Empresário denuncia poderoso esquema
de corrupção no governo Waldez Góes
Texto: Emanoel Reis
Os detalhes narrados pelo ex-oficial do Exército e empresário
do setor de vigilância privada, Luciano Marba Silva, durante
minucioso depoimento à Comissão de Constituição
e Justiça da Assembleia Legislativa do Estado Amapá,
estão incluídos naquela categoria do chamado bloco dos
escabrosos. Procurando sempre manter-se calmo, embora em algumas assertivas
tenha elevado levemente o tom da voz, Marba Silva, que em passado
recente era habitué da cozinha da casa do governador Waldez
Góes (PDT), como ele mesmo afirmou, puxou o primeiro fio do
volumoso novelo de falcatruas cometidas nos subterrâneos da
Secretaria de Estado da Educação (Seed), sob a gestão
do ex-presidente da Companhia de Eletricidade do Amapá (CEA)
e secretário da Educação, José Adauto
Bittencourt Santos.
Por mais de duas horas, o empresário, que ficou conhecido
em Macapá por denunciar uma verdadeira enxurrada de crimes
supostamente cometidos pelo secretário da Educação,
descreveu aos sete parlamentares que se encontravam na sala de reunião
da presidência da AL os mecanismos utilizados por Bittencourt
na criação e manutenção de uma poderosa
rede de corrupção envolvendo proeminentes funcionários
de carreira do Estado, além de empresários do setor
de vigilância privada, assessores especiais do governo, passando
pela vice-governadoria e Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).
A origem dos crimes
Os tentáculos dessa intricada teia de malfeitores, conforme
confidenciou em depoimento, estendem-se por quase toda a estrutura
político-administrativa do governo Waldez Góes, com
raízes remontando o primeiro mandato do pedetista, mais precisamente
a partir do segundo semestre de 2003 quando, assinalou, o famoso "triunvirato
do poder" (Joaquim Grunho, o Joca, o advogado Gutembergue Jácome
de Oliveira e o fiscal da receita Federal Josafá Brás)
pontificava no Palácio do Setentrião a partir do que
convencionou-se chamar, na época, de o "QG do General",
um prédio residencial localizado na avenida Nações
Unidas, às proximidades da rua Jovino Dinoá, convertido
em "território secreto" de Gutembergue Jácome,
alcunhado por bajuladores próximos de o "General".
Segundo Luciano Marba Silva, a partir de novembro de 2004 o microempresário
Carlos Humberto Montenegro, amigo pessoal de Gutembergue Jácome
e proprietário da Serpol Segurança Privada Ltda, até
então uma inexpressiva empresa prestadora de serviço
na área da vigilância privada, começou a se notabilizar
por ser o único a prestar serviços de vigilância
para a Secretaria da Educação. De acordo com Marba da
Silva tratava-se de um negócio milionário, controlado
unicamente por Montenegro e outro empresário do mesmo ramo
de atividade. Sempre lastreado por Adalto Bittencourt, explicou Marba,
em pouco tempo Montenegro amealhou considerável fortuna, tornando-se
dono de apartamentos luxosos em três capitais (Macapá,
Belém e Fortaleza) além de adquirir fazendas e gado,
construir mansões e desfilar nas ruas da capital amapaense
em carros importados e sempre acompanhado de belas mulheres.
A repentina ascensão social e financeira de Montenegro, prosseguiu
Marba Silva em seu depoimento, tem origem obscura porque principia
a partir dos porões da Secretaria da Educação,
com o próprio secretário trabalhando às ocultas
para beneficiar, em qualquer circunstância, o dono da Serpol.
Os contratos emergenciais vigentes desde os primórdios do governo
Waldez Góes rendiam ao secretário da Educação
cerca de R$ 1,3 milhão mensais em propina, dinheiro obtido
por meio de sonegação fiscal e pagamento fraudulento
de serviços que nunca foram prestados. Essa "gordura"
seguia direto, por vias transversas, para a conta bancária
de Bittencourt.
Para creditar as afirmações, Marba Silva apresentou
um calhamaço de documentos, inclusive notas fiscais, contratos,
certidões e até recortes de jornais. Exibiu cópias
de notas onde, segundo assegurou, estavam provas da sonegação
fiscal praticada às escâncaras pelas pessoas envolvidas
diretamente no butim. Milhões de reais de prejuízos
aos cofres públicos e, principalmente, à Educação
no Amapá.
Jogo de oportunidades
Quando fundou a empresa de vigilância privada LMS Ltda, em
2007, Luciano Marba Silva planejava explorar o imenso "filão
de ouro" descortinado à sua frente por auxiliares e assessores
especiais do governador Waldez Góes, de cuja casa era um assíduo
frequentador. Estimulado pelo amigo mais importante, Waldez Góes,
Marba constituiu a empresa e iniciou o processo de regulamentação
junto à Superintendência Regional da Polícia Federal,
obtendo em tempo recorde a licença de funcionamento.
Conforme explicou ao presidente da CCJ, deputado Edinho Duarte (PMDB),
o projeto de expansão empresarial esboçado nos embriões
da LMS abrangia participações em todas as licitações,
fossem elas municipais, estaduais ou federais. O objetivo era assegurar
à recém-criada empresa maior amplitude de ação
dentro de um mercado altamente competitivo. Por oferecer, sempre,
os menores preços em suas propostas foi abocanhando suculentas
fatias o que chamou a atenção dos concorrentes.
Não demorou para Luciano Marba Silva despontar no cenário
local como um empresário bem-sucedido. Amigo de poderosos,
tanto na política quanto na iniciativa privada, o ex-oficial
do Exército parecia sedimentar uma trajetória em vertiginosa
ascendência. Em menos de três anos conquistara bons contratos
para sua empresa, a LMS Ltda, inclusive em setores nevrálgicos
do governo estadual, como a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa),
e órgãos da Prefeitura de Macapá.
No relato à CCJ, Marba Silva referiu-se ao contrato com a
Sesa como um de seus piores "erros como empresário".
Conforme explicitou, ao ganhar a licitação recebeu uma
ligação telefÿnica do vice-governador e secretário
da Saúde, Pedro Paulo Dias de Carvalho. Nesse contato, o secretário
pediu que algumas pessoas, resultado de indicações políticas,
fossem contratadas pela LMS Ltda para o cargo de vigilantes. Segundo
Marba, eram pessoas despreparadas para o exercício da atividade.
Mas, para contentar o poderoso interveniente anuiu sem contrapor.
Nesse trecho do depoimento, disse aos parlamentares tratar-se de
um "acordo entre cavalheiros" tacitamente fechado tanto
com secretários de Estado (referindo-se à Pedro Paulo
Dias) quanto com deputados, estaduais e federais (não citou
nomes, e sequer foi admoestado pelos deputados presentes na sessão
da CCJ a fazê-lo). E que perdeu as contas de quantas vezes recebeu
"bilhetinhos", telefonemas ou mesmo mensagens por e-mail
ou pelo celular de autoridades que estavam intercedendo em favor desse
ou daquele afilhado. Por se tratar de pessoas com tão evidenciadas
relações de amizade, enfatizou ele, em tom de ironia,
jamais cogitou recusar qualquer pedido nesse sentido. Embora, garantiu
ele, isso tenha lhe causado sérios prejuízos.
O princípio do fim
Conforme o próprio Luciano Marba Silva narrou aos interlocutores
na CCJ, os negócios dele começaram a ruir quando participou
e ganhou a licitação promovida pela Secretaria de Estado
da Educação, comandada por Adauto Bittencourt. E ganhou,
assinalou ele, porque ofereceu o menor preço contra duas empresas
que também tinham participado da licitação: a
Pointer Serviços de Vigilância e Segurança Ltda,
do empresário Manoel Doaci Soares Jardim, e a Serpol Segurança
Privada Ltda, de Carlos Humberto Montenegro.
Ganhou mas não levou. A trama urdida nos bastidores da Seed,
deduz ele, alijou a LMS Ltda de todo o processo, deixando-a com alternativa
única de recorrer à Justiça para fazer valer
os direitos adquiridos. Por sua vez, Bittencourt decidiu manter os
mesmos contratos emergenciais com a Serpol até que a Justiça
o obrigasse a contratar temporariamente outra empresa. A vencedora
foi a Amapá VIP, de Alexandre Albuquerque, dono das notas fiscais
xerocadas exibidas repetidas vezes por Marba no depoimento aos membros
da CCJ.
Nessas notas fiscais estariam provas, afirma Marba, em tom peremptório,
de que o esquema de corrupção montado nas entranhas
do florescente governo Waldez Góes ainda continua pulsante
mesmo em plena fase crepuscular desse mesmo governo. Segundo ele,
a denúncia pode ser facilmente comprovada. Nesse pequeno espaço
de tempo na Seed, garante Marba, Albuquerque já teria sonegado
quase um milhão e meio de reais. "E esse montante, é
só o começo", alertou.
Pela primeira vez, na história da CCJ, foi registrada um posicionamento
equânime entre os parlamentares. Os deputados Edinho Duarte
e Dalto Martins (ambos do PMDB), Alexandre Barcellos (PSL), Camilo
Capiberibe e Ruy Smith (ambos do PSB), Jorge Salomão e Kaka
Barbosa acordaram que antes da tomada de qualquer medida é
necessário ouvir o secretário de Educação,
Adauto Bittencourt. Com o recesso parlamentar de julho às portas,
com certeza a data do depoimento de Bittencourt só deverá
ser definida a partir de agosto.