O ATO DE GRANDEZA,
UM GESTO DE GRATIDÃO


Arlindo Oliveira-julho/07


No momento em que Macapá completa 249 anos de história, registro meus 49 anos de tempo de serviço no Amapá, do Território Federal a Estado.

No serviço público, ainda existem grupos de pessoas que incorporam a filosofia de servidores, que vivem para servir ao público. Ainda há os que se dedicam e exercem as atividades pessoais e profissionais com afinco, dedicação, mesmo diante das adversidades e obstáculos, para cumprir a missão de servir ao público, à causa comum. A causa da Comum Unidade.

Hoje contabilizo 49 anos de dedicação exclusiva ao trabalho. Exclusiva porque era como o médico das aeronaves, sempre de prontidão, eternoamente sobreaviso do dever. Foram 49 anos de ensino e aprendizagem. Esse tempo todo, todo o tempo interligados homem/máquinas, numa relação una de cumplicidade, compreensão e até de sentimento de afeto, afagos e saudades.

Se a máquina me compreendia, não sei. Mas eu entendia os gemidos dela, um ronco fora do compasso, o motor, uma espécie de coração, mais apressado, lento ou totalmente desregulado. E ela, a máquina, me agradecia quando decolava ou pousava também docemente.

Aprendemos, eu e a máquina e os que estavam juntos também, que nesses 49 anos, quando mais se vive, mais se aprende na aviação e na vida. E quando mais se aprende mais se vive. É uma relação filosófica que transcende a estopa limpando as mãos e as peças.

Muitos, desses 49 anos, trabalhamos e sobrevivemos no interior, mantendo essa mesma cumplicidade de ajuda mútua. Cavamos o chão, abrimos picada, construímos pistas de emergência, para salvar o avião ou quem ele estava trazendo no ventre. E assim fomos desbravando, sendo pioneiros e realizando o pré-pouso para a chegada do primeiro avião e tecendo a rampa para os primeiros passos da SAER - Serviço da Aeronáutica do Território do Amapá.

E de repente fomos autorizados a retornar à Macapá. E mais uma dura e inesquecível provação nos esperava. Sofremos o acidente em Ferreira Gomes. Perdi tragicamente a minha primeira mulher, grávida de quatro meses e uma filha de três anos. Todo o patrimônio da família coube naquela viatura e foram se espalhando pelas águas, levados pelas correntezas. Mas não levaram a dor, a saudade, o amor e solidão de ficar órfão de minha mulher, minha filha e do meu bebê, que nem cheguei a conhecer.

Nunca pedi indenização pelos danos materiais, nem teria como o governo, nem ninguém reparar os danos da alma. Nem o governo também se preocupou em fazer nada para, no mínimo consolar o inconsolável. Nem o tempo nem o vento sopraram no coração desses governantes, ao longo desses 49 anos, para ofertar um pouco de acalanto, paz e repouso após esta forçada aposentadoria. Ficar longe das máquinas foi outro golpe muito forte.

Posso me considerar um pós-graduado e até doutorando em agonias e sofrimentos. Mas estou feliz. Apesar de tudo, a máquina humana e o espírito estão resistindo. Tem os problemas nos “faróis”, mas para quem tem a luz interior vinda de Deus, não há tropeços.

E nesses tantos pousos e decolagens, encontrei uma pista segura, bem sinalizada e confortante. Na verdade é um hangar onde até o que está faltando aos outros, com ela tinha de sobra. É a torre abençoada, de uma luz que nunca se apaga, que foi a minha mãe: Raimunda Silva de Oliveira. A Mundica, para quem ela muito abençoou. Eu era muito jovem para suportar tanta tragédia em série. E foi ela, a Mundica, que segurou “a onda eletromagnética” do corpo e do espírito. A quem suplico a Deus mais luz.

Depois dela, “encaminhada” pelas vias do amor, a minha segunda mulher, Ana Alves de Oliveira, que também está do meu lado, como anjo da divindade, que a minha mãe “mandou”, há 49 anos. O mesmo tempo que levei para tornar público essa saga de amor, trabalho, dedicação, solidão, até ingratidão e falta de reconhecimento pelo mérito, que nós, os pioneiros, dedicamos a esta Terra, que amamos muito.

E antes que também passem 49 anos para declarar o meu amor, quero dizer obrigado e assumir uma dívida impagável com ela, minha mulher. Quero expressar os meus agradecimentos a senhora Ana Alves de Oliveira. Pelo carinho, dedicação e devoção de mãe, aos criar os meus filhos, como se fossem dela e ser a companheira fiel em todas as situações.

E com corpo revitalizado e o espírito sereno, continuamos a nossa trajetória. Revitalizamos o SAER, com a chegada do Cel Belarmino Bravo, um boliviano, exilado no Brasil. Com ele reorganizamos o Aero Clube e formamos cinco aviadores: Dário Gomes, Aníbal Fadul, Hamilton Silva, Carlos Pontes e Walter do Carmo.

E quis o destino, que um desses pilotos, Hamilton Silva, tenha morrido no trágico acidente aéreo, que vitimou também o então deputado federal, Coaracy Nunes e o suplente Hildemar Maia, naquela manhã cinzenta e fria de 21 de janeiro de 1958, nas matas do Carmo do Macacoari. Esse episódio alterou a rota da história da aviação no Amapá.

As conseqüências físicas desses abalos emocionais começaram a surgir. Além da incessamente tarefa que não tinha hora para começar nem acabar, sob o sol e a chuva, envolvendo vários acidentes automobilísticos, malária e muitos atropelos, por falta de acomodação.

E esses problemas de saúde, por ironia, só escolhem o momento quando enfrentamos dificuldades financeiras. E temos que sozinhos, arcar com o tratamento, que deveria ser atribuição e responsabilidade do Estado, porque foi trabalhando por ele, que estamos sendo “contemplado” com as doenças físicas do corpo, premiando o espírito com a falta de valorização, reconhecimento, abandono e sem apoio, quando mais precisamos. Sem acrescentar o pioneirismo e a coragem de ter coragem para começar.

Por vontade pessoal jamais teria me aposentado. Sabia que corria o risco de não ter o que é preciso ter para tratamento de saúde. Fui obrigado. Aliás, fui forçado a me aposentar, quanto tive o descolamento de retina em um dos olhos. E quando mais se agravava esse quadro irreversível, se não houvesse imediata intervenção cirúrgica, mais as portas de assistências públicas, iam se desintegrando. Chegou o momento quem nem porta existia.

Tive que me desfazer de alguns bens para tentar, desesperadamente salvar a precária visão que me restava. Mas os meus bens não tinham tanto valor comercial, assim. E só restou a esperança.

Como a esperança é a primeira que nasce e a única que não morre, eis que surge um amigo e irmão da Ordem. Um presidente de uma autarquia, que ao perceber meu caminhar trôpego, sem rumo, devido à precariedade da visão, surpreendeu-me com uma visita. Depois de ver e sentir o drama dessa inglória caminhada em busca de luz, de visão, estendeu a mão, abriu o coração e ofereceu apoio para tratamento em outros centros especializados.

Pelo menos de um lado eu vejo. Mas o meu coração vê com todos os olhos e com clareza, que esse gesto desse amigo, devolvendo-me a visão e jovializando a esperança e a alegria de viver. A ele que me devolveu a luz dos meus olhos, eu peço a Luz de Deus para ele e para toda a família. E que Deus te proteja sempre.

Só lamento não poder revelar o nome desse espírito de luz, desse anjo em carne, porque quando um gesto de grandeza desta dimensão não quer ser foco da exibição da vaidade, a pedido dele, é porque esse homem já é um anjo. É só saber com os espiritualistas, o sentido de anjo para entender como esse homem é grandioso.

Ele sabe que este agradecimento é para Deus e para ele.

Que Deus o ilumine e dê luz aos nossos governantes, para não mais tropeçar no caminho da indiferença.

Arlindo Oliveira
Mecânico de Aeronave
Pioneiro da aviação no Amapá