Chega de maus exemplos!

O que se pode falar sobre ética e moral? Que são apenas valores. Mas que ambas são fundamentais para a atuação da Justiça. Sabe-se que estamos numa crise de identidade ética e moral. As pessoas responsáveis por esses pilares, tão importantes para a sociedade, sempre nos decepcionam porque não lutam para eliminar os vícios perniciosos. Além do mais, os Três Poderes, preocupados com a autonomia, capricham buscando fortalecer o corporativismo.

Se o Executivo pode ter os seus casos de corrupção, o Legislativo entende que, para mostrar a sua força, também tem esse direito. Daí o Judiciário, aquele por onde nada passaria, acha que, estando no mesmo nível dos outros poderes, não poderia ficar em desvantagem. Assim, cada um deles, usando os seus recursos, vai aumentando a necessidade de um banho de ética e de moral no país. Esses pilares, como estão, não podem sustentar valores de peso.

Nem bem esfriou o caso do presidente do Senado, explode a denúncia contra o Sr. Joaquim Roriz... novamente envolvendo bois. Será por isso que somos um país auto-suficiente em carne bovina? Perdeu-se o medo da espada da Justiça, ou acredita-se na lisura das CPI’s, do Conselho de Ética e na imunidade que o cargo garante. Alguns até apostam que sairão mais fortalecidos ainda após as investigações. Ficarão de “peito lavado” depois da crise passar.

Mas o cidadão de bem já pode sentir os efeitos da impunidade no dia-a-dia. Jovens bem-nascidos decidiram espancar e assaltar uma empregada doméstica porque acharam que era uma prostituta. Pior ainda foi a declaração de um dos pais: “é uma injustiça um jovem estudante, que é universitário, ficar preso por causa disso”. Viu como a Justiça tornou-se algo pessoal e tolerante?! Afinal, muitos se espelham nos maus exemplos das autoridades.

Se um universitário possui isenção penal ao espancar uma doméstica, alguém formado tem o direito de agredir um operário especializado. Quem tem mestrado, seguramente, pode abusar do graduado. O PhD, logicamente, pode tudo, desde que a vítima seja academicamente inferior. Para alguns, a educação é vista com este diferencial entre os cidadãos. Mas, felizmente, o Delegado responsável pelo caso agiu corretamente algemando os mauricinhos.

Curioso é que, nessas horas, não vemos ninguém do “Direitos Humanos” se manifestar, mostrar indignação, aparecer na mídia. Por quê? Há bem pouco tempo, o Champinha, aquele menor que matou um casal de jovens namorados, foi manchete no horário nobre. Não faltaram holofotes sobre o caso, pois precisavam de uma análise cuidadosa para evitar problemas futuros, já que se tratava de um incapaz. Uma doméstica, porém, não tem essa importância.

Viu-se, também recentemente, a desocupação dos prédios da Universidade de São Paulo, um dos centros de excelência no país. Talvez desse grupo de estudantes até saia alguns líderes da nação. Mas o estado das instalações, após a ocupação, mostrou como os “futuros dirigentes” tratam a coisa pública, aquilo que custou o dinheiro de todos. À parte a pauta de negociações, que não foi amplamente divulgada, o patrimônio público deveria ser preservado.

A sociedade reclama da falta de rumo do país. Não adianta mostrar o superávit na balança comercial porque a vida do cidadão comum não depende apenas disso. O contribuinte precisa, além de crescimento e desenvolvimento, sentir confiança nas instituições. Ninguém se exime de pagar impostos, desde que se vejam sob qual forma de benefícios os mesmos estão sendo devolvidos. Por que os responsáveis legalmente constituídos não cobram isso?

O exemplo que alguns representantes da classe média alta deram, no caso da doméstica, desmente que a educação é indispensável na formação do cidadão. São pessoas desse tipo que fazem dos altos postos públicos uma extensão das suas vontades. Usam o cargo para se colocar fora do alcance da lei e para enriquecer ilicitamente. Elas nem temem a Justiça porque, fomentadoras da crise na ética e na moral, têm certeza da sua inoperância.

José Roberto Ichihara é engenheiro da Petrobrás e articulista

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