O treinamento é tudo

D. Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Todos já devem ter ouvido a fábula A Raposa e as Uvas, de Esopo.

Uma raposa estava com muita fome e viu um cacho de uva numa latada. Quis pegá-lo, mas não conseguiu. Ao se afastar, disse para si mesma: “Estão verdes”. O homem que culpa as circunstâncias fracassa e não vê que o incapaz é ele mesmo. É a moral da história, segundo o legendário sábio grego.

No entanto, um autor contemporâneo, brincalhão, quis concluir de maneira diferente a fábula. Sugeriu que a raposa não desistisse, simplesmente começasse a treinar dando pulos, até conseguir alcançar a uva. Com muita perseverança, um pulo hoje, um pulo amanhã, um dia ela vai chegar lá. “O treinamento é tudo” fechava este outro escritor.

Sempre me lembro dessas diferentes conclusões, quando reflito sobre a parábola de Jesus do joio e do trigo. De imediato pode parecer uma situação desanimadora. O bem e o mal estão juntos, não tem jeito. Teremos que agüentar esta situação até o fim dos tempos.

A história humana, quando entendida como espera inoperante, poderia parecer inútil, cheia de tédio e, enfim, injusta. É o raciocínio da raposa e dos seus amigos que jogam a culpa em Deus, que fez as coisas mal feitas. Desistem de pular.

Em geral, os mais abastecidos também usam a mesma desculpa para guardarem os privilégios somente para si. Neste caso não querem mesmo pular; as coisas, para eles, estão bem assim. As injustiças e as falcatruas lhes são lucros.

Na realidade a mensagem da parábola de Jesus é outra. Não quer nos dizer para ficarmos só esperando. Ao contrário, o Senhor pede bons frutos, como acabamos de refletir domingo passado. A questão dos “últimos tempos” é simplesmente para nos lembrar que não devemos ser nós a julgar o bem e o mal, quem está certo e quem está errado, quem deve ficar e quem deve ser cortado. Porque arrancando o mal poderíamos, também, arrancar o bem, como diz a parábola. A justiça sumária sempre foi, e será, a mais cega e a mais injusta.

Não só. É que quando nós julgamos, geralmente, aproveitamos para colocar nas costas dos outros as nossas próprias responsabilidades. É mais fácil e mais cômodo nos considerarmos acima do bem e do mal. Considerarmo-nos os “sem pecado” que podem jogar pedras nos outros à vontade.

Ainda bem que o julgamento final caberá ao bom Deus. Sem jogos de favores, sem privilégios, sem costas quentes, ou congeladas. As únicas forças que podem, por assim dizer, corromper o coração de Deus são o amor e a misericórdia. Por que Ele sabe mais, sabe tudo, o que aconteceu antes e o que acontecerá depois, incluindo o que, um dia, foi cuidadosamente apagado dos nossos sofisticados computadores.

Convém, portanto, sobre o bem e o mal, mudar de horizonte. Em lugar de começar a julgar o mundo, a história, os outros, Deus, vamos “treinar” para arrancar o mal da nossa vida. Simples. Jesus fala de cortar até mãos, pés, arrancar olhos. Ou se preferirmos é, justamente, tirar a trave do nosso olho que nos permite enxergar, com tanta clareza, os defeitos dos outros, e nunca os nossos. Não vamos fazer como a raposa que, com uma desculpa esfarrapada, desistiu. Se todo dia tivesse pulado um pouco mais, teria conseguido.

Está nos faltando treinamento e honestidade, para começar a admitir e a corrigir os nossos defeitos. Com paciência e coragem, arrancando o meu joio, ajudando o meu vizinho, com bondade e carinho, vai ver que um cada dia o campo brilhará bem limpo e cheio de trigo. O treinamento é tudo. Em tempos de Olimpíadas vale a pena lembrar. Será a vitória final do bem sobre o mal. A maior vitória e a maior alegria.