Divino futebol
Ricardo Acampora 29/06/2009, 02:00 PM
A conquista da terceira Copa das Confederações pela
seleção brasileira foi intensamente comemorada pelos
jogadores e comissão técnica.

Afinal, o título veio com uma vitória de virada, conquistada
com muita determinação por um time que se por um lado
não tem o brilhantismo de outras seleções brasileiras,
por outro mostra espírito coletivo e grande união.
A vitória do Brasil sobre o esforçado time dos Estados
Unidos era esperada e portanto não chegou a surpreender.

O que surpreendeu mesmo foi o fervor religioso demonstrado explicitamente
por inúmeros jogadores que aos poucos foram revelando o amor
a Jesus em mensagens em inglês estampadas em camisetas que vestiam
por baixo da famosa camisa canarinho.
Os comentaristas da BBC que acompanharam a final também não
estavam preparados para a reza coletiva, com todos ajoelhados, de
mãos dadas, num círculo feito em pleno gramado que incluiu
até a comissão técnica.
Um
deles disse que o capitão Lúcio parecia um pregador
evangélico pela emoção com que proferia cada
palavra.
Num lugar como a Grã-Bretanha, onde o povo está acostumado
a conviver respeitosamente com diferentes religiões, surpreende
o fato de atletas usarem a combinação entre um veículo
de grande penetração como a televisão e a enorme
capacidade de marketing da seleção brasileira, para
divulgar mensagens ligadas a crenças, seitas ou religiões.
Se arriscam a serem confundidos com emissários de pregadores
dispostos a aumentar o número de ovelhas de seus rebanhos às
custas do escrete canarinho, como emissários evangélicos
em missão.
Para os críticos deste tipo de atitude, isso soa oportunismo
inadequado e surpreende ver que a Fifa não se opõe a
que jogadores se descubram do "manto sagrado" que os consagrou
para exibir suas preferências religiosas.
Será que a tolerância da entidade teria sido a mesma
se ao final do jogo algum jogador mostrasse uma camiseta dizendo "Eu
não acredito em Deus" ? Ou se outro fosse um
pouco além e gravasse no peito algo como "Essa
vitória foi obtida graças ao esforço dos jogadores
sem nenhuma interferência divina ou sobrenatural"?
É comum ver atletas fazendo sinal da cruz ao entrar em campo,
beijando anéis, medalhas de santos, cruzes e patuás
que trazem pendurados em cordões e apontando aos céus
como a agradecer pelo gol marcado. Ninguém tem nada a ver com
manifestações individuais.
Mas uma manifestação coletiva, explícita e organizada
como um ritual religioso pode dar margem a críticas ao ser
associada a um bem público, a uma instituição
tão democrática como a seleção brasileira.
A
religiosidade de cada um seja ela qual for merece respeito, da mesma
forma como merece ser respeitada a falta de religiosidade daqueles
que assim optaram a seguir a vida.
Se a moda pega, a Fifa corre o risco de ter a Copa do Mundo do ano
que vem cheia de manifestações religiosas, com missas,
cultos e pregações diversas após cada partida.
O povo merece continuar torcendo pelo futebol de sua seleção,
independente da reza, sessão espírita, ponto, ritual
de sacrifício, sermão ou pregação.
Afinal, futebol é bola na rede, o resto é conversa.