Não me diga que hoje é feriado

Pepê Mattos

E não é que finalmente os macapaenses descobriram que eles têm uma Câmara de Vereadores? Pois, sim, munícipes, vós não estais sós neste lado do Rio Amazonas. Nossos representantes, sempre extremamente atarefados, dessa vez saíram sabe-se lá de que entranhas para nos apresentar um profundo e abrangente resultado de dias e dias, não, semanas e semanas, ou melhor, meses e meses de obstinada e árdua discussão para a melhoria da qualidade de vida de seus insensíveis representados.

O macapaense comum, esse que enfrenta a rotina de uma cidade encalacrada nas margens do maior rio do mundo, desviando de trocentos buracos que a intolerância dos motoristas e a badernagem dos próprios moradores causaram nas portentosas ruas e avenidas de Macapá, que possui um ensino de Primeiro Mundo nas escolas municipais, que recebe um tratamento digno de cidadão de classe A em todas as repartições municipais, e que por esforço e sapiência de seu Alcaide, Sua Excelência, o Sr. Prefeito Municipal, verá toda a magnífica história desse povo aguerrido e altaneiro cantada em verso, prosa e samba-enredo na Marquês de Sapucaí, terá a honra de ver inserido em seu calendário de eventos municipais a Caminhada para Jesus, um evento organizado por umas das tantas associações religiosas que se espalham feito folhas ao vento no solo amapaense.

Ora, não sei se é apropriado ao momento entrar-se aqui na discussão da laicização do Estado, mas de cara vou logo dizendo que se é para isso que existe a Câmara Municipal, mas antes que se faça o que aquele jornal de Alagoas sugeriu outro dia acerca de mais essa denúncia de que o Presidente do Senado anda metido até a careca em “affair” pra lá de cabeludo. Somando-se a essa são tantas as hipocrisias e sandices cometidas pela atual legislatura no Congresso que leva-nos a pensar se é produtivo para a sociedade, que labuta de sol a sol e vê o fruto de seu suor ser vilipendiado, desviado para fins pútreos, ter uma representatividade que lhe brinda todo santo dia com cenas dignas de dramalhões mexicanos. Mesmíssima coisa se vê por parte da bancada tucuju nas arenas estadual e federal, onde cidadãos eleitos para, entre outras atribuições, fiscalizar o governante, acabam por fechar acordos espúrios e lesivos à população. E agora em Brasília, então, que andam excluindo (feito molecagem de alunos sacaneando um colega cdf) a deputada federal Capiberibe de suas reuniões com altas autoridades do Governo.

Eu, por mim, prefiro que se dê melhor destino a tanta verba que essas casas movimentam, entre salários de parlamentares, assessores, funcionários, serviços prestados e demais despesas decorrentes, já que o grosso mesmo vai para o bolso guloso dos mais espertos. Há que se preservar a idoneidade de quem faz por merecer. Entretanto, no balaio de gatos, ou melhor, gatunos, findam todos por levar o infame cognome de lenientes ou em acepções mais grotescas, de afanadores do alheio. É um caso muito sério esse da dissolução do Parlamento, uma vez que isso para se concretizar é necessário que a sociedade se sinta acuada, ultrajada e agredida em seus princípios mais elementares até um ponto de saturação que pode ser esse da eterna aparição de denúncias de parlamentares e da completa percepção de impunidade por parte de seus colegas de mandato.

De volta ao assunto do início, fico cá pensando que para nossos representantes, sejam municipais, estaduais ou turistas de Brasília, se reunirem, sob as custas de nossos bolsos para deliberarem congratulações, honrarias (que vão de nomes de logradouros a placas de Cidadão Amapaense) e efemérides mais fúteis ainda não se faz necessário se ter uma casa legislativa para tanto.

Outra mostra da gratuidade desses eventos - e de sua desimportância para a maioria da população - foi a cessão dum espaço público para a realização de um mega evento religioso. Você já se perguntou se concorda com a gastança de energia elétrica durante uma semana, em plena época em que se discute a falência da companhia de energia elétrica, afundada em denúncias de mal versação de receita e incompetente administração dos gestores que por lá passaram?

Parlamentares se fazem de porta-vozes da população e não são. Pensam que nos preocupamos em salvar-nos no futuro quando pularmos fora desse mar de lágrimas e se apressam a aprovar leis que - deliram - beneficiam ao grosso da população. Queremos o aqui e agora e de preferência, tudo preto no branco, tudo comprado e comprovado, com nota fiscal e o que tivermos direito. É o mínimo que a sociedade quer e esse mínimo é menosprezado por quem nos representa.

A cidade abandonada à sua própria sorte é o retrato do que andam fazendo nos gabinetes de ar condicionado com água mineral (da CAESA, só pra lavar os Mitsubishi e Hilux de Vossas Excelências), tv com dvd, 37 assessores e serviçais a rodo.

Não se vê um edil levantar a voz e defender a população (principalmente a que mais se deixa iludir e vota insistentemente nessas tristes figuras) e reivindicar mais seriedade e compromisso com a cidade que lhes pariu (é a saturação chegando ao máximo!). Aliás, pra que serve uma Câmara de Vereadores, mesmo?

Você sabe? Então, me diga. O quê? Não me diga que hoje é feriado...!