TUDO A VER

João Silva

Não sei se estou desatualizado ou desaprendendo, quem sabe, o significado de ética e corrupção; é que, se não me engano, se não estou surdo, ouvi dizer no rádio tucuju que combate à corrupção é coisa do passado, que não serve para sustentar protesto dos estudantes que lutam por um transporte coletivo de qualidade na capital amapaense.

Ouvi e estou tomando a iniciativa de não deixar passar em branco porque milhares de jovens poderiam estar ouvindo o rádio naquela hora, e não quero que filhos dos leitores deste site de informação sejam induzidos a pensarem que corrupção não tem nada a ver, como dizem os adolescentes de hoje em dia.

A Transparência Internacional diz que a corrupção no Brasil assume contorno de uma tragédia no serviço público, entre outras razões, pelo excesso de burocracia, pela impunidade, falta de honestidade dos políticos, e comprometimento da justiça; e aponta como solução algumas medidas, como controle externo do poder judiciário, a educação do povo - principalmente dos jovens, e o trabalho da imprensa investigativa.

E ai eu vejo o rádio cometendo um pecado mortal quando alguém empunha o microfone para fazer um comentário dessa natureza, e se dirigindo à juventude do Amapá; logo o rádio que foi inventado para informar, educar, entreter, prestar serviços à sociedade...Vamos imaginar o que uma emissora de rádio pode fazer por nós, todos os dias, além de prestar ao cidadão a informação correta que ele precisa ouvir todas as manhãs antes de sair de casa.

Vamos imaginar também quantos hospitais, quantas vidas poderiam ter sido salvas, quantas estradas, quantas escolas construídas, quantas crianças poderiam ter sido retiradas das ruas e quantos milhares de brasileiros sairiam da escuridão do analfabetismo, se o Brasil recuperasse tudo que ladrões do povo mandaram para alguns paraísos fiscais.

A corrupção tem tudo a ver, sim, senhor; é um flagelo que coloca o Brasil entre os paises mais corruptos do mundo, dentre 133 pesquisados por instituições mais que creditadas aqui e no exterior. É um mal que devemos combater toda hora, todo dia, que precisa de doses homeopáticas de civismo, de compromisso, de honestidade por parte dos nossos governantes

Ninguém, de sã consciência, por mais graduado que seja, pode assegurar que a corrupção em nosso País é questão de genes, uma herança maldita que carregamos no sangue por força do caldeamento das raças influenciado fortemente pela presença de negros africanos (escravos) e portugueses desterrados, trazidos para o Brasil. Austrália foi Colônia Penal do Império Britânico no século XVII, mas nem por isso os australianos são corruptos.

Vale a pena lembrar crônica de Luis Fernando Veríssimo sobre o tema, disposto a fazer uma graça, ao propor a criação do Ministério da Corrupção; desencantado, defende a tese do sem jeito, achando que o tal Ministério pelo menos organizaria os corruptos pouco inventivos ao mandar pra fora tudo o que roubam no Brasil; e que durante a reunião de gabinete, participaria da reunião embaixo da mesa do Ministro, cuja nomeação daria uma briga danada, por excesso de pretendentes.

Claro que o Brasil, de uma hora pra outra, não pode virar a Finlândia ou Suécia, mas também não pode ser uma Itália e seus mafiosos antes da Operação “Mãos Limpas”; se a turma do rádio ajudar, os meios de comunicação capricharem, os tribunais mandarem os corruptos pra cadeia, se houver fiscalização, transparência administrativa e o povo cobrar honestidade dos governantes, a gente chega lá.

A crítica é pra ajudar e o comentário que a inspirou foi um erro que pode ter sido provocado pela rotina dos escândalos, pelo cansaço dos que trabalham no dia-a-dia da noticia nos meios de comunicação social, mas pode revelar, também, alguma interação do radialista com fatos da sua vida fora do rádio; uma dica é concentrar-se diante dos temas levantados - diria Jorge Basile, deixando questões pessoais de lado, e lembrar que isenção + verdade resulta em credibilidade, sem o que não haverá formação de opinião.