Todos os pés de frutas do nosso quintal

Antes do limão tinha a goiaba e antes da goiaba, tinha o coco,
a laranja-lima, a mangueira, outras goiabeiras, um pé de caju
cor de laranja, outro de caju amarelo e outro vermelho, que também
dava uns rachadinhos que eram uma delícia. Foi nos pés
destas árvores que brinquei na minha infância, quando
minha idade e imaginação me permitiam ver o quintal
com imensidão sem fim. Era um mundo à parte, separado
pelas cercas dos vizinhos. Foi embaixo das inúmeras árvores
que meu irmão inventou uma vez uma horta, e de cima do cajueiro
que dava fruto cor de laranja que uma vez, há muito tempo atrás,
num dia 7 de setembro meu pai foi buscar um caju para tirar gosto
com a bebida e caiu justamente com o pé e seu peso de mais
de 80 kg em cima de um prego de cabeça pra cima, até
hoje a imagem dele com o pé grudado na tábua e o pé
enterrado no prego me embrulha o estômago.
A casa tinha que crescer e pra crescer, tivemos que mudar pra uma
bandola improvisada, adivinha? Justamente onde ficavam todas essas
árvores que nos deixava durante todo o ano com o gosto de alguma
fruta na boca. Um dos cajueiros era um mistério, uma deliciosa
brincadeira de promiscuidade da natureza. De uma só raiz saiam
dois caules, de um deles colhíamos caju alaranjado e do outro
o fruto era vermelho. Ninguém sabe como essa aberração
foi parar no nosso quintal. Foi atravessando esse quintal até
o da vizinha que corri de um pato que me encheu a bunda de bicadas.
A obra deixou o quintal vazio por alguns anos, até que mamãe
sentiu falta do verde no quintal e plantou, além das plantas
medicinais, uma goiabeira e uma caneleira. Foi a vez dos nossos filhos
brincarem nesse espaço nem tão verde. Já não
brincava com pedaços de paus e de pendurar de cabeça
pra baixo nos galhos da goiabeira, como fazíamos, nem montavam
campo de vôley com corda de estender roupa, essas brincadeiras
eles deixavam para o Santa Maria, lá pras bandas de São
Pedro dos Bois. Nesse novo quintal, a brincadeira era com bicicletas
e outros brinquedos mais modernos.
Nunca esqueço que quando na casa da vizinha inventaram a Casa
de Samba, deixava o Yan e o Caio na casa da mamãe e ia me jogar
no pagode e partido alto ao lado. Quando olhei, no último galho
da goiabeira, naqueles galhos elásticos que pareciam que iam
arrebentar com os ventos, pendurados com os cabelos voando e o rosto
vermelho de sol estavam meus dois filhos gritando muito felizes: “mamãe
eu to aqui!”. “Meninos, desçam daí!”.
Era hora de dar tchau e correr pra pegar as crianças e voltar
pra minha casa. Não lembro o porquê da retirada da goiabeira,
mas acho que foi por mais uma obra, a do depósito desta vez,
creio eu. Depois veio o limoeiro, que não era nada sovina,
durante o ano inteiro fazíamos litros de limonada, horrores
de caipirinha e temperávamos muitos peixes. A caneleira ainda
permanecia, de lá mamãe fazia seus chás que perfumavam
a casa inteira e eram suas folhas que caiam nas panelas de mingau
na época de festas juninas.
Parece coisa de quem não ama a natureza, mas a causa da retirada
das árvores foi novamente a necessidade humana de mudanças.
Uma nova casa lá nos fundos do quintal. Hoje foi a retirada
do limoeiro e da caneleira que faziam parte da paisagem onde brincaram
muito recentemente os filhos mais novos de meus irmãos e os
bisnetos de meus pais, meus sobrinhos-netos. A casa muda, nova casa
é feita, com muita tristeza tiramos as árvores, mas
o que não muda é o costume de nossa família de
não parar de mudar.
obs: na foto meus sobrinhos-netos Tomás e Alice, quando
brincavam no quintal perto da caneleira e do limoeiro
Mariléia Maciel