Arroz com feijão, o par perfeito
Correio Braziliense
23/7/2007

Para o antropólogo Roberto da Matta, a combinação de feijão com arroz é expressão da sociedade brasileira, combinando o sólido com o líquido, o negro com o branco, resultando em um prato de síntese, representativo do estilo brasileiro de comer: culinária relacional que, por sua vez, evidencia uma sociedade relacional. E nosso país é, além de consumidor, grande produtor dos dois alimentos.

Segundo levantamento do IBGE, o país colheu 11,5 milhões de toneladas de arroz e 2,7 milhões de toneladas de feijão na safra 2006. O aumento da produção favorece os consumidores com a oferta mais diversificada de produtos a preços mais baixos. Já as tecnologias agrícolas permitem ao homem do campo alcançar números muito além das atuais médias. O problema é que o aumento de produtividade resulta em queda de preços, dificultando ainda mais para quem vive da terra.

Mesmo sendo grande produtor e consumidor e com queda progressiva no preço dos dois produtos, o brasileiro vem abandonando seu prato principal. A Pesquisa Nacional de Orçamentos Familiares (POF) de 2003 indica que a aquisição alimentar domiciliar anual de arroz foi 31,6 quilos per capita.
O consumo de feijão comum foi de 12,4 quilos per capita. Nas grandes metrópoles brasileiras, identificou-se decréscimo percentual em relação a 1975, de 46% do consumo de arroz e 37% do feijão.

Há, contudo, de considerar que o percentual refere-se apenas às aquisições domiciliares dos produtos nas 10 maiores metrópoles onde, sistematicamente, foram coletados dados no período 1975-2003. Outros dados da POF 2003 indicam que o brasileiro está gastando mais com refeições fora do domicílio, especialmente nas áreas urbanas.

Atenta a essas questões, a Embrapa Arroz e Feijão, desde 2004, chama a atenção da população para esses fatos em busca de reverter a queda de consumo. Ação estratégica é a campanha "Feijão e arroz, o par perfeito", que visa mudar a percepção das pessoas quanto aos valores nutricionais do arroz e do feijão; estimular o consumo desses alimentos, juntos ou em separado, por meio de variadas formas e apresentações; e reforçar a percepção da população quanto à mistura, combinação única e tradicionalmente brasileira.

Para tanto, previu-se um esforço integrado de comunicação, incluindo ações de publicidade; promoção dos produtos em associação com cadeias de supermercados, hotéis, sites etc.; e merchandising em programas de rádio, novelas, programas de culinária e variedades, sites específicos etc.
Devido ao alto custo de execução e a escassa adesão da iniciativa privada nessa fase inicial, a campanha não foi levada a cabo.

Em 2006, a importância do tema fez que fosse proposto um grupo temático no âmbito das câmaras setoriais com o objetivo de apresentar propostas para incrementar o consumo de arroz, no âmbito das políticas setoriais de longo prazo. A maior adesão do governo federal e da iniciativa privada tem potencial para impactar de forma muito positiva não somente as cadeias produtivas dos dois nobres produtos, mas também a saúde da família. Além das estratégias de publicidade, há a necessidade de formulação de políticas públicas de promoção dos produtos, destacando-se a questão da merenda escolar, a mistura da farinha de arroz à farinha de trigo, entre outros.

Em 2007, a campanha ganhou mais energia, com a adesão cada vez mais efetiva dos segmentos das cadeias produtivas e das autoridades. Num esforço conjunto e inovador, o país começa a olhar com mais cuidado para o seu prato principal. A pesquisa nacional, ciente de que não cabe somente desenvolver tecnologias para aumentar a sustentabilidade e a competitividade dos sistemas de produção de arroz e de feijão, pretende contribuir com o aumento de qualidade e do valor nutricional e apoiar a diversificação do uso desses nobres produtos e seus derivados pela indústria, facilitando, assim, a vida da dona-de-casa, com formas mais práticas de preparo e novas receitas, que valorizam os dois alimentos e têm sido apresentadas em cozinhas experimentais. No entanto, a indústria nacional precisa ainda pôr à disposição dos consumidores novas formas de apresentação dos dois produtos a preços acessíveis.