Aprendendo com as diferenças (minha doce experiência em Macapá)

Por Enzo Figueiredo Ballarini

Só vou contar uma pequena história, que se sucede numa pequena cidade afastada do epicentro, em 2004. É sobre um menino arrogante, metido e com ar de superioridade, que tinha acabado de chegar à cidadezinha no começo desse mesmo ano. Ele tinha apenas 11 anos na época, porém estava prestes a fazer 12. Notava-se logo que ele não era daquele local apenas pelo seu sotaque, que por sinal era bem estranho e diferente. Branquelo, sardento, com o cabelinho todo ajeitado; um pirralho. Reclamava de tudo e odiava aquele lugar, que era tão diferente de onde viera, tendo brigas de horas e horas com mosquitos, calor, tédio, saudade dos antigos amigos e a lista não parava de crescer. A história vai mudando a partir de sua entrada em um colégio chamado Atual.

O Atual foi um soco no estômago. Ali seus preconceitos contra a inocente cidade foram de 10 pra 1000. Assuntos que ele tinha estudado anos antes, professores que eram corrigidos pelo nosso pequeno projeto de gente, pessoas com cultura e idéias totalmente divergentes da sua e ainda por cima pessoas que caçoavam de seu diferente sotaque. Seu melhor amigo era um discman, que por sinal vivia em seu bolso. Porém aos poucos ele foi se conformando e, dessa maneira, abrindo espaço para conhecer coisas novas e se abrir mais. Desse momento em diante, ele acordou, tomou a pílula vermelha, entrou na toca do Coelho, abriu os olhos para o que essa cidade tinha a oferecer e ensinar: Amizades verdadeiras; experiências únicas; amor; solidariedade; ser menos egoísta (coitado, ele é filho único); aprender que a vida se faz de pessoas e não de lugares, pois não importa onde estamos, mas sim com quem estamos. Aprendeu a amar e abrir os braços para o que vier, viver intensamente e sempre se jogar de cabeça. Viveu 5 anos como se fossem 50. Foi como um filme rápido e intenso, cheio de ação, suspense, drama, comédia, romance, aventura e coisas desconexas. E um filme sempre tem fim.

Segunda-feira, dia 29 de junho de 2009, 04:43 A.M. Agora esse menino, já com seus 17 anos, com aparência de 21 (propositalmente), totalmente mudado (já foi professor de inglês, tenista, jogador de basquete, nerd, romântico, vagabundo, skatista, aluno nota 10, aluno nota 0, vocalista, amigo, amante, herói, vilão, jogador de DDR e PUMP, jogador de GH, jogador de Magic, Demolay, sóbrio, enfim…), encontra-se numa situação parecida com a que teve com 11 anos : vai ter que ir embora da cidade que ama, deixando tudo que construiu e consolidou para trás. É uma situação delicada, que está tirando seu sono e corroendo seus dias cada vez que fica 1 minuto mais perto de sua partida. Tudo bem que ele não é mais o mesmo, mas isso não significa que vai ser fácil, significa que ele vai levando tudo que aprendeu na cidade. Significa que ele vai com metade do coração (provavelmente do fígado também), pois irá deixar a outra metade na cidadezinha. Ele só queria que todos soubessem que ele ama essa cidade, ama as pessoas que fizeram quem ele é, ama toda essa “pérola azulada” e ama até quem fez mal a ele, pois o fez crescer. Ele promete aproveitar cada segundo que ainda lhe resta com as pessoas que ama e vai embora com a promessa de retorno. Contando a partir de agora, horário de Brasília, restam-lhe 11 dias. Dia 11 é sua viagem, dia 11 é seu adeus. Como já dizia Mick Jagger: “You can’t always get what you want”.

A propósito, o nome do menino é Enzo Figueiredo Ballarini.