Saudade do LIONEL

Ele era pequeno, gordo e excêntrico.
E a cidade inteira o adorava - pelo menos era o que parecia.

Por Joan Parker


Lionel
estava um estado lastimável. Minha filha, Nola, e eu o encontramos ensangüentado, tentando desesperadamente passar pela abertura da porta destinada ao cachorro, mas fraco demais para suspender o próprio corpinho estraçalhado. Quando nos viu, parou de se esforçar e se deixou cair no chão, as asas abertas e a cabeça pendendo para um lado.

Nola e eu o pegamos com cuidado e saímos às pressas para o veterinário. Quando chegamos, ele já havia perdido muito sangue e começava a entrar em estado de choque.

O pato Lionel morreu minutos depois.

Nunca descobrimos quem o havia maltratado tanto, nem por que tinham necessidade de fazer isso. Um cliente da mercearia de Nola disse ter visto alguns adolescentes pulando a cerca dos fundos, poucos minutos antes de encontrarmos Lionel. Os garotos estavam carregando bastões de críquete.

Quando Nola deu a noticia aos clientes nos dias que se seguiram, eles ficaram muito tristes. Um senhor em particular ficou inconsolável. Depois de fazer as compras semanais, ele dava a Lionel uma fatia de pão ou biscoito, que deixava no bolso especialmente para a ocasião. Lionel pulava no banco, ao lado dele, sentava-se, limpava as penas com o bico e assentia a tudo que o homem dizia.

Toda semana, passavam uma hora assim, "conversando" e desfrutando a companhia um do outro. Quando soube da morte de Lionel, o senhor se sentou naquele mesmo banco e deixou as lágrimas escorrerem livremente pelo rosto. Duas semanas depois, faleceu.

Nola também teve de dar a má noticia às crianças da escola que brincavam com Lionel a caminho do colégio. Ele caminhava ao redor delas, resmungando e deixando que tocassem em suas penas brancas e macias enquanto esperavam o ônibus. Maravilhadas, as crianças riam do jeito que ele passava o bico nos braços e nas pernas delas. Algumas fizeram cartões de solidariedade para Nola, com desenhos de patos verdes e vermelhos caminhando ou nadando em águas amarelas.

Nola recebeu muitas condolências: algumas de amigos, mas a maioria de desconhecidos. Foi só então que nos demos conta de quantas amizades Lionel havia feito, de quantos corações havia tocado. Parecia que a cidade inteira estava de luto por causa da sua morte. Acho que não devíamos ter ficado surpresas: Lionel sempre foi um pato muito sociável.

Embora tivesse à disposição um grande quintal à margem do rio e muitos animais com os quais brincar, Lionel preferia a companhia humana. Adorava entrar a mercearia e dar meia dúzia de voltas ao redor do freezer de sorvetes, encenando um show para os clientes.

Em outras ocasiões, ficava do lado de fora da mercearia “conversando” com as pessoas enquanto elas abasteciam seus carros. Muitas se surpreendiam com o fato de gostarem tanto de passar seu tempo com um pato.

E, quando não havia clientes por perto, Lionel procurava outras pessoas para "conversar".

Não era raro vê-lo na ponte próxima, a barriguinha gorda raspando o chão ao caminhar, perseguindo alguém que estivesse passeando com um cachorro.

Mas não era só a companhia humana que Lionel procurava. Nola tinha várias galinhas e um galo vermelho de rabo azul, que parecia um estouro de fogos de artifício. Quando Lionel começou a mostrar interesse pelas galinhas, Nola decidiu botar um anúncio nos classificados pessoais do jornal, à procura de uma companheira para ele.

Pato garboso deseja relacionamento sério com pata bonita. É preciso gostar de andar no mato, nadar e ficar debaixo da janela da cozinha. Bela casinha com vista para o rio oferecida à candidata selecionada”.

Vieram respostas de todos os lugares, e fez-se uma pequena lista. Por fim, cinco irmãs, que precisavam ficar juntas, foram escolhidas. Elas conferiram o novo lar. Lionel aprovou cada uma delas. E prevaleceu a harmonia doméstica. O jornal até publicou uma matéria de meia página sobre a atividade social deles.

Mas Lionel também gostava de curtir a solidão. Quando queria tranqüilidade, ia para um canto ensolarado do quintal. Ali, abria um buraco no tronco das árvores, enfiava a cabeça debaixo da asa e grasnava baixinho até adormecer sob o sol. Era seu lugar preferido. Foi também onde o enterramos.

Um casal de idosos que morava a 100 quilômetros de distância leu uma nota sobre a morte de Lionel no jornal e foi à loja de Nola para entregar um presente de condolências. Era a estátua de um pato que o senhor, um pensionista inválido, havia feito. Nola colocou a estátua na sepultura de Lionel.

No dia seguinte, uma conhecida minha, irritada com toda aquela confusão, disse: “Ele era só um pato!” Mas estava enganada.

Lionel era muito mais do que isso. Era um amigo adorável, não apenas para mim, mas para muitas pessoas. E a vida certamente não será a mesma sem ele andando à nossa volta.