Somos todos catequistas

Dom Pedro José Conti
Bispo de Macapá

Sempre me dá alegria encontrar um casal jovem brincando com uma criança recém-nascida. Se paramos para nos cumprimentar, por simpatia, costumo perguntar se é menino ou menina, quando nasceu, qual seu nome, se já foi batizada ou quando o será. Recebo todas as respostas com sorrisos e detalhes, menos na última questão. Nessa, os dois se olham e titubeiam. Ainda estão pensando. Alguns respondem, mais ou menos convencidos, que não será batizada agora: quando crescer, ela decidirá.

Fico triste. Não porque esteja preocupado em marcar a data do batizado, mas porque percebo que não interessa, aos pais, quase nada do batismo. Tenho a impressão de que os dois estejam numa perigosa ilusão.

Imaginam que a sua criança possa crescer humanamente saudável, numa redoma isolada e asséptica, sem enxergar e, sobretudo, sem entender nada do que está acontecendo ao seu redor.

Na realidade, pensam e dizem o contrário: eles estão querendo educá-la de forma crítica e objetiva, para que um dia possa tomar uma das mais importantes decisões da sua vida; supostamente de forma livre e responsável. Pode parecer um objetivo louvável, em si, mas estou convencido de que seja pura ilusão, porque é insustentável.

Esquecem que, o quanto antes, aqueles dois olhinhos, tão vivos, estarão grudados neles e não escapará nada àquela inteligência em formação. Digo isso pela simples razão de que eles, pai e mãe - sem contar as outras pessoas que a criança irá encontrar e com as quais irá conviver - não poderão ser tão indiferentes à vida, a ponto de não fazer, afinal, nenhuma escolha.

Faço exemplos banais para ser bem entendido. Se o pai vestir a camisa do Flamengo, provavelmente o filho será flamenguista, ou, por reação e pirraça, vascaíno. Se a filha descobrir que a mãe passa duas horas por semana no salão, irá organizar a sua vida para que ela também tenha tempo para isso.

Não dá para os pais esconderem os seus gostos, as suas manias, as suas diferenças também. Se discutirem política, os filhos saberão para quem o pai e a mãe votam. Se brigarem por causa de dinheiro, os filhos saberão o quanto foi difícil ganhá-lo e quanto foi fácil gastá-lo. Se o pobre bate à porta e os pais mandam a criança dizer que não tem nada e que o tal, vagabundo, deveria trabalhar antes de pedir, com certeza ela aprenderá de cor a lição. Se a criança vir o pai ou a mãe cambalear bêbedos pela casa pensará que deve ser muito gostoso. Se encontrar uma revista pornográfica, tão bem escondida - crianças, se sabe, mexem em tudo - ficará curiosa e mais alguma coisa. Também se vir os seus pais rezarem ou irem à Missa saberá que Deus tem um lugar na vida deles.

Não são as telecâmeras ocultas que estão invadindo a nossa privacidade; são as crianças e os adolescentes que estão gravando e revisando tudo nas suas férteis cabecinhas. Sempre foi assim. O antigo "faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço" até que idade dos filhos ainda pega?

Querendo ou não, somos todos educadores e catequistas de nós mesmos e dos outros. No bem e no mal. No bom e no mau exemplo. Não seria melhor viver bem o que somos, com as nossas qualidades e os nossos defeitos, com a nossa fé, tradicional ou não, sincera, sem fingimentos? Um dia os filhos terão as suas personalidades e se lembrarão de não terem sido enganados.