"O desencanto do promotor"
Caro Corrêa,
A respeito da nota colocada em seu sítio, intitulada "O
desencanto do Promotor", na qualidade de Promotor Titular da
Comarca de Ferreira Gomes, gostaria de expressar minha discordância
com algumas das afirmações trazidas na citada nota.
Sem entrar no mérito da doação feita pela Eletronorte
ao Município, uma vez que não me cabe tal
juízo, tenho certeza que o colega Promotor Adauto desconhece
a realidade atual de Ferreira Gomes, já que alega que o que
se vê aqui é "jogo de dominó, baralho, drogas,
confronto entre gangues, prostituição juvenil, evasão
escolar, um hospital deficiente e um povo sem esperança".
Faço estas colocações para evitar que se forme
uma imagem distorcida da comunidade de Ferreira Gomes, o que poderia
sugerir, além de uma situação de degradação
que não existe, uma falta de atuação do Ministério
Público no combate aos supostos problemas mencionados na mensagem
publicada.
Posso afirmar com convicção que, durante o período
em que aqui estou trabalhando, desde novembro de 2008, não
me deparei com nenhum caso envolvendo tráfico de drogas, confronto
de gangues ou de prostituição juvenil, o que não
quer dizer que tais problemas não existam, mas, se existem,
não têm a dimensão que pretende atribuir a nota
publicada.
As deficiências da rede pública de ensino e saúde
não são diferentes daquelas encontradas em outros locais
e vêm sendo objeto de fiscalização pelo Ministério
Público, da mesma forma que em todas as outras comarcas do
Estado.
Acredito então, que nos quase 12 anos que se passaram entre
a época em que o Promotor Adauto aqui atuou e hoje, muita coisa
tenha mudado, embora reconheça que muito ainda pode ser feito
pelo Poder Público para melhoria das condições
de vida da população ferreirense.
O Ministério Público, além de suas atribuições
constitucionais, sob a coordenação de nossa Promotoria
e com o apoio do Município e outros parceiros, desenvolve ainda
dois projetos sociais: um de inclusão digital, que ministra
cursos de informática básica para jovens e adultos locais,
que já beneficiou aproximadamente 400 pessoas, e o projeto
"Carnaguariso", que promove ações de conscientização
e cidadania durante o "Caranaguari", evento criticado na
nota publicada, exatamente para fomentar o exercício consciente
da cidadania, o combate às drogas e a preservação
do meio ambiente.
Tais projetos são uma tentativa de evitar que jovens, sem ocupação
e perspectiva, acabem caindo na marginalidade, e, apesar de não
se constituírem na função institucional do Ministério
Público, são reflexo de nossa consciência de que
todos devem contribuir para uma sociedade melhor.
Desta forma, lamentando a desinformação do colega a
respeito da realidade de Ferreira Gomes,
coloco aqui o ponto de vista de quem efetivamente conhece e busca,
através da atuação como membro do Ministério
Público, a melhoria das condições de vida da
comunidade.
Atenciosamente,
André Luiz Dias Araújo
Promotor de Justiça