OPINIÃO
Renan e o dia da caça
Zuenir Ventura


Parece até aquelas fábulas que terminam sempre com uma lição de moral do tipo "nada como um dia depois do outro". Além de não dispor mais de boiada para justificar suas transações suspeitas - a última foi a compra de duas rádios avaliadas em R$2,5 milhões -, Renan Calheiros teve que suportar essa semana a vingança epistolar de um ex-colega cujo mandato ele se empenhou em cassar. João Capiberibe escreveu-lhe uma carta relembrando o episódio em que foi caça e Renan o caç(ss)ador. Em outubro de 2005, depois de um polêmico processo com guerra de liminares, reformas de sentenças e divergências entre tribunais, o então senador João Capiberibe e sua mulher, a deputada Janete Capiberibe, perderam seus mandatos porque teriam comprado dois votos por R$26 cada. A denúncia foi feita pelo candidato derrotado Gilvan Borges, que identificou as duas eleitoras, que mais tarde confessaram ter recebido dinheiro para fazer a acusação. Correligionário de Renan, Borges ficou famoso por justificar assim a contratação de sua mulher e sua mãe para trabalharem com ele: "Uma dorme comigo e a outra me pariu" -, rigorosamente nessa ordem. Na época, o presidente do Senado destacou-se pela eficiência e rapidez com que abriu a vaga a ser preenchida por seu protegido.

Na Justiça, a batalha foi longa. Primeiro, o pedido de cassação feito pelo PMDB junto ao TRE e, em seguida, a declaração de inocência do casal. Depois, o recurso ao TSE, cujo relator, ministro Carlos Veloso, levou seus pares a reformar a sentença anterior. Finalmente, a sessão do dia 25 de outubro de 2005.

"Naquele dia", desabafa o ex-senador dirigindo-se a Renan, "você avocou para si os poderes da Mesa, do Regimento Interno, da Constituição Federal e do Plenário, fazendo ouvido de mercador aos apelos de cinqüenta e dois senadores e senadoras que se revezaram na tribuna clamando para que eu tivesse respeitado o direito constitucional de defesa, garantido até mesmo aos que cometem crimes hediondos com requintes de crueldade. Você se manteve inflexível e cassou o meu mandato para, em clima festivo e triunfante, dar posse ao seu então assessor de gabinete Gilvan Borges". Em menos de 24 horas, porém, o STF determinou a reintegração de Capiberibe. "Você acatou a decisão, mas pressionou a Mesa Diretora a criar um rito sumário de cinco dias para a minha defesa, prazo inexeqüível para uma mínima investigação." Capiberibe termina recordando que, ao contrário de seu desafeto, ele não teve direito de ser investigado nem pelo Conselho de Ética e nem pela Polícia Federal. "Você dispõe em abundância de tudo aquilo que me negou: os meios necessários para provar minha inocência."

Esse Milton Zuanazzi gosta não só de juntar poltronas de avião como letras exóticas. Ele tem mais "Z" no nome do que Ziraldo e eu juntos.