‘Grampo’ da PF comprova envolvimento de Ernane Sarney no escândalo Gautama
POR OSWALDO VIVIANI - JORNAL PEQUENO


No diálogo interceptado, o irmão de Sarney cobra do tesoureiro da Gautama propina prometida e não paga

Um “grampo” da Polícia Federal - realizado em março de 2007 com autorização judicial no decorrer das investigações da “Operação Navalha”, que desmontou em maio do mesmo ano um esquema de fraudes em licitações de obras públicas - flagrou uma conversa entre Ernane César Sarney Costa, o “Gaguinho” (irmão mais novo do senador José Sarney e secretário particular de Roseana Sarney), e Gil Jacó Carvalho Santos, diretor financeiro da Gautama, construtora de Zuleido Veras que operacionalizava o esquema fraudulento. Responsável pelo pagamento das “propinas” da Gautama, Gil Jacó foi um dos 61 denunciados em maio passado pelo Ministério Público Federal (MPF) no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

No diálogo interceptado pela PF, ao qual o Jornal Pequeno teve acesso, Ernane Sarney cobra de Gil Jacó, às vezes de forma agressiva, o pagamento de valores prometidos e não honrados. Num certo trecho, Ernane diz que está “com a corda no pescoço” e que “o pessoal aqui [no Maranhão] também tá com a corda no pescoço”, dando a entender que não era o único beneficiário do pagamento.
“Você disse que ia pagar, rapaz! Já tava tudo na mão, eu não sei o que tá acontecendo. Tão me enrolando”, irrita-se Ernane, em outro momento da conversa. Os maus bofes de Ernane com Gil Jacó pelo não pagamento prosseguem: “Tava na mão, tava na mão [o dinheiro]. Só conversa, rapaz. Eita, porra!”, explode o irmão de José Sarney, para depois exigir de Gil Jacó: “Rapaz, fala com ele. Bota isso em prioridade”. “Ele”, no caso, seria o “chefão” do esquema Gautama, Zuleido Veras.

Foto:REPRODUÇÃO

Ernane Sarney, sua mulher Shirley e anotação na agenda de Zuleido Veras: participação comprovada no ‘propinoduto’ da Gautama


Diferentemente de Gil Jacó Carvalho Santos e de Zuleido Veras - e apesar de seu nome aparecer pelo menos uma dezena de vezes na agenda do dono da Gautama - Ernane Sarney não foi incluído no rol de indiciados do Ministério Público Federal como resultado da “Operação Navalha”.

Nem mesmo uma declaração de Zuleido Veras - gravada pela PF em 11 de julho de 2006 -, em que ele afirma que não teria dinheiro para cumprir seus compromissos porque teria “gasto tudo” com Ernane Sarney, fez com que o MPF indiciasse Ernane. Roseana Sarney, freqüentadora igualmente assídua da agenda de Zuleido (sempre ao lado de quantias vultosas), tampouco foi indiciada.

Gautama depositou dinheiro na conta da mulher e do filho de Ernane Sarney

Em junho passado, o JP revelou que, durante as investigações da “Operação Navalha”, a Polícia Federal apreendeu na Gautama comprovantes de depósitos feitos pela construtora na conta da mulher de Ernane Sarney, Shirley Duarte Pinto de Araújo (assessora do Senado lotada no gabinete de Roseana Sarney), e do filho de Ernane, Ricardo Sarney. Pelo que se concluiu das investigações da Polícia Federal - presididas pela delegada Andréa Tsuruta -, Ernane Sarney seria o real beneficiário do dinheiro.

Nos depósitos realizados em favor de Shirley, verifica-se a intenção de fugir da fiscalização dos órgãos de combate a ilícitos financeiros, usando-se o artifício do depósito “partido”, preocupando-se a Gautama em não atingir o valor de R$ 10 mil em cada operação. Num depósito, feito às 15h20 do dia 7 de abril de 2006, o valor é de R$ 9.950. No mesmo dia, cinco minutos depois (15h25), foi realizado um depósito de R$ 50. No auto da apreensão feita pela PF, durante a Operação Navalha, encontra-se uma seção denominada “Bahia I”. É lá que é relatada a existência de comprovantes de pagamentos para Ricardo Sarney, na conta nº 6356-3 da agência nº 1577.


Comprovantes de depósito, de R$ 9.950,00 e R$ 50,00, feitos pela Gautama (segundo a PF) na conta de Shirley Duarte Pinto de Araújo (mulher de Ernane Sarney), assessora de Roseana Sarney.


Os depósitos comprometedores da Gautama na conta de Shirley Araújo e de Ricardo Sarney e os diálogos “grampeados” entre Ernane Sarney e Gil Jacó - agora divulgados pelo JP - vêm somar-se a outros indícios robustos de envolvimento de integrantes do clã Sarney com as fraudes da Gautama, revelados pela revista Veja em junho de 2008.

De acordo com reportagem, uma agenda de Zuleido Veras apreendida pela Polícia Federal na “Operação Navalha”, em maio de 2007, contém a anotação do nome de Roseana Sarney ao lado da quantia de R$ 200 mil. O registro foi feito no dia 16 de agosto de 2006, dois meses antes da eleição para o governo do Maranhão, na qual Roseana (ainda no PFL, atual DEM) foi derrotada pelo pedetista Jackson Lago. A revista também revela um apontamento na agenda de Zuleido, em 14 de julho de 2006, do valor de R$ 1 milhão, destinado à campanha política do Maranhão. Ouvida pela revista Veja, a senadora afirmou não ter recebido nenhuma ajuda de Zuleido Veras para sua campanha. “Ao contrário, ele ajudou muito meu adversário na campanha”, disse.

Na mesma agenda, Roseana aparece em várias outras anotações, uma delas datada de 14 de abril, ao lado de uma cifra de R$ 63 milhões. Roseana Sarney também consta da relação dos que ganharam vários “presentinhos” da Gautama.