Existem crimes piores...

Valacir Marques Gonçalves

Nesta semana que passou tivemos mais um capítulo do festival de absurdos que invade o cotidiano das nossas vidas. A corrupção, as denúncias de saques ao erário, a desfaçatez e o deboche deram lugar ao barbarismo. Alguns jovens mostraram o pior lado do ser humano. Não pretendo fazer nenhum tipo de generalização, mas fico preocupado quando rapazes da classe média, universitários, gente que desfruta do conforto que o dinheiro pode comprar, param o carro bancado por seus pais para roubar e agredir, de maneira cruel e covarde, uma empregada doméstica que esperava pelo transporte coletivo numa parada de ônibus. Não foi suficiente roubar o pouco dinheiro da vítima, eles agrediram-na com tapas, socos e pontapés, deixando-a desfigurada, humilhada e sem entender o motivo de tanta violência, de tanto ódio.

Desta vez alguém anotou a placa do carro e eles foram presos. A desculpa para o absurdo que cometeram reflete bem o que eles pensam da vida. Intolerantes e preconceituosos explicaram o motivo para o ato covarde que praticaram: “achamos que fosse uma prostituta” - a desculpa igualou o ato. O pai de um deles disse uma frase que não me sai da cabeça: “Existem crimes piores!”. Que pronunciamento infeliz. Certamente deve achar que, se existem crimes piores, eles devem redimir seu filho, devem dar um salvo conduto para ele sair à rua espancando e roubando pessoas indefesas.

Foi dito também que era um absurdo rapazes serem presos juntamente com criminosos. Que eles eram crianças que têm estudo, que têm caráter e por aí afora. Compreendo que pais emocionados percam a noção de civilidade e fiquem cegos para atos que não respeitam os mais elementares princípios de dignidade e convivência humana, mas eles poderiam ter nos poupado de ouvir declarações tão patéticas. Os responsáveis por essas “crianças” deveriam, antes de qualquer coisa, pedir perdão para a pessoa que foi brutalizada. Deveriam aproveitar a oportunidade e também pedir desculpas para a sociedade da qual fazem parte. Se eles tivessem dito que estavam chocados pelo que seus filhos fizeram, talvez tivessem tido solidariedade e compreensão numa hora tão triste.

O mea-culpa que não houve certamente ajudaria a sociedade a fazer um exame de consciência coletivo. Talvez ajudasse também para sabermos que tipo de gente estamos criando, que tipo de homens estamos jogando no mundo. Mas não, tivemos de ouvir que existem crimes piores... Que delinqüentes têm caráter e não podem ser presos. Que pena - foi perdida uma grande oportunidade de mostrar que algo está errado, que algo precisa ser mudado numa sociedade onde jovens espancam pessoas humildes e, num passado recente, incendiaram índios como se estivessem num parque de diversões.

Numa recente viagem que fiz a outro país vi um grupo de crianças indo ao colégio uniformizadas - senti saudade do meu uniforme. Não havia competição para mostrar quem se vestia melhor nem desfile de marcas em roupas e tênis. Vão dizer que isso é saudosismo, que é uma bobagem. Pode ser, não é essa a discussão, mas estou convencido de que etapas estão sendo queimadas - usando a linguagem do futebol, tenho a impressão de que nossos jovens estão passando direto do time infantil para time dos veteranos, sem tempo de serem crianças... Quando leio que muitos jovens continuam sendo recrutados por traficantes e que oitenta por cento dos bares do país vendem bebida alcoólica para menores de idade, tenho certeza de que uma reflexão precisa ser feita a respeito do momento que vivemos.

Cabe a justiça julgar o que esses rapazes fizeram, mas a barbárie praticada por eles talvez faça a sociedade refletir se não estamos passando por uma crise de autoridade que começa nos nossos lares. Esses tristes episódios precisam ser entendidos e discutidos. Policia forte, justiça que condena com penas severas e a construção de modernas penitenciárias fazem parte de um contexto, são providências necessárias, mas dão a impressão de serem uma UTI, onde as pessoas só deveriam chegar no estado crítico, com perigo de morte.

As nossas crianças precisam de educação, precisam de limites. Os adultos não podem mais ser surpreendidos por atos tão desumanos, eles precisam exercer a autoridade sem confundir com autoritarismo. A UTI certamente precisa ficar longe dos jovens, o que evitaria que pais constrangidos dissessem, em rede nacional, que pessoas que agridem, roubam e brutalizam pessoas humildes e indefesas têm caráter ou que existem crimes piores...

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