Sobre a micareta
Pedro Ribeiro

Nada contra a micareta em Macapá. Nem a favor.

Por outro lado, já que não dá pra evitar esse assunto, nem impedir que isso aconteça por cá, pelo menos, valeu o bom senso por parte das autoridades e dos empresários da tal micareta - que como todo projeto cultural de gosto duvidoso, visa somente o lado do entretenimento e o lucro, muito lucro - de que ela fosse realizada na área em frente ao estádio zerão (assim, no diminutivo mesmo, porque de grandioso não tem nada mesmo).

O fato de ela ter saído da Orla, depois de atazanar toda a população que mora no Santa Inês e trazer a possibilidade alarmante de causar danos ao meio-ambiente e a estrutura claudicante da daquela orla, não entra na cabeça nem dos empresários responsáveis pela barulhada e nem dos brincantes, estes nem um pouco preocupados com a ameaça ao patrimônio público nem à paz aos moradores de lá.

E é fácil de se diagnosticar isso. Como podem pensar direito se aquelas músicas não dão nem sequer pra se curtir quanto mais pra se “dançar”, ou melhor, pular? O gosto musical como reflexo de quem o ouve.

Com toda essa dinheirama dava pra trazer uns tantos músicos eruditos que só chegam até Belém, deliciando os sortudos amantes da boa música e do entretenimento com qualidade da Cidade das Mangueiras.

Tanto empresários do show business (acho que nem eles sabem o que é isso), como os próprios artistas e gestores da cultura local, não estão preocupados com a Cultura, no sentido mais restrito que o termo suscita, e sim com a Curtura (prima pobre da primeira) que se manifesta pela incessante enxurrada de eventos “povão” que por cá pululam semanalmente. Quando será que essa gentalha vai se conscientizar e perceber que só é possível melhorar o que está ruim quando houver uma mudança radical nessas atitudes e próprias de quem pensa e age pequeno? Até quando vão viver com o pé na lama da ignorância e com os olhos no horizonte das platitudes, (só pra achincalhar com essa desgovernança no Estado)? E nem venham me dizer que falta dinheiro para tanto. É só ver os nomes dos patrocinadores nesses eventos e estão lá os dois da tal parceria.

E quanto a nós, ficamos órfãos de bons eventos voltados à música erudita, já que os próprios músicos, muitas vezes, formados na Escola Walkíria Lima, sobrevivendo com migalhas das verbas destinadas à Cultura, quando ficam famosos e, por um destes acasos do destino, viram empresários, acham de explorar o lucro desenfreado, investindo no popularesco, em detrimento de realçar as vicissitudes de se conhecer a música clássica com todas as benesses que esse contato pode trazer.

Chorar pra quem, então?