O Filinto do Guaíba

Sebastião Nery

Deputado federal do PMDB do Ceará, Paes de Andrade foi à Alemanha, em 1973, participar de uma celebração internacional sobre o fim da Segunda Guerra Mundial. Sentado ao lado do representante diplomático do Brasil, estava em um banquete em Bonn, oferecido pelo parlamento alemão, quando um funcionário da embaixada brasileira aproximou-se do diplomata e lhe cochichou alguma coisa ao ouvido.
O embaixador ficou perplexo, excitado e feliz.

Automaticamente, pegou o copo de vinho, em frente, fez um brinde ao infinito, sorriu e não disse nada. Paes percebeu o estranho gesto, ficou curioso, perguntou o que tinha havido.
- Nada demais, deputado. O Filinto Muler morreu esta manhã, em Paris, em um desastre de avião. Morreu como devia ter morrido: o avião se transformou em uma camara de gás. Os assassinos públicos acabam assim.

Muller
Paes, cearense e cristão de alma generosa, que tinha se encontrado com Filinto na véspera, em Brasília, no Senado que Filinto presidia, levou um susto:
- Por que esse ódio todo, embaixador?
- Ele torturou barbaramente meu pai. Além disso, foi o principal responsável, no primeiro governo de Vargas, pela entrega a Hitler da Olga Benário, a mulher de Luís Carlos Prestes, que acabou em um campo de concentração, assassinada numa câmara de gás. Os verdugos de todos os tempos são iguais. Mais dia menos dia, acabam pagando por seus crimes. E tomou gostosamente um gole de vinho, bebendo o gás de Filinto.

Tarso
Fique tranqüilo o ministro Tarso Genro. Ele não é o Filinto do Guaíba. Nem ele é Filinto, nem Lula é Vargas, nem Fidel é Hitler. Os dois jovens pugilistas olímpicos de Cuba (23 e 24 anos), cujas cabeças foram apressadamente e voluptuosamente entregues numa bandeja a Fidel Castro, como a lúbrica Salomé entregou a Herodes a cabeça de João Batista, não irão para a câmara de gás. Mas Tarso Genro jamais será perdoado pela conivência.

Um professor de Direito Constitucional, ministro da Justiça, não tem desculpas ao cometer a violência jurídica que cometeu. Ninguém mais do que ele sabe que todas as tradições brasileiras do direito de asilo e as regras nacionais e universais da extradição, da deportação, foram violadas e jogadas no lixo, para atender às exigências, que o governo Lula recebeu como ordens, de Fidel Castro. O Brasil fez com os pugilistas o que nunca fez com bandidos.

Seqüestro
Continua vazando do Planalto a decisão mafiosa, inconstitucional. Como sempre tiram o corpo fora, para livrar a cara de Lula, dizendo que "foi coisa" do brasileiro-cubano José Dirceu, do professor de top-top Marco Aurélio Garcia e do refundador (ou será reafundador?) do PT Tarso Genro.

1 - Houve um seqüestro oficial. Sem qualquer acusação, com vistos de permanência no País para 90 dias, os pugilistas foram "presos, isolados e mantidos incomunicáveis" em um hotel e deportados em 72 horas, à noite.

2 - Foram ao consulado da Alemanha aqui no Rio, lá assinaram e legalizaram um contrato de lutas de 500 mil euros na Europa e nos Estados Unidos, com adiantamento de 30 mil euros, dos quais receberam na hora 10 mil euros. E a Alemanha mandou preparar a documentação para entrada lá.

3 - Quando a chefia da delegação cubana no Pan percebeu que mais dois a haviam abandonado, como dois outros já tinham feito na véspera (e invariavelmente acontece em todas as olimpíadas, Pans e disputas esportivas internacionais), jogou o governo brasileiro em cima deles, como capitão do
mato, e logo Fidel mandou antecipar a volta para Havana de 200 inconfiáveis.

Prisioneiros
4 - Inventaram a desculpa canalha de que os dois "pediram para voltar para Cuba". Claro. Eles sabiam muito bem a ditadura em que vivem e o que é estar nas mãos da polícia. Presos, incomunicáveis (só um procurador foi lá, lhes ofereceu "assistência" e ficou calado). Já que iam ser entregues às garras do governo cubano, trataram de tentar limpar a barra, inventaram a história de que foram "embebedados" e queriam "voltar para suas famílias e sua pátria".

5 - Em Havana, o governo já havia ameaçado e posto em pânico as famílias deles. "Quando chegaram, não foram para suas casas, mas para uma casa de visitas" (sic), prisão disfarçada, de onde só saíram depois de irem para a televisão (só há uma, do governo) e dizerem tudo que mandaram dizer.

Cuba
Quem conhece Cuba sabe. É um Estado policial, com um governo policial. Os passaportes dos dois pugilistas, como os de todos os membros da delegação cubana, não ficaram com eles, mas com o serviço policial cubano.

Esta é uma questão que precisa ser discutida nas próximas olimpíadas e Pans: prisioneiros podem disputar jogos internacionais? No mundo todo, quem não pode ficar com seu passaporte é prisioneiro. O asilado ganha logo outro.

Fidel já avisou que eles são "traidores da pátria". Em Cuba, é pena de morte. Em luta com a morte dele, Fidel não vai fuzilá-los nem mandá-los para o gás. Mas serão sempre dois prisioneiros. Por covardia do Filinto do Guaíba.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------

Pedro do Coutto

Historicamente, importante acentuar que a decisão do governo brasileiro foi tomada antes de novembro de 37, portanto durante o período constitucional que marcou a eleição indireta de Getúlio Vargas para presidente, ocorrida em 34. Esse seu mandato terminaria em 38, mas, um ano antes, ele desfechou um golpe militar e implantou a ditadura do Estado Novo, que durou até 29 de outubro de 45. As eleições de 45 aconteceram a 2 de dezembro.

O tema Olga Benário, hoje nome de uma escola no Rio, foi profundamente analisado pelo escritor Fernando Moraes, na grande obra do mesmo nome, e pelo jornalista William Waack, numa série de reportagens que publicou quando ainda trabalhava no "Jornal do Brasil". Antes, portanto, de ir para a Rede Globo.

Olga Benário chegou ao Brasil em 35, vinda de Moscou, em companhia do próprio Luís Carlos Prestes e dos ativistas alemães, como ela, Artur Evert e Elise Evert, que adotaram os codinomes de Harry Berger e Elise Berger. Foram financiados por Stalin, como comprovam os documentos publicados por Waack, e participaram de uma tentativa de revolução. Esta começou e acabou nas areias da Praia Vermelha. Fracassou.

Um claro enigma: Stalin apoiou um brasileiro e três alemães. Não escalou nenhum russo. Não é possível que não existisse um ativista russo em Moscou.

Por que Hitler pediu a extradição de Olga e não do casal Evert, ambos barbaramente torturados no quartel da antiga Polícia Especial, no Morro de Santo Antonio, ao lado do convento, quartel já demolido há décadas. Porque, única explicação, Artur e Elise eram presos políticos no Brasil. Olga, além disso, era acusada de ter matado dois guardas num tribunal de Berlim e libertado seu marido Otto Braun. Hitler pediu a extradição, através de Goebbels, no fundo querendo que Vargas negasse. Mas não adiantou Getúlio ceder.

A partir de 42, submarinos nazistas afundaram covardemente vinte navios mercantes brasileiros. As tripulações eram heróicas. Não tinham sequer uma metralhadora a bordo, disse o general Cordeiro de Farias, ao discursar no último capítulo de sua vida, quando, em 81, assinou um convênio com a LBA, através do qual a entidade dava apoio a ex-combatentes necessitados.

Que Rigondeaux e Lara não estejam seguindo a trilha histórica de Olga Benário, por caminhos e motivos diferentes, mas igualmente perigosos, uma pergunta fica. Afinal, Fidel está ou não afastado do poder em Cuba?