ESTRANHA NAVE ESPACIAL
Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Os cidadãos brasileiros, simples terráqueos, olham com espanto para os seres extraterrestres que ocupam o Congresso Nacional. Seu comportamento soa estranho a nós, que estamos submetidos à Constituição brasileira e às demais leis do país e do mundo. O que para nós causa vergonha e atormenta a consciência, para eles soa normal. O que para nós traz punição certa e ostracismo, para eles soa como foro privilegiado. O que para nós parece corrupção, para eles faz parte dos trâmites legais do ofício. O que para nós arranha a imagem e leva à falência, para eles pode servir de trampolim para continuar subindo na escala política. Difícil saber qual o planeta de sua origem ou proveniência. Com razão, Senado e Câmara em Brasília ostentam uma arquitetura de nave espacial.

Senadores e deputados se regem por regras e códigos próprios, conhecidos só deles, e inacessíveis aos mortais que rastejam pela face da terra. Em seus estranhos tribunais, onde a investigação está a cargo dos próprios companheiros e a impunidade se converte em regra, o réu escolhe seus próprios juízes, ao passo que a vítima está proibida de comparecer às audiências. Ali, em oposição aos demais habitantes do globo, todos giram em uma órbita distinta, com distintas trajetórias e distintas motivações. Sua rota segue indiferente aos caminhos que, a muito custo, nós vamos abrindo cá em baixo, na face dilacerada do planeta azul. Não se sabe ao certo de onde vêem nem para onde vão. Navegam em círculos fechados ao redor do próprio eixo. O umbigo, individual ou corporativo, é seu único ponto de referência. As tormentas que devastam o globo não os atingem e tampouco os afligem.

Pilotam uma nave espacial hermeticamente cerrada. As janelas emitem som, luz e imagem, mas nada recebem do lado de fora. Os passageiros podem se comunicar com o exterior, mas ninguém está autorizado a comunicar-se com eles. É essa uma das características fundamentais da nave: em seu interior muito se fala e pouco se ouve. Os extraterrestres pairam muito acima das tempestades que, a nós habitantes da terra, a cada momento ameaçam submergir-nos. Enquanto muito se afogam nas águas turvas e bravias do cotidiano, a eles as ondas não alcançam.

São limitados os postos dessa nave singular, sequer chegam a mil. Por isso, cada um deles torna-se altamente sonhado e ruidosamente conquistado. Somente uns poucos privilegiados o conseguem. Uma vez sentado numa das poltronas, tudo se faz para não perder o lugar. Para isso, aliás, convergem todos os esforços desses seres tão especiais. A cada viagem, com unhas e dentes bem afiados, é preciso a qualquer custo garantir vaga na próxima. Daí prevalecer entre eles um misto aparentemente contraditório de disputa e camaradagem. Tudo fazem para puxar o tapete uns dos outros e, ao mesmo tempo, tudo fazem para se defenderem dos ataques que poderão vir dos seres mortais como nós.

Os viajantes da estranha nave empreendem cada giro com a finalidade de legislar os destinos dos terráqueos, que caminham passo a passo, no pó e no barro da estrada. Em pouco tempo de viagem, porém, cortam toda e qualquer comunicação com a terra. Ignoram as lutas, vitórias e fracassos dos que, pesadamente, seguem presos ao solo. Pior ainda, a nave costuma fazer tanto barulho com seus motores altamente turbinados, que desfaz o sono e o sonho dos pobres mortais. Daqui de baixo ficamos imaginando quão ignota é a vida em outros planetas!