TRISTE RESISTENCIA

João Silva

Contra uma maré braba de denúncias e todas as provas, contra as evidências e a pressão da opinião pública, contra o noticiário e o desgaste do Parlamento, contra depoimentos importantes e a perícia da PF, o senador Renan Calheiros e amigos vão protelando, vão resistindo na tentativa de cansar o povo.

Resistem contra pessoas de bem, contra o Brasil, contra a verdade dos fatos, contra a democracia e a sociedade perplexa, a quem negou a renúncia que Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho não tiveram coragem de negar.

E isso acontece no Senado, na mais importante instituição do Congresso Nacional, na casa dos “Pais da Pátria”, protagonizado pelo brasileiro que a preside e deveria respeitar o decoro e o ordenamento jurídico no cumprimento das elevadas funções que exerce.

Pior é que o senador do PMDB sabe o que está fazendo, e nos subestima com a audácia e astúcia que sua personalidade forte foi imantando nas lides da política construída a seu modo, no resguardo dos interesses de grupos ambiciosos e personalistas, que não conhecem limite, que sabem jogar com a impunidade e a natureza pacifica do povo.

Tanto é que desde que se viu no centro da crise, não renunciou a nada: ficou na Presidência do Congresso; com apoio de Sarney e companhia fez os membros do Conselho de Ética, interfere na condução do processo que investiga as denuncias, negocia apoio diante das câmeras da tv, estimula sua turma de choque, manda bilhetinho a senadores indecisos e orienta a discussão no Plenário do Senado.

A firmeza de Renan não é a do bom caráter; é uma tática de convencimento, coisa de caso pensado, na tentativa de sensibilizar a opinião pública, francamente desfavorável ao senador do PMDB, que tinha aluguel da amante e despesa da pensão alimentícia da filha nascida de uma relação fora do casamento, pagas por lobistas da empresa Mendes Junior.

A crise vai fazendo vítimas; primeiro foi Romeu Tuma (PSDB-SP), que sumiu; depois de pedir arquivamento do pedido de abertura de processo contra o presidente do Congresso, por falta de decoro, foi a vez de Epitácio Cafeteira (Dem-MA), que adoeceu, seguido de Welighton Salgado (PMDB-MG), que desistiu; Siba Machado (PT-AC) renunciou a presidência da Comissão de Ética, Leomar Quintanilha (PMDB-TO), guindado ao cargo, quase não assume porque responde processo no Supremo, e Arthur Virgílio (PSDB-AM) está deprimido.

Até onde irá Renan, curvado pelas acusações que pesam sobre ele, mas acobertado pela vigência de acordos inconfessáveis, ninguém sabe; o que se sabe é que aumentam os precedentes gerados pela irracionalidade e paixão, comprometendo prerrogativas do Senado, como transferir o processo para o Supremo Tribunal Federal, não sem a indignação dos que resistem na outra face da moeda - Demóstenes Torres (PMDB-GO), Pedro Simon (PMDB-RS) e Jéferson Peres (PDT-AM), preocupados também com os desdobramentos das críticas de Lula ao Ministério Público e a Polícia Federal, segundo ele colocando em execração a honra de um companheiro (Renan). O fato novo é a nomeação de três relatores para o processo de Renan, um dos mais rumorosos da história do Congresso Nacional.

A acompanhando os fatos, dá pra perceber: além do amplo direito de defesa, Renan está sendo tratado com parcimônia e privilégios nunca permitidos a outros indivíduos na sua situação. Isso é que é ruim, muito ruim porque nenhum acordo de grupos, nenhuma aliança entre partidos, nada pode sobrepor-se à Constituição, à justiça e à verdade. Não é só Renan Calheiros: Lula, qualquer político, qualquer cidadão brasileiro, seja juiz, desembargador, ministro, governador, senador, deputado, prefeito, vereador, gente do povo, ninguém está acima da lei.

Amigos do presidente não são perfeitos, não são deuses, a sociedade não deu a eles licença para cometer ilícitos nem mandato para ser esconderijo de transgressores da lei; quando Renan foi ao Planalto pressionar Lula, o presidente do País deveria ter resguardado a Policia Federal e o Ministério Público como instituições do povo brasileiro, ao invés de sair em defesa do aliado que atropelou a ética no Parlamento e está sob a censura da opinião pública, exigindo sua cassação.