Violência, não!

Pepê Mattos

De todo esse imbróglio sobre o aumento no preço da passagem dos ônibus ficam tantas indagações que não tenho certeza a quem direcionar. Algumas delas dizem respeito a fatos tão gritantes que chegamos a pensar que forças estranhas atuam em conjunto para nos desestabilizar e nos deixar desorientados, restando-nos somente ou a mais completa subserviência às ordens emanadas sabe-se lá de onde ou nos revoltarmos contra tudo e todos os que detêm os poderes públicos, já que tudo que se decide só onera e imbeciliza a população macapaense.

Num primeiro momento ficamos sabendo que este último aumento foi determinado pela Justiça a pedido dos empresários dos ônibus. Sob que argumento, desconheço. Acredito que um deles é que as passagens estavam muito baratas. Baratas? Segundo informações as passagens são mais caras do que em Belém, que tem uma malha viária urbana umas dez vezes maiores do que a daqui. Sem contar que as rotas atravessam toda a metrópole belenense e com apenas uma passagem. Por cá não se consegue chegar nem ao aeroporto.

Aliás, não entendo como até hoje não se colocou uma linha decente de ônibus para o aeroporto. Antigamente dizia-se que a culpada era a cooperativa dos taxistas de lá que não abria mão do monopólio que, dizem, lhe pertencia tal qual as estrelas pertencem aos céus. Mas até estas já não detém esta exclusividade, pois agora mesmo fiquei sabendo que por estes dias vai haver uma chuva de estrelas cadentes, pondo por terra - literalmente - este mito dos tempos dantanho.

Penso que seja uma atribuição da EMTU (Empresa que fica Matutando Teorias Ultrajantes), órgão da PMM (Pardieiro de Mentes Malsãs) que em tese existe para organizar, fiscalizar e gerenciar o transporte urbano em Macapá. Acontece que ela faz isso tão mal e porcamente que nunca sai em defesa do usuário quando sua atuação se faz necessária. A começar pela qualidade dos serviços prestados pelas empresas de ônibus. Eu disse ônibus? Desculpa aí, caro usuário. Chamar aquilo de ônibus é elogiar sucata e ao mesmo tempo uma agressão ao passageiro, ser humano que chega a pensar se é mesmo humano e filho de Deus - segundo a crença de cada um - a partir do momento que adentra aqueles bólidos sacolejantes guiado por algum celerado fugindo da fúria de mil demônios ensandecidos. Passe os olhos pelo interior dum destes bondes reciclados e veja o quão é gritante a percepção de que compramos gato por lebre: cadeiras insuficientes (deram agora pra priorizar cadeiras únicas em detrimento das de dois lugares, evidenciando que quanto menos cadeiras, mais espaço sobra); pintura deficiente; lâmpadas quebradas ou queimadas; luminárias parecendo terem saído de lixeiras; assentos inadequados; letreiros com leis e decretos de outros municípios estampando as paredes e janelas.

Se alguma autoridade judicial (essa mesma que autorizou o aumento da tarifa) ou pertencente à PMM, EMTU, Ministério Público ou ligada ao trânsito, se prestar a fazer um tour (ou tour-ture, para ser mais exato) num ônibus vai entender o que estou afirmando. Logo de cara vai verificar que já na saída do ponto de linha os motoristas instigam o usuário a entrar pela frente pagando somente um R$ 1,00, afinal “motora” também é humano e precisa molhar a garganta com esse “trocado”. Dois quarteirões adiante o mesmo “motora” vai barrar a estudantada e dar carona praquela boazuda - que ele nem conhece, mas é boazuda - até seu destino. Aqui um adendo: embora exista uma lei que proíba a entrada da estudantada maior de 5 anos pela frente, muitos “motoras” se fazem de samaritano e permitem um ou outro “morcegar” até sua escola. À frente uma senhora, já entrada em anos só entrará se estiver acompanhada de uma moiçola pra lá de estonteante. Isso tudo, claro, sob mil decibéis do melhor tecnobrega, do mais irresistível “melody” (uma corrutela do brega romântico acelerado numa batida repetitiva típica do caliente way of dance caribenho-amazônida) e de ensurdecedoras e incompreensíveis (e impublicáveis) letras dos pancadões dos morros cariocas (melhor isso do que chamar praquilo de funk).

Bem, se acham isso pouco, lembro-lhes que tudo isso acontece dentro de um ônibus em terras tucujus sob um sol de derreter neurônios e humores os mais rígidos possíveis. Acrescente-se ainda o quinhão “velocidade máxima 1, 2, 3 e 4” + “velozes e furiosos idem” que todo “motora” faz questão de deixar bem claro e à vista de qualquer passageiro metido a insatisfeito. Nem bem se adentra num veículo deste e já se é jogado de um lado a outro e de cima a baixo, tal a urgência que acomete ao possuído que está no comando deste trem para o inferno que tivemos a desgraça de pegar pra ir ao trabalho. Idosos, gestantes, pais e mães com filhos no colo, crianças e até mesmo adultos são totalmente - eu disse totalmente - desrespeitados em seus direitos mais elementares como cidadãos e usuários (ou suicidas) de transporte público.

E os ônibus, então? Por que a EMTU (Entidade que Maltrata e Tiraniza o Usuário) não exige que as empresas adquiram veículos novos e condizentes com as exigências mínimas de segurança, conforto e eficiência, capazes de transportar o usuário com toda a comodidade que ele merece? Por que o SETAP (Sistema que Existe pra Tirar A Paciência) não se esforça para melhorar os serviços prestados por seus funcionários e os ônibus que servem a população? Por que os profissionais que trabalham nos ônibus (motoristas, cobradores e mecânicos - já que sempre dá problema nos sucatões ambulantes) não se esforçam em oferecer um serviço adequado e mais humano ao cidadão e se conscientizem de que a culpa por estarem atrasados - o que sempre acontece - não é dos passageiros e sim de um mau gerenciamento que começa na sala de ar condicionado dos tecnocratas e burocratas de trânsito que povoam as repartições públicas e explode nas ruas em forma de ultrapassagens perigosas, desrespeito às leis de trânsito e total descaso com a vida de todos.

Ainda teve a bagunça levada a cabo por estudantes na casa do prefeito. Estes deveriam ser responsabilizados e punidos exemplarmente para que todos vejam que não é através da anarquia que vai se chegar à ordem e à paz de que todos precisam.

A vida já vem sendo há muito tempo desrespeitada, principalmente por parte de quem mais se espera que se posicione e aja com respeito e dentro dos princípios da boa convivência.

Não precisamos de mais violência.