Conservador ou Progressista?

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

No primeiro domingo de agosto, festejamos o dia do padre. As nossas paróquias e comunidades agradecem a Deus pelos padres que têm, com os seus heroísmos e os seus defeitos. Também pedem pelas vocações sacerdotais. Em nossa Diocese teremos a ordenação presbiteral do diácono José Azevedo. Agradecemos ao Senhor também por isso.

Nesses momentos nos perguntamos sobre o sentido de ser padre hoje. No meio de tantas novidades, com tantas incertezas, vale a pena ainda entregar a própria vida a uma “instituição” tão velha como, muitas vezes, é entendida a Igreja Católica?

Quero lembrar aqui as palavras de Dom Vicente Zico, então arcebispo de Belém, no dia da minha sagração episcopal. Ele respondeu a uma pergunta que estava no ar, e que ninguém se atrevia a expressar: Este bispo é conservador ou progressista?

A pergunta e a resposta, como veremos, valem também para os padres, sobretudo devem servir aos seminaristas e, talvez, àqueles jovens que se sentem chamados a este serviço na Igreja, porém ainda duvidam e podem até acabar desistindo da vocação.

“Conservador” é uma palavra geralmente considerada negativa. Qual jovem se sentiria atraído por uma missão que, de entrada, já se define como conservadora? Mais fascinante e atrativa é a outra palavra: “progressista”. Aí, sim, talvez uma pessoa se empolgue entendendo a si mesmo como alguém que joga no lixo tudo o que cheira de passado, e inicia uma obra nova, absolutamente inédita. Todos gostamos de ouvir os outros falarem de nós como daquele que superou todas as expectativas, que não tem nem comparação com os outros que, antes, ocuparam o mesmo cargo. Como todos os elogios, esse também pode ser traiçoeiro, mais bajulação que verdade. Contudo, nós gostamos de nos achar inovadores, mentes abertas, etc.

Isso quer dizer que um bom padre só pode ser “progressista”? Ou ao contrário o padre não tão bom, ou ruim, seria, necessariamente, o padre “conservador”? Por isso a resposta que Dom Vicente deu foi, e continua sendo, brilhante, além de esclarecedora.

Na ocasião ele disse que o bispo devia ser conservador e progressista ao mesmo tempo. Não foi uma saída estratégica, foi, como explicou, a única resposta possível. Com efeito, o bispo e o padre, devem ser “conservadores” no sentido de resguardar com todo esforço o patrimônio da fé, a força do Evangelho, a novidade de Jesus Cristo. Como rezava o lema do Jubileu do ano 2000: Jesus Cristo ontem, hoje e sempre. Se alguém “criar” uma “fé” será a fé dele ou dela, não mais a fé da Igreja, que recebeu a missão de comunicar essa fé até os confins da terra. A unidade e a comunhão são condições indispensáveis para continuarmos a ser fiéis ao único Senhor Jesus Cristo.

Ao mesmo tempo, porém, é demais urgente sermos progressistas no sentido, não de mudar o conteúdo da fé, mas de atualizar constantemente a forma e o jeito de anunciá-la, comunicá-la e testemunhá-la. A própria fidelidade ao Evangelho exige isso, porque as formas de expressão, as situações e a consciência das pessoas mudam ao longo da história. A algo de novo que acontece a uma humanidade nova aparecendo, inclusive a cada geração, precisa oferecer o tesouro perene do amor de Deus com a humanidade, com uma linguagem nova, com uma forma capaz de atingir o mais profundo do coração do homem e da mulher daquele momento.

É verdade que, no fundo, esse coração humano e as perguntas da existência, são sempre as mesmas para todos, em todos os tempos, entretanto a maneira e o entusiasmo na resposta podem ser diferentes.

Talvez esse seja o maior desafio da vida do padre: nunca deixar de ser o primeiro a buscar, a querer entender, a trilhar novos caminhos. Isso é mais fácil na juventude, mais difícil na velhice, contudo nunca dá para ficar acomodados. A riqueza do clero são, portanto, os padres mais idosos e experientes, e ao mesmo tempo os mais novos, mais ousados e corajosos. É o ser “conservador e progressista” ao mesmo tempo. Todos unidos a serviço do povo de Deus, a caminho na história.

Precisamos de forças novas, sim, mas de mãos dadas com os que já abriram o caminho. Os mais velhos alegres pela coragem dos mais novos; os mais jovens alegres por ter a certeza de não correr em vão na estrada do Reino. Um caminho que tantos outros já percorreram sorrindo e cantando, também no meio das dificuldades. Sem nunca desistir.