OBRA ENTERRADA NINGUÉM VÊ
Édi Prado - 05.06.07


A velhice incomoda, preocupa e mete medo. Mas não é a velhice cronológica, aquela contada ano a ano, a qual me refiro. Estou falando da caduquice mental, do bloqueio cerebral, que corrói todas as fibras e células que permitem o ser humano a pensar e a repensar as idéias. Existem velhos de 14 anos e jovens de 90. Existem frases que são repetidas e por isso imortalizada, sem que as pessoas ouçam o sentido e a intenção delas. É comum ouvir de políticos velhos, frases enferrujadas do tipo: Água encanada e esgoto sanitário são obras escondidas que ninguém vê. Não dá voto.

Mas como ninguém vê se pela manhã ao abrir o chuveiro, a água lava o corpo e reanima a alma? Como não vê ao escovar dentes e fazer a barba? Basta um simples torcer na torneira e eis que a água jorra como por milagre dentro da sua casa. E às vezes antes do banho ou depois dele, após levantar-se do vaso sanitário, uma simples cordinha ou o leve toque num botão de descarga, lá se vai toda a sujeira pelo esgoto afora.

A enterrada obra ninguém vê? Só não vê quem é muito estúpido. Porque ela está na sua cara, no seu corpo, no piso molhado, trazendo conforto para a sua família. Só não ver o político velho, que poderia triplicar o voto através da satisfação e o conforto de todos os beneficiários dessa obra enterrada. Vale ressaltar que este benefício é o bem mais bem visto por todos, porque todos precisamos de água e esgoto.

O que não é bem visto e irrita os usuários é entrar no banheiro e não ter água. Dar descarga e não ouvir barulho da água levando para o esgoto enterrado, a sujeira nossa de cada dia. Ir cozinhar e ter que ir ao poço da vizinha pedir para encher uma lata d água. Isso não dá voto.

Só enterrar os canos e não suprir esses canos com água e deixar os esgotos sem a função de esgotar, isso também não dá voto. Talvez seja por isso que os dirigentes da CAESA, secretários de governo, deputados e outros parlamentares, prefiram o poço artesiano em casa. Só que como nem todo mundo pode ter um, aí mesmo que não dá voto.

E aí a obra enterrada fica enterrada mesmo, para sempre e ninguém vê.