Receio de pilotos e incidentes precederam o acidente da TAM
Portal G1

Obras foram entregues sem que as ranhuras que drenam a pista fossem feitas.
Presidente da BRA e pilotos alertaram para as más condições da pista.

O mais movimentado aeroporto do país está saturado há anos. Localizado em uma região residencial na Zona Sul de São Paulo, ele realiza 600 pousos e decolagens por dia.

Mas com aeronaves cada vez mais modernas, o aeroporto parou no tempo.

Desde que foi inaugurado na década de 50, ele passou pela sua maior reforma a pouco mais de 20 dias. Mas as obras foram entregues sem que as ranhuras da pista - medida que faz a drenagem da pista para evitar derrapagens e aquaplanagens - fossem feitas.

Últimos alertas
Em janeiro de 2003, um jatinho que levava o então presidente do PL Waldemar da Costa Netto não conseguiu parar. Escorregou, saiu da pista do aeroporto e caiu em cima de um carrinho de churrasco.

Em março do ano passado, um avião da BRA que vinha de Recife também não conseguiu parar na pista molhada. Atravessou o gramado e ficou com o bico do lado de fora do aeroporto.

Cinco meses depois, um avião da Gol que vinha de Cuiabá com 122 passageiros também derrapou. O piloto não conseguiu frear, a aeronave invadiu a pista e ninguém ficou ferido.

Nesta segunda-feira, um avião da Pantanal que vinha do interior de São Paulo girou e parou sobre a grama ao pousar na pista principal.

Chove há dois dias em São Paulo. As obras para fazer as ranhuras da pista estavam marcadas para começar só no dia 25. Mas nesta terça-feira, o Airbus modelo 320 da TAM pousou e não conseguiu parar.

Uma das mais modernas aeronaves do mundo, o Airbus é todo computadorizado e pilotado por uma espécie de joystick. É muito seguro, mas tem uma concepção diferente dos aviões fabricados pela Boeing, por exemplo. No Airbus, o piloto controla os computadores e são os computadores que controlam o avião. O piloto tem menos autoridade nos comandos de vôo.

Agora, só a investigação vai responder em que medida a pista molhada dificultou as manobras que o piloto poderia ter tentado executar.

Pilotos já temiam pista
A pista de Congonhas era considerada perigosa pelos pilotos antes mesmo das recentes reformas. Depois delas a situação não mudou e os pilotos ainda tem medo de operar ali, principalmente em dias de chuva.

Conversas confirmam preocupação nas decolagens
Veja o diálogo entre piloto e torre de controle 24 horas antes do acidente da TAM.

Piloto: "Vôo 1277 só para informar está bem escorregadia a pista".
Controlador: "Grato informação"

Controladores de vôo passaram até a pedir aos pilotos que pousavam informações sobre a pista:

Controlador: "Varig 2422 confirma confirma as informações da pista".
Piloto: "Continua bem escorregadia a pista 2422. Dando trabalho".

Os diálogos foram gravados na segunda-feira, pouco depois de um incidente. Um avião da companhia Pantanal que havia decolado em Araçatuba, interior de São Paulo, derrapou ao pousar na pista principal, a mesma do acidente desta terça-feira.

No ano passado foram pelo menos três derrapagens. Em uma delas, por pouco um acidente com um avião da BRA não atencipou o acidente desta terça-feira. Ele deslizou, a asa esquerda bateu sobre sinalizadores e o avião atravessou o gramado, parando a menos de três metros do fim do asfalto. Na época, o presidente da BRA, Humberto Folegatti, criticou a pista de Congonhas. “Já de algum tempo vem sendo muito comentado, muito alardeado que a pista de Congonhas tem problemas. O que é uma aquaplanagem? O contato do avião no solo com uma poça d’água que não teve escoamento correto. E se a pista não tiver o componente que ajude a segurar o avião, isso pode trazer um problema”, disse Humberto Folegatti, em 6 de outubro do ano passado.

O componente é o "grooving" - nome técnico das ranhuras feitas ao longo da pista para escoar a água.

Depois dos incidentes, as duas pistas de Congonhas passaram por reformas. A principal foi liberada há um mês, mas ainda sem as ranhuras. Na reabertura da pista, o superintendente regional da Infraero garantiu que isso não seria um problema: “A pista apresenta condições de uso. Toda a recuperação foi feita, mas o grooving só pode ser feito daqui a 30 dias, em agosto e setembro”.

Pilotos e controladores tinham plena consciência das dificuldades em operar nas pistas de Congonhas, mesmo depois das reformas.


Em gravação, controlador alerta para pista escorregadia
No diálogo a seguir, uma frase que nesta terça-feira, depois da tragédia do Airbus, parece fatal:

Piloto: Aqui eco-delta 35 à esquerda, pouso autorizado 3-3-0 graus uno-zero-nove.
Controlador: Pouso na 3-5 esquerda, vai livrar na última lá, senhor?
Piloto: Afirmativo. Charlie também está interditada.
Controlador: Tocar mais adiante então...
Controlador 2: Cuidado pra não tocar muito adiante porque a pista está escorregadia.

É o que pode ter sido decisivo: as rodas do avião tocando uma pista muito molhada, muito escorregadia, muito tarde.