou e sem a menor cerimônia entrou na conversa:

- Eu estou lembrando de vocês, claro, foram vocês que andaram por aqui naqueles tempos. Rindo muito, de puro contentamento, foi contando o que sabia. Perguntei-lhe se o açude se mantinha com água na época seca.

- Isso é uma dádiva de Deus para nossa comunidade, quando seca tudo, é daí que todo mundo tira para muitas serventias.

Suas palavras me emocionaram, fiquei muito feliz em poder comprovar a eficiência de uma solução local, de grande simplicidade e baixíssimo custo.

Fiquei imaginando, quantos lajedos de pedra existirão espalhados por esse sertão nordestino? Quantos desses podem ser transformados em açudes? Que pena que em nosso país, coisas simples, eficazes e baratas como o Caldeirão de Jureminha, fiquem absolutamente ignoradas enquanto projetos de bilhões, como a transposição das águas do São Francisco, prevaleçam, mesmo cheio de dúvidas.

Será que vai dar certo? O Velho Chico vai agüentar essa sangria? Impossível responder.

Como era domingo e queríamos ver a fabrica de farinha na comunidade de Salgadinho, Seu Manoel se adiantou para buscar a chave, quando chegamos lá, ele já se encontrava na porta dando as boas vindas:

-Vamos entrem! Venha ver, aqui tudo funciona. Dito isso, tratou de ligar, uma por uma, as maquinas usadas na fabricação da farinha. Em seguida apontou para a borda de um dos fornos. - Foi ali que Dr. Arraes sentou e ficou ouvindo toda a conversa de Vilebaldo e do Valdemar no dia da inauguração.

Depois da alegria de ver tudo funcionando em Lajedo, fomos para Angelim, onde também encontramos a fabrica de farinha no mesmo lugar, como antes. Não pudemos visitá-la por ser domingo e pela surpresa da visita não foi possível localizar a chave. No entanto, fomos informados que continuava funcionando normalmente. Aproveitamos para abraçar seus construtores, encontramos com Rui e Madalena, Zé Posidônio, Zé Tito, João Ferreira, os primeiros a embarcar naquela aventura humana que nos une até hoje. Para completar nossa felicidade pude constatar que todos vivem bem melhor do que naqueles tempos.

*João Capiberibe, ex-prefeito, ex-governador, ex-senador pelo Amapá. Atualmente vice-presidente nacional do PSB.