Consumo de 200 mil litros/dia
No pique da safra, parte da população usa a bebida como principal alimento

Marly Quadros de Belém


Fotos: Rodolfo Oliveira


Paraense que se preza, gosta de açaí. Assim diz um ditado popular que corre o Estado e que começa a se difundir também por outras capitais brasileiras. A fruta, que tem o nome científico de euterpe oleracea, era conhecida e apreciada, até alguns anos, somente na região amazônica. Hoje está a caminho de se transformar em uma commodity, ganhando espaço não só no Brasil, mas também fora dele, principalmente nos Estados Unidos, onde o litro chega a custar US$ 8.

A palmeira é uma das principais fontes de alimentação e renda para as comunidades ribeirinhas da Amazônia. Consumida, primeiro pelos índios, a bebida começou a chamar a atenção pelas suas qualidades nutricionais. Uma pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Engenharia Química da Universidade Federal do Pará (UFPA), coordenada pelo pesquisador Hervé Rogez, comprovou que o suco de açaí é rico em potássio, cálcio, fósforo, magnésio, além das vitaminas E e B1, entre outros elementos. Essa composição prova que a fruta é uma fonte altamente concentrada de energia. Por isso se tornou a grande coqueluche nas grandes capitais brasileiras, principalmente nas academias de ginástica, embora seja considerado um alimento calórico.

Belém é a maior consumidora nacional de açaí, demandando cerca de 200 mil litros/dia, no período de safra, que vai de agosto a dezembro. Segundo dados da Secretaria Municipal de Economia (Secon), somente nos quatro principais portos da cidade, a Feira do Açaí, o Porto do Açaí, o Porto da Palha e o Porto de Icoaraci, foram desembarcadas em 2001 mais de 48,7 toneladas, com preços que alcançaram uma média anual de R$ 22,94 a rasa, um recipiente (paneiro) com 28 quilos.

Para se ter uma idéia da variação de preço do produto dentro e fora da safra, em março do ano passado, quando alcançou sua maior cotação, uma rasa chegou a custar R$ 37,09. Já em novembro do mesmo ano, quando a produção estava em seu ápice, a mesma quantidade era vendida por R$ 9,27.

A maioria dos açaizais da região amazônica caracteriza-se por populações nativas e pelo extrativismo. Mas pesquisas da Secretaria Executiva de Agricultura do Pará (Sagri) apontam que a área plantada chegou em 2001 a quase 23 mil hectares. A área colhida, por sua vez, foi de 13,4 mil hectares. A produção passou de 156 mil toneladas no ano 2000 para 211 mil toneladas em 2001, um crescimento de 35%. Isso demonstra que os produtores começam a investir no cultivo da palmeira, com manejo e seleção de material genético, visando especificamente à produção do fruto.



Com aumento da oferta, o preço baixa

Na beira do rio Guamá,
a venda entra pela noite

A credita-se que, no pico da safra, Belém chegue a contar com três mil pontos de venda de açaí. A marca registrada dos “batedores” do fruto é uma bandeirinha vermelha com uma haste fixada do lado de fora do estabelecimento. Ela indica que o ponto está funcionando, já que muitos suspendem as vendas quando a oferta de matéria-prima fica escassa. Quando o produto acaba, a bandeira é retirada. Alguns vendedores trabalham até durante a noite, e além da bandeira é acrescentada uma lâmpada vermelha, que também tem a função de iluminar o local.

Os bairros que ficam próximos do rio Guamá e baía de Guajará concentram o maior número de casas de venda. Em algumas ruas é possível se encontrar três pontos ou mais. Maria do Carmo de Oliveira costuma bater açaí até de noite, desde que abriu uma quitanda na frente da sua casa, há três anos. Ela chega a comercializar 50 litros no período de 9 da manhã até meia-noite. “A saída maior é mesmo à noite, talvez porque muita gente trabalha o dia todo e só tem tempo de tomar o açaí no final do dia. Açaí no Pará é que nem soro”, brinca.

Como o Jurunas é um bairro periférico, a procura maior é pelo açaí tipo “popular”, que pode ser encontrado em valores de R$ 0,50 a R$ 1,00. É comum se comprar nos pontos de venda também a farinha d’água e a de tapioca, os acompanhamentos preferidos pelos consumidores.

Inovação - Como a concorrência é acirrada, alguns vendedores estão buscando formas alternativas de conquistar a clientela. Este é o caso de Célio José Corrêa, que em agosto do ano passado resolveu vender açaí pelas ruas da cidade. Célio adaptou seu ponto de venda ambulante sobre uma bicicleta cargueira. O suco é comprado de uma agroindústria local, gelado e embalado a vácuo. Cada “dose”, como são chamados os sacos de 350 ml, custa R$ 1,00, com acompanhamento de 100 gramas de farinha d’água e 50 gramas de farinha de tapioca, sem contar com o açúcar, que vai ao gosto do cliente.

Telefone - Outro comerciante que resolveu facilitar a vida do consumidor e aumentar as suas vendas foi Alonso Moraes Martins, proprietário de um ponto na região central da cidade. O Açaí do Alonso tem uma clientela mais seleta, já que não trabalha com o açaí popular. Ele também entrega o pedido feito por telefone.

Sua empresa funciona o ano todo, mesmo no período da entressafra, até o início da tarde, incluindo sábados e domingos, quando as vendas chegam a dobrar. Enquanto durante a semana o pequeno comerciante costuma beneficiar cerca de 420 quilos de açaí, no sábado a produção chega a uma tonelada. O número de ligações também passa de 20 chamadas diárias para 60 no final de semana. Alonso também já está produzindo sua própria matéria-prima, em uma área no município de Ponta de Pedras, no Marajó, onde faz um controle dos açaizais para garantir a qualidade e bom rendimento do fruto.

Qualidade - Osvaldo Barros é outro que resolveu atacar nas duas frentes, ou seja, vendendo e beneficiando o fruto. Proprietário da marca “Açaí Êxito”, ele é um dos principais abastecedores do mercado da capital paraense e também possui três pontos de venda. Segundo o microempresário, o segredo para ganhar a concorrência é mesmo a qualidade. “Eu exijo, por exemplo, que os meus fornecedores façam a colheita sempre no final da tarde, porque o calor afeta o fruto e o açaí é armazenado diretamente nas “basquetas” (caixas de plástico), para não arranhar durante o transporte e eliminar os insetos”, comenta.

O produtor garante que já conhece os locais onde se encontra o melhor açaí do Pará. Além das ilhas próximas a Belém, um dos seus principais fornecedores são os índios Parakanã, em Tucuruí. Em cada entrega chega a adquirir 11 toneladas de açaí, e os índios costumam trazer sua colheita ao porto pelo menos quatro vezes por semana.

Almoço - Em Belém já é possível encontrar também casas especia-lizadas, que oferecem o açaí do jeito que o paraense gosta, ou seja, como parte da refeição. Diferentemente da forma que é consumida em outros Estados, a população local costuma tomar o açaí associado com peixe ou carne, especialmente charque frito ou assado na brasa. Essas são as receitas mais tradicionais, mas também é possível se encontrar quem aprecie a mistura com o frango, a carne bovina e até calabresa.