A vez de Gim Argello

Antônio de Castro
DFTV - Globo

Gim Argello não aparece no apart-hotel onde mora há uma semana. Foi para um hotel fazenda para fugir da pressão de Joaquim Roriz, que teria tentado articular a renúncia coletiva com os dois suplentes.

Desde a eleição, Gim sonhava em ocupar a vaga no Senado. Ele só deve chegar ao plenário na próxima semana, mas no site do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) na internet ele já é senador.

Segundo os assessores, Gim Argello contratou o escritório de Maurício Correia, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, para enfrentar os ataques da oposição e defendê-lo na Justiça.

Na mesma investigação que flagrou seis conversas de Joaquim Roriz, o suplente é citado num diálogo entre Deodemiro Alves Silva e Nilson Lacerda, preso na Operação Aquarela.

Reveja um trecho da gravação telefônica:
Deodemiro: Pior que aqui só tem peso pesado. Se a Polícia Federal baixar aqui agora, leva todo mundo. Tá eu, Gim Argello, Nenê Constantino. Se passar aqui, leva todo mundo!
Nilson: Não tem nenhum santo aí não.

Gim Argello também é amigo do empresário Nenê Constantino, o dono do cheque de mais de R$ 2 milhões que Roriz descontou no Banco de Brasília (BRB).

Gim ajudou a articular o negócio nebuloso da venda de um terreno na Via Epia, onde Nenê pretendia fazer investimentos. Ele estava na Câmara quando a destinação da área foi modificada, o que valorizou o terreno em 210% em apenas um ano.

Vale lembrar que na passagem pela Câmara Legislativa, Gim Argello sempre se preocupou com os projetos que tratavam de terras. Ele é corretor de imóveis de carreira. Mas não é só isso: Gim ainda está envolvido em decisões que deram prejuízo aos cofres públicos.

Gim foi um dos responsáveis pelo aluguel de 200 computadores e impressoras para a Câmara. Uma investigação concluiu que, com o mesmo dinheiro, ele poderia comprar 1.366 máquinas idênticas, do mesmo fornecedor. Por isso, o Ministério Público de Contas quer que ele e mais cinco acusados devolvam R$ 1,7 milhão à Câmara.

O PSol já falou em denunciar Gim, como fez com Roriz. Mas, na avaliação dos futuros colegas, o novo parlamentar não vai responder por isso quando chegar ao Senado. “O Supremo Tribunal Federal decidiu o seguinte: a quebra de decoro se verifica no exercício do mandato. Como ele não tem mandato, ele ainda não assumiu, o que ficou para trás é matéria de apreciação do STF e da Procuradoria Geral da República. Lamentavelmente, nós não podemos abrir um processo por quebra de decoro, porque como parlamentar ele ainda não fez nada. E imagem da Casa? Já tem muitos aqui desse jeito, né? É mais um”, afirma o senador Demóstenes Torres (DEM-GO).

Entenda o caso:

Joaquim Roriz renunciou ao perceber que a situação estava insustentável e que o relator seria um promotor de Justiça que o conhece bem, o senador Demóstenes Torres. E também porque percebeu que o PMDB o estava abandonando, para desviar as atenções sobre Renan Calheiros, no Conselho de Ética.

A renúncia evita, por enquanto, uma cassação de mandato que o tornaria inelegível. Mesmo assim, não evita que o inquérito já aberto pela Procuradoria Geral da República continue, agora sem foro privilegiado. Se condenado pela Justiça, fica inelegível.

A renúncia de Roriz não é boa para Calheiros, que continua sendo o foco das atenções e não é boa para Gim Argello, que se torna ainda mais foco das investigações.

Hoje à tarde, Gim Argello dará uma entrevista coletiva dizendo que é inocente.