E o mensalão continua sem provas

(Mino Carta) - no blogue:blogdomino.blig.ig.com.br


Liga Jean-Paul Lagarride, de Paris. Logo vai ao ponto como abutre para a carniça. “Você é um intelectual chapa branca?” “Certamente não”, respondo, “na melhor das hipóteses sou intelectual orgânico, como diria Gramsci”. “Sei não”, comenta Jean-Paul, “acho pelo menos que nosso colega Clóvis Rossi assim o considera, intelectual chapa branca”. “Estranho”, digo eu, “Clóvis Rossi trabalhou comigo e sabe perfeitamente que chapa branca não sou e nunca fui”. Segue-se o seguinte diálogo:

Jean-Paul: “Está bem, mas li na coluna dele na Folha, onde aponta os réus que faltaram no Supremo, como em Nurembergue, entre eles a intectualidade chapa branca, criminosos por corromper os fatos ao tentar transformar os réus em vítimas de uma conspiração da mídia”.

Eu: “Pois é, corromper os fatos não é minha especialidade. De resto, no que diz respeito aos homens do governo e do PT envolvidos, com exclusão de Gushiken, probo apparatschik que executou as ordens, sempre os enxerguei como imitadores pontuais de tantos antecessores de outros governos no uso desbragado, e criminoso, do Caixa 2. O mensalão, contudo, não foi provado durante a campanha anti-Lula, precipitada com o propósito de melar a reeleição, e resta ainda prová-lo”.

“Perdão, perdão, a quadrilha já está condenada”.

“Como assim?”

“Eu leio as manchetes dos jornais brasileiros. Parece-me, e digo isso friamente, que a questão está liquidada, ninguém ali escapa da justa punição”.

“Pode ser que a punição venha, e em muitos casos será justíssima. E nem se fale de certa figuras altamente representativas, a começar por Marcos Valério e Roberto Jefferson. Ainda assim, insisto: o uso do Caixa 2 é incriminação suficiente, e a punição será exemplar, mesmo que o mensalão não venha a ser provado, como até hoje acredito. De todo modo, por ora, in dubio pro reo. Agora é que o processo começa, e não se exclui que dure até cinco anos, quando algumas acusações cairão por prescritas”.

“Perfeito o seu latim”.

“O latim confere grande prestígio a quem o emprega em ocasiões solenes. Mas a regra, inapelável, não é do agrado dos donos do poder nativo, dos patrões da mídia e dos seus sabujos. Por aqui, aplica-se outro princípio: aos amigos tudo, aos inimigos a lei. O chute do cadáver é o esporte preferido e, de mais a mais, bom cabrito não berra. Coisas da dita elite brasileira”.

“Escuta o clamor, desce do cavalo de Orlando: o STF satisfez as expectativas da sociedade”.

“Qual sociedade? Vejo o Brasil cada vez mais dividido, a partir do desequilíbrio social monstruoso. De um lado temos os privilegiados e os aspirantes ao privilégio, a minoria, que se delicia com as manchetes de hoje. Do outro, a maioria, a padecer. A minoria reputa-a cordial, ou seja, resignada, submissa, rude e ignara. Se é não sei. Entendo que alguma mudança houve. A despeito da história do mensalão, condimentada por todos os molhos por cerca de dois anos, Lula foi reeleito. No meio dos dois Brasis cava-se um abismo, no qual medram a violência, a criminalidade, a ignorância, a doença”.

“Neste momento, você e poucos mais são vozes discordantes. Por isso Clóvis Rossi fala em intelectuais chapa branca”.

“Certamente não se refere à minha modesta pessoa, embora eu tenha participado de um programa de Heródoto Barbeiro, na TV Cultura, juntamente com ele. Já naquela ocasião, anterior a reeleição, eu disse acreditar no uso de Caixa 2, embora não deixasse de sublinhar que o mensalão não tinha sido provado. Se não me engano, o colega Clóvis pensava o contrário. Quanto à chapa banca, acabo de fundar o movimento Cansei de tantas besteiras, aleivosias e calúnias”.

“Agora você ficou bravo”.

“De jeito algum, porque mesmo as calúnias não deixam de expressar a crise mental daquela sociedade cujas expectativas foram satisfeitas pelo STF. Conheço Lula há cerca de 30 anos, e desde o primeiro dia percebi nele as qualidades que o levariam de presidente do sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema a presidente da República. Modestamente, acho que tive bom faro. Também fui o primeiro jornalista brasileiro que escreveu uma matéria de capa sobre o metalúrgico nordestino, em parceria com Bernardo Lerer, e a publiquei em uma edição de fevereiro de 1978 em Istoé, que então dirigia. Um amigo, por quem tinha muito afeto, faz três anos brigou comigo, irreparavelmente até hoje, depois de me acusar de ter criado o Lula. Ora, ora, imagine se Lula precisou de mim...”

“Mas você gosta muito dele”.

“Gosto dele como amigo, e apostei nele e no PT, porque sempre supôs que o Brasil, para crescer, como tantos outros países capacitados a ganhar contemporaneidade do mundo, precisaria de um partido de esquerda não somente capaz de aposentar os dogmas do chamado marxismo-leninismo, mas também de pressionar eficazmente os donos do poder nativo, óbvios responsáveis pela impossibilidade de se alcançar um futuro digno para um país tão favorecido pela natureza. Lembro que em 1994, participei de um programa de entrevistas de Alexandre Machado em que Lula, candidato na segunda, e frustrada, eleição à presidência, era o entrevistado. Saímos depois para jantar em uma cantina dos Jardins. Estavam conosco José Dirceu e Aloísio Mercadante. Lá pelas tantas, entre uma garfada e outra, sugeri que ele abaixasse suavemente o tom revolucionário, que adotara durante a entrevista, a bem de um discurso mais persuasivo aos ouvidos da dita classe média. Tive a impressão de que não tinha agradado. Talvez. É certo, porém, que por um tempo mantivemos certa distância. Ou melhor, ele a manteve em relação a mim. A paz foi restabelecida em um jantar, na casa de um amigo comum, em dezembro de 2001”.

“Mas a sua revista apoiou a candidatura dele tanto em 2002, quanto em 2006”.

“Você me ensina que definir-se a favor de um candidato é comum em países democráticos, só no Brasil, que eu saiba, a hipocrisia da mídia bate recordes mundiais e finge imparcialidade diuturnamente desmentida por seus comportamentos. CartaCapital apoiou Lula porque viu nele um candidato melhor do que os demais na liça. Nem por isso deixamos de ser críticos do governo, muito e cada vez mais. Recordo que em fevereiro de 2003, pouco mais de um mês depois da posse, Maurício Dias e eu fomos visitar Raymundo Faoro no hospital, muito doente. Morreria daí a dois meses. Faoro também apostava em Lula, eram amigos desde a greve de 1980. Lula chegou a convidá-lo, sem sucesso, para candidato a vice em 1989. Pois Faoro, no hospital, já estava decepcionado”.

“E você?”

“Levei mais tempo, mas estou, e pelas razões opostas àquelas que teriam de agradar aos senhores e seus aspirantes. As minhas estão expostas em blogs e editoriais, e minha fala está apinhada por elas. Que fazer? Difícil, infinitamente difícil, é praticar o jornalismo honesto neste nosso País infeliz. Aliás, pouquíssimos disseram que o mensalão carecia de prova”.

“E agora?”

“Ainda não foi provado. Esta é a verdade factual. Diga-se que , ao ler o título da coluna de Clóvis Rossi, pensei: eis aí, ele se refere a Daniel Dantas”.