Só Deus basta

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

Um homem tinha três filhos, um mais preguiçoso do que o outro. O primeiro acordava sempre muito tarde e, até se arrumar, o dia já havia passado. Outro pendurava uma rede em baixo de uma árvore e deixava o tempo passar. O terceiro ficava batendo um papo gostoso e nunca ia trabalhar. O pai começou a ficar preocupado; nada adiantavam as súplicas, as ameaças, as promessas. Os anos passavam e ele estava ficando velho. Um dia entendeu que estava para morrer. Mandou chamar os filhos que, depois de muito tempo, resolveram comparecer à beira da cama do moribundo. O pai deu as últimas recomendações, os abençÿo e di sse que tinha um segredo para revelar. Na roça dele, que agora deixava aos filhos, estava enterrado um tesouro. - Onde?- Perguntaram os filhos, todos juntos. Mas o velho morreu sem dizer mais nada. Após o enterro os filhos se entreolharam e, com muito má vontade, pegaram as enxadas e foram para a roça. Sem saber por onde começar, resolveram revirar todo o campo. Capricharam. Uma semana não foi suficiente. Trabalharam mais uns dias. Por fim, tiveram que admitir terem sido enganados. Naquela roça não estava enterrado nenhum tesouro. O pai havia mentido. Voltaram para casa decididos a tirar um bom tempo de férias merecidas. Adeus roça. Naqueles dias deu uma boa chuva e, uns meses depois, os vizinhos foram avisar aos três irmãos que a roça deles estava toda verde e cheia de verduras e legumes. Desconfiados, os três foram ver e, dessa vez, era verdade. A revirada da terra tinha voltado a dar vida àquele campo. O pai não os tinha enganado. Lá no campo estava de ve rdade escondido um tesouro, o que sempre se encontra com o suor, o esforço e a vontade de trabalhar.

Até aqui a história. Na vida não é tão simples, nem tão fácil, entretanto o que contei não deixa de ter a sua razão. Muitas vezes o tesouro está mais perto do que pensamos, mas por distração, preguiça, ou mesmo descrença, deixamos de procurá-lo e de encontrá-lo.

Na vida cada um de nós procura e, na maioria das vezes, encontra o tesouro que quer encontrar. Muda a forma de procurá-lo. Alguns acham que é a sorte que lhe dará o tesouro. Jogam em todas as Loterias. Se poupassem... Outros acham que será Deus a dar-lhe do bom e do melhor. Parece que foi assim para os que declaram abertamente que foi Jesus a dar-lhes o carro, a casa, o escritório, o emprego. Pelo jeito muito outros continuam na fila esperando, ou pela sorte, ou por Jesus. Haja paciência!

Porém existe algo de verdade em tudo isso. Quem dá a todos aquela grande, valiosa, riq ueza que se chama vida, com muitas qualidades, muita arte e muita criatividade, não é nem a sorte e nem Jesus, milagrosamente, é o Pai bondoso. Nem todos têm a mesma boa vontade e a mesma disposição, é verdade, mas não faltam chances e ocasiões.

A questão é que todos preferimos encontrar as coisas prontas. Eis o primeiro equívoco. É mais fácil ganhar do que buscar. É mais cÿmodo ficar esperando do que arriscar. Parece mais fácil aguardar a sorte grande da Sena acumulada, de que construir aos poucos a própria vida. Também uma sábia administração, sem gastos inúteis ou luxos descabidos, ajuda a melhorar.

Desse jeito, no entanto, continuamos a acreditar que a felicidade dependa das coisas e do dinheiro. Este é o nosso segundo equivoco. Quem disse que os bens materiais são o verdadeiro tesouro? Segundo a parábola de Jesus, o homem que encontra aquele tesouro, e o mercador que encontra aquela pérola preciosa vendem tudo o que possuem para comprar o campo e a pérola. Não diz a parábola que os compraram para especular e ganhar mais dinheiro ainda, não. Aquele tesouro era o último tesouro. Aquela pérola era a mais preciosa. A busca havia acabado.

Podemos dar tantos nomes a esse tesouro e a essa pérola: amor universal, paz entre as pessoas e entre os povos, fraternidade, justiça. Tudo conduz, enfim, ao próprio Deus. Quem o encontrar, não precisa de mais nada. Tudo fica para trás. "Só Deus basta", dizia Santa Teresa.