COBRAS E ESCORPIÕES

Dom Pedro José Conti

-Bispo de Macapá-

Quando se juntam pessoas, sempre aparece algum gaiato contando piada. É o lado humorístico da vida que, graças a Deus, nos alivia em tantas circunstâncias difíceis. Não podia ser diferente na Internet. Um amigo me mostrou um site que tem como endereço “deusnaoesurdo.com.br”: “Deus não é surdo”. Foi um grupo de pessoas que criou o site, incomodado pelo excessivo barulho das orações, do louvor e dos gritos de certos templos e casas de oração. Elas estão pedindo que sejam denunciados os excessos. Deve-se dizer quem foi - qual Igreja - quando, onde e como aconteceram estes abusos da paciência alheia. A liberdade na expressão religiosa, não pode acontecer à custa dos vizinhos que gostariam ter mais sossego e menos confusão.

É verdade: Deus não é surdo. Por isso não precisa gritar tanto. O barulho não lhe interessa. O que serve para os nossos pedidos serem atendidos é outra qualidade: a insistência. Deus, no dizer de Jesus, tem muita paciência, não se incomoda, nem se enjoa com as nossas palavras repetidas. “Para quem bate, se abrirá” ensinou Jesus. A perseverança no pedido, parece uma condição necessária para sermos atendidos.

Isso revela, ao menos, duas vertentes da questão. A primeira é o valor que o nosso pedido tem para nós. Queremos alcançar o objetivo e pedimos ajuda a Deus. Insistimos, porque acreditamos que Ele, o Senhor, pode nos ajudar. É um sinal de fé e de confiança.

Mas nós insistimos também porque acreditamos que o que estamos pedindo é importante, ao menos para nós, a nossa família e os nossos amigos. Não podemos desistir. Quem renuncia à insistência, manifesta que tem pouca fé e que dá pouco valor ao que está pedindo. A pessoa cansa e, diríamos nós, parte para outra. Já vai pedir para outros, de outra forma; vai pedir para alguém que, aparentemente e ilusoriamente, seja menos indiferente e insensível. Aí está o nosso erro. Jesus quer nos ensinar não só a pedir com perseverança mas, também, com paciência, como Deus Pai, sem cansar, sem desistir.

Precisamos também escolher o que pedir. Jesus diz que o Pai bondoso está pronto a nos dar nada menos que o Divino Espírito Santo, se o pedirmos convencidos e com insistência. Com o Espírito agindo em nossa vida, esta se transforma. Nós mudamos profundamente e seriamente. O Espírito vem com os seus dons e o dom mais importante dEle é o amor. Mas nós pedimos um monte de coisas, pedimos vantagens, privilégios, soluções fáceis para a nossa preguiça. Poucos pedem o amor, a paz, o bem para todos, a honestidade em suas vidas. Parece que nem acreditamos no Espírito Santo, porque não o pedimos continuamente.

Também, está claro: se não o pedimos com insistência é porque aquilo não vale tanto assim para nós. Precisamos refletir sobre o que pedimos com tanto afinco e o que deixamos de pedir.

Ainda bem que Deus é generoso, nunca dá algo de ruim aos que lhe pedem algo de bom. Jesus brinca: até os pais humanos, que não são sempre tão bons assim, não dão nem cobras e nem escorpiões aos filhos que lhes pedem peixes e ovos para comer, imaginem o Pai do céu. Ele quer dar mesmo o Espírito Santo, só que nós pedimos dinheiro, saúde, sorte, marido, mulher, emprego. O Espírito Santo, nem pedimos e nem insistimos, que pena. Assim falta o fogo do Espírito e falta o resto.