PSB do Amapá investe na formação de seus quadros

Sexta-feira, 22 de junho - São 14h de uma tarde “enluarada” como, ironicamente o povo do Amapá costuma chamar as ensolaradas, e extremamente quentes, tardes de verão na região. Em meio à calmaria que toma conta da cidade, que ainda cultiva o costume da sesta depois do almoço, um lugar está movimentado. É o Partido Socialista Brasileiro do Amapá, que decidiu quebrar a distância que separa partidos políticos da população e vem há quatro anos trabalhando em todos os bairros de Macapá e nos demais municípios, criando células populares do partido chamadas Núcleos de Base do PSB. “A criação dos núcleos de base nasceu de uma decisão do congresso nacional do PSB em 2003, onde houve uma ampla discussão sobre exclusão política e todos nós, do Brasil todo, nesse processo de discussão abordávamos uma reclamação; a cada vez que você vai fazer uma campanha eleitoral seja para a câmara de vereadores ou para deputado, a reclamação dos eleitores é igual no país todo, o político só chega nas vésperas das eleições, os partidos só funcionam nas vésperas das eleições e o cidadão só é valorizado na hora do voto. A partir dessa decisão do IXº Congresso Nacional do Partido Socialista Brasileiro e a partir de uma longa reflexão e da reclamação do eleitor, nós aqui do Amapá tomamos a decisão de atender à reivindicação do eleitor, criando um instrumento de participação política no local de moradia e também nas categorias profissionais. Logo depois do congresso nós passamos a planejar e em 2004 nós implantamos os primeiros núcleos e daí não paramos e hoje temos 133 por local de moradia” diz o presidente do PSB no Amapá, João Capiberibe.

O advogado, economista e professor Universitário, José Ramalho de Oliveira, que durante o governo do PSB no Amapá, foi secretário de planejamento do Estado, é o primeiro a chegar ao partido. Ele é responsável pelo curso de formação da militância numa área bastante árida.

Num curso denominado “Orçamento Público”, o economista explica à platéia de alunos, constituídas de militantes e cidadãos comuns, como é formado e gasto o orçamento público. “O objetivo maior é trabalhar a formação política, a compreensão do orçamento pela militância”. Do grupo que participa, 2 ou 3 deverão ser escolhidos para dar continuidade ao trabalho nos bairros de Macapá. Perguntado pelos motivos de participar de uma empreitada com esta, José Ramalho faz questão de lembrar que é um trabalho voluntário e responde, sem titubear: “Faço isso pela militância política, sou dirigente partidário e tenho interesse que o processo de compreensão da sociedade possa chegar onde as pessoas são muito manipuladas, é preciso que todo mundo saiba o que é orçamento e o quanto ele é importante para nós.”

O líder comunitário do arquipélago do Bailique, Paulo Rocha, está acompanhando o curso e demonstra entusiasmo pelo assunto, “ estou achando muito bom, o curso transmite aos participantes uma noção do que é o orçamento, como ele se forma e sua distribuição na sociedade. O orçamento é muito saqueado. Esta é uma oportunidade ímpar para tirar dúvidas quanto à execução e distribuição do orçamento estou aprendendo muito e contribuindo um pouco. Na verdade, aprendendo mais do que contribuindo”, diz Paulo Rocha animado.

Sete temas para falar de política

Formada em serviço social, a Professora Universitária Ely Almeida é membro da Secretaria Nacional de Mulheres do PSB e está encarregada de organizar o processo de formação. “Nós estamos tendo um trabalho grande, já que decidimos por fazer um processo que incluísse a todos e há seis meses estamos construindo, a partir da contribuição coletiva da militância, feita através de planejamento estratégico, um processo de formação que venha a atender a vontade e o compromisso do coletivo do partido.” Os cursos ficaram divididos em sete temas: Formação Política da Sociedade Brasileira; Comunicação Cidadã; Processo Eleitoral e Práticas Eleitoreiras; Direitos Humanos e Políticas Públicas; Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente, Orçamento Público e Construindo o Trabalho de Base.

A informação como instrumento para o crescimento do cidadão

Ex-candidata ao senado, Cristina Almeida ficou famosa no Amapá e no Brasil depois de enfrentar o todo poderoso ex-presidente Senador José Sarney na disputa por uma vaga ao Senado da República. Cristina não levou a vaga, mas fez bonito e atraiu a atenção da imprensa nacional para a disputa pelo senado no Estado. Cristina coordena o trabalho com os Núcleos de Base. Orgulhosa, ela defende a estratégia adotada pelo partido “Os núcleos de base são importantes pra realidade nossa no Estado do Amapá porque a gente precisa conscientizar a população. A informação é fundamental para o crescimento do cidadão.”

Liderança popular

A frente do projeto está o líder do PSB no Amapá, o ex-governador por dois mandatos, ex-senador da República e presidente do partido no Estado, João Capiberibe. Eleito em 2002 para o Senado, Capiberibe teve o mandato cassado, pois duas pretensas testemunhas(sustentadas pelo beneficiário da cassação) diziam que Capiberibe e sua mulher a deputada federal Janete Capiberibe teriam comprado seus votos por R$ 26 cada, em duas prestações. O processo gerou protestos no país inteiro, por tratar-se de uma trama montada para atender aos caprichos e colocar no poder um afilhado do todo poderoso senador José Sarney(PMDB-AP), que foi se refugiar no Amapá, depois de sair com a popularidade extremamente combalida da Presidência da República no final de 1989.

Ao invés de chorar o leite derramado, Capiberibe, que é um líder extremamente carismático, foi para os bairros e incrementou um trabalho que já vinha fazendo desde 2003, ele está ampliando as bases partidárias e popularizando o partido. “A politização leva o cidadão e a cidadã a rechaçar o comportamento promíscuo que privilegia o oportunismo individual. O cidadão consciente do seu papel, consciente da influência que ele pode exercer na construção do poder e sobre tudo consciente da responsabilidade que ele tem com a coletividade, com a ampliação do espaço público, esse cidadão torna-se invulnerável à chantagem eleitoral de véspera de eleição oferta de dinheiro e de alguns benefícios que só ocorre na véspera das eleições,” diz Capiberibe.

Experiência “exportada”

A experiência do Partido Socialista do Amapá de implantação dos Núcleos de Base é a primeira do país. No último final de semana, João Capiberibe esteve no Acre e na Bahia para fazer seminários de planejamento estratégico para implantação dos núcleos naqueles estados. Dirigentes e líderes do partido do Acre da Bahia trabalharam sob coordenação de Capiberibe, da coordenadora pedagógica de formação política do PSB Amapá, Ely Almeida e de Ivana Antunes, que trabalha com planejamento estratégico, oficinas e construção coletiva de programas e projetos.