Um basta aos corruptos

Ronaldo Brasiliense

As eleições se aproximam e o eleitor observa estupefato que, entre as opções de voto em outubro, poderá escolher entre um mensaleiro aqui, um sanguessuga ali ou mesmo votar num corrupto de carteirinha acolá. É isso mesmo. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), acionado pelo deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) sobre a possibilidade de não dar posse a parlamentares eleitos que comprovadamente estejam envolvidos em atos de corrupção, empurrou o caso com a barriga e dificilmente decidirá por não empossar corruptos após as eleições.

Como a Justiça eleitoral se omite, restaria aos partidos políticos negar legenda para que os deputados e senadores sanguessugas, por exemplo, não pudessem concorrer às eleições de outubro. Mas quem acredita nesses partidos políticos que aí estão? São todos farinha do mesmo saco!

Submeter os nomes desses malfeitores ao eleitor é escárnio com o povo brasileiro, cansado de tanta corrupção e desencantado com os políticos justamente por causa da proliferação de ladrões no Parlamento. O que se vê é um espetáculo de empulhação, em que o Tribunal de Contas da União (TCU) anuncia em todo ano de eleição que milhares de ex-governadores, ex-prefeitos, ex-vereadores e ex-dirigentes de órgãos públicos, acusados de malversação do dinheiro público e de improbidade administrativa, entre outras coisas, estariam inelegíveis. E a mídia registra com destaque.

Enganação pura. Amparados em mandados de segurança, os que ainda não foram condenados com sentença transitada em julgado continuam candidatos e ponto final. A maioria disputa a eleição. Muitos desses corruptos conseguem se eleger e acabam sendo beneficiados pelo foro privilegiado no Supremo Tribunal Federal (STF), onde nunca são julgados.

No caso da CPI dos Sanguessugas, o relatório da comissão deve isentar de culpa 14 dos 90 parlamentares investigados por suspeitas de envolvimento em desvios de recursos da saúde e responsabilizar 76 parlamentares, a maioria dos quais concorre nas eleições de outubro. Sem condenação transitada em julgado, todos poderão concorrer e, infelizmente, muitos deles serão reeleitos.

Resta ao eleitor repudiar nas urnas esses sanguessugas, mas isso é um sonho. Muitos desses pilantras voltarão ao Parlamento graças ao dinheiro sujo que arrecadaram roubando, traficando influência, negociando emendas e que usarão para comprar voto, principalmente nos grotões da pobreza e do analfabetismo, aonde não chegam nem as notícias que William Bonner e Fátima Bernandes lêem diariamente no Jornal Nacional, da TV Globo, o de maior audiência no país.

Para ter uma idéia da impunidade reinante, vejam o que diz o ex-governador de Alagoas Ronaldo Lessa (PDT), candidato ao Senado, que o TSE tornou inelegível por três anos, por seis votos a zero: "A candidatura se mantém porque ainda há algumas medidas a serem tomadas, junto ao próprio TSE, para reverter esse quadro".

O advogado de Lessa, Adriano Soares, vai mais longe: "Enquanto o processo de inelegibilidade não for transitado em julgado, ele (Lessa) permanece candidato. E, se for eleito, será diplomado e exercerá o mandato, independentemente de qualquer decisão judicial desse processo".

Que país é este?!

(Artigo publicado no site Congresso em Foco dois anos atrás)