Waldez Góes é campeão do nepotismo

TETAS FARTAS

Os 69 familiares do governador, juntos, ganham mais de R$ 2 milhões/ano

MACAPÁ (AP)
Ronaldo Brasiliense

Há quatro anos e oito meses no poder num dos menores Estados da Federação, o Amapá, o governador Waldez Góes (PDT) é hoje, disparado, o campeão nacional do nepotismo. Juntinhos a Waldez, no poder, estão a mulher, Marília, primos, tios, sobrinhos, cunhados e até a sogra. No total, são 69 familiares do governador e da primeira-dama recebendo dos cofres do Estado salários que variam de R$ 350,00 a R$ 6.900,00.

Os mais de 60 Góes, somados, ganham mais de R$ 150 mil por mês ou mais de R$ 2 milhões anuais dos minguados cofres do tesouro amapaense se somarmos os ganhos referentes a férias e 13º salário.

Marília Góes, a esposa do governador Waldez, foi nomeada pelo maridão para comandar a poderosa Secretária de Estado de Inclusão e Mobilização Social. Num Estado onde quase toda a mídia é mantida sob controle, Marília manda e desmanda.

Outro manda-chuva no governo Waldez Góes é o primo, Alberto Pereira Góes, que dirigia o Gabinete Civil no início do primeiro mandato, mas com o passar do tempo virou Secretário Especial de Governadoria, Coordenação Política e Institucional do Estado e, ainda, a Secretaria Especial de Desenvolvimento Econômico, como exibe o próprio site do governo amapaense - www.ap.gov.br.

Outro fenômeno do governo Waldez Góes chama-se Jorge Luiz Ricca Grunho, o Joca: saiu de motorista da campanha eleitoral para o comando da Secretaria de Desenvolvimento da Infra-Estrutura. Casado com Luzia Grunho, tia da mulher do governador, Jorge Luiz teve sob sua subordinação as Secretarias de Infra-estrutura (Seinf) de Transportes (Setrap), além de poderosas estatais como a Centrais Elétricas do Amapá (CEA), a Companhia de Água e Esgoto (Caesa), além da Companhia de Gás, do Detran e a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Amapá. Teve que sair do governo, mas mantém seu poder.

A lista dos parentes do governador Waldez Góes e de sua mulher, Marília (veja nesta página) foi checada nas sucessivas edições do Diário Oficial do Estado do Amapá. A pesquisa no Diário Oficial confirma: não só o contingente de parentes do governador é numeroso e variado: se espalha, como um câncer, por quase todos os setores do governo amapaense.

As primeiras denúncias de nepotismo no governo Waldez Góes, por incrível que pareça, partiram de ex-aliados do governador amapaense. Em discurso na Assembléia Legislativa, o deputado Dalto Martins (PMDB) chegou a denunciar que a família de Waldez comandaria 80% dos órgãos do governo do Amapá. Dalto Martins, que fazia parte da base de sustentação do governo, chegou a ter o irmão Rostan Martins nomeado diretor da Imprensa Oficial do Estado e agiu para que o governo de Waldez fechasse um contrato de R$ 700 mil com a Sociedade Amapaense de Oftalmologia - onde a mulher de Dalto é vice-presidente - teve também um imóvel de sua família alugado para a administração estadual, onde funcionou a sede da Promotoria de Defesa do Consumidor (Procon).

Ironia do destino, um dos maiores aliados do governador Waldez Góes é o folclórico senador Gilvan Borges (PMDB) - aquele que anda de sandália de couro no plenário da Câmara Alta - que ganhou fama nacional como defensor-mor do nepotismo ao justificar porque empregava a mãe e a mulher em seu gabinete no Senado. 'Minha mãe me pariu e minha mulher dorme comigo', disparou, na maior cara-de-pau.

Até os alimentos para abastecer a residência oficial do governo do Estado são fornecidos por parentes, no caso pela empresa Prova ide Systems Ltda, de propriedade de um filho de criação da sogra do governador Waldez Góes, contratada com dispensa de licitação. Na lista de produtos adquiridos destaca-se o peixe tamuatá, considerado de terceira categoria, comprado a R$ 3,00 o quilo em qualquer feira de Macapá, mas vendido para a residência governamental por R$ 6,90, superfaturado, portanto.

As nomeações dos parentes do governador Waldez e da primeira-dama Marilia Góes podem ser cotejadas por qualquer pessoa no Diário Oficial do Amapá. Já a lista de compras para a residência oficial pode ser checada no site www.amapa.gov.br/gastos/consulta.php.

No Amapá de Waldez Góes é assim: o nepotismo e a corrupção ocorrem dentro da mais absoluta transparência.

TODOS OS GÓES NO GOVERNO

1- Aldicleia Lira Goes

2- Antonio da Costa Goes

3- Antonio Goes Parente

4- Antonio Waldez Goes da Silva

5- Benedita Elielza Goes de Oliveira

6- Benedita Goes da Costa

7- Brenda Kawanna Vale Goes

8- Carlos Alberto Ferreira Goes

9- Carmem Fabiola Pimentel Goes

10- Cleuma da Silva Braga Goes

11- Deyvide Goes Conrradondade

12- Edvan Farias Goes

13- Elck Sampaio Braga da Rosa Goes

14- Elenilze Goes Juarez

15- Elicia Baia de Goes

16- Fabio Silva Goes

17- Helia de Goes de Pinho

18- Helionney Goes De Castro

19- Helisia Costa Goes

20- Jose Ari Sigueira Goes

21- Jose Ribamar Goes da Silva

22- Jose Sidou Goes Miccione

23- Laercio Mendonca Goes

24- Leilane de Sousa Goes

25- Lindomar Goes Ferreira

26- Luiz da Conceicao Pereira Goes da Costa

27- Luzete Goes Ferreira

28- Luzia Alba Lima Goes

29- Maria Francisca Goes

30- Maria Goreti Goes da Rocha

31- Maria Neuci Goes de Lima

32- Marilia Brito Xavier Goes

34- Nelbilene Goes da Silva

35 - Pequilo Pereira Goes

36 - Rita Edilena da Silva Goes

37- Rosangela Mendonca Goes

38- Sandro Goes Pinheiro

39- Valeria de Paula Goes da Trindade

40- Wellington de Souza Goes

41- Wilmar Celso Goes da Trindade

42- Adilberto de Souza Goes

43- Antonio Aristides Pereira Goes

44- Aristide Goes Miccione

45- Francisca das Chagas de Goes da Silva

46- Helionney Goes de Castro

47- Heliton Gomes Goes

48- Humberto de Goes Pereira Junior

49- Jeanjorge Pereira Goes

50- Keila Goes da Costa

51- Marizete Goes de Magalhaes Dos Santos

52- Alberto Pereira Goes

53- Antonio Roberto de Souza Goes

54- Bruna Raphaela Goes Costa

55- Claudio Celio Goes Conrado

56- Elck Sampaio Braga da R. Goes

57- Elza dos Santos Goes

58- Evandro Sarges Goes

59- Gracinete Ferreira Goes

60- Igor do Rego Goes

61- Joao Goes da Silva

62- Karla Marfizia Goes da Costa

63- Katia Goes Ferreira

64- Maria Delia de Souza Goes

65- Maria do Socorro Sandin Goes

66- Silvia de Nazare dos Santos Goes

67- Adriano Brito Goes

68- Bento Goes de Almeida

69 - Luiza Brito Grunho

33- Milton da Silva Goes

Primo do Góes é o campeão de diárias e outro denuncia as maracutaias

Um primo do governador Waldez Góes (PDT-AP) é o campeão no recebimento de diárias em um único exercício no governo do Amapá. Chama-se Luiz da Conceição Pereira Góes, e é - pasmem - delegado de polícia. Em um único ano chegou a receber R$ 88.202,80 em diárias. Ocupa o cargo de secretário-chefe da Casa Civil do governo do primo Waldez. Em 2005, Luiz Góes passou o ano fazendo o curso de general-civil na Escola Superior de Guerra (ESG).

A revelação de que Luiz Góes recebeu R$ 88,2 mil está no site www.transparencia.amapá.net, no Portal da Transparência, onde é possível consultar aos gastos públicos do governo do Amapá. Os gastos com diárias para civis e militares nos três primeiros anos do governo Waldez, em seu primeiro mandato, chegaram a mais de R$ 18 milhões. Para os servidores civis foram mais R$ 15.714.280,05, enquanto para os militares o dispêndio foi de R$ 2.484.089,10.

DENÚNCIAS

Denúncias de irregularidades nos contratos de aluguel de caminhões dentro da Secretaria de Estado da Agricultura, Pesca, Floresta e Abastecimento (Seaf) chegaram ao Ministério Público do Estado (MPE) feitas por ninguém menos que o empresário Jorge Rocha Góes, outro primo do governador Waldez Góes (PDT).

Acompanhado do advogado Washington Picanço, Jorge Góes entregou ao promotor do Meio Ambiente e Patrimônio Público, Adauto Barbosa, uma representação criminal denunciando maracutaias que foram cometidas pelo governo Waldez Góes por meio do aluguel dos veículos.

Jorge Góes levou ao MPE farta documentação comprovando a gravidade das denúncias feitas por ele. De acordo com a denúncia, o governo do Amapá contratou 63 caminhões de duas cooperativas, mas somente 34 efetivamente prestaram serviços ao governo. Jorge Góes afirma ainda que parentes diretos do governador ganharam sem prestar serviço e que estaria havendo um desconto de R$ 2,5 mil no pagamento dos poucos caminhoneiros que realmente trabalham. (R.B.)

DECLARAÇÃO FANTASIOSA

Bens declarados de Waldez Góes surpreendem

A declaração de bens e rendimentos do governador do Amapá, Waldez Góes, à justiça eleitoral amapaense surpreende. Ao Tribunal Regional Eleitoral do Amapá, nas eleições de 2006, Góes declarou uma relação de bens que, juntos, totalizavam pífios R$ 13 mil. A relação inclui uma residência localizada no bairro Buritizal, que parece não condizer com o valor declarado.

Na declaração ao TRE, o imóvel de Waldez Góes aparece no valor de R$ 3.172,45, metade do valor de um automóvel Saveiro, ano 1996, no valor de R$ 6,4 mil, que também integra a lista de bens do governador amapaense.

Além da casa e do carro fazem parte da relação de Waldez uma linha de telefone celular no valor R$ 353, um terreno urbano no valor de R$ 1,6 mil, além de duas linhas telefônicas convencionais de R$ 1,9 mil. Waldez Góes é funcionário público.

Waldez foi assessor do ex-senador e atual deputado federal Sebastião - Bala - Rocha (PDT), preso e algemado na Operação Pororoca, da Polícia Federal. Foi, também, assessor do ex-governador do Rio de Janeiro, Antony Garotinho (PDT). (R.B.)

A ORIGEM DE TUDO

Papas criaram nepotismo ajudando sobrinhos

O nepotismo vem de longe. Através da lexicografia descobre-se que a origem etimológica da palavra deriva de nepos, que significa neto, descendente ou sobrinho (Dicionário Latino - Editora Globo), aglutinando-se como nepotismo (nepote + ismo), que se traduz na 'atitude de alguns papas que concediam favores particulares a seus sobrinhos...' (Koogan/Houaiss - Enciclopédia).

Tudo teria começado com o papa Alfonso de Borja (em italiano, Borgia), que recebeu o cognome de Calixto III, e exerceu o pontificado em Roma durante três anos, beneficiando seu sobrinho Rodrigo Lançol y Borgia, que, também como seu tio, assumiu o papado, tendo exercido seu poder na Igreja Católica de 11 de agosto de 1492 até 18 de agosto de 1503, sob o título de Alexandre VI, durante onze anos e oito dias.

Rodrigo de Borja teve várias amantes e filhos. Com Vanezza Catanei teve quatro, entre os quais César Borgia (a quem Maquiavel homenageia em O Príncipe), ao qual nomeou cardeal em 1493. Um ano depois de assumir o pontificado tomou uma nova amante, Júlia Farnesio, com quem teve mais filhos. Assim, com um grande número de filhos, atribuiu-lhes vários territórios da Igreja.

Seu nepotismo chegou ao paradoxismo quando, mediante bula fechada em 1º de setembro de 1501, concedeu a seu neto com somente dois anos, filho de Lucrécia, o Ducado de Sermaneta, onde se situa a cidade de Albano. Esta é a história de dissolução e corrupção que jaz indelével no conteúdo conceitual que denota a palavra nepotismo. (R.B -- O Liberal.)