O Globo: Retratos do Brasil/POF - 03
O Globo - 30/08/2007

Religião influencia os gastos das famílias brasileiras

Evangélicos pagam mais dízimos que espíritas, embora ganhem menos

Doações superam, em alguns casos, impostos e despesas com plano de saúde

Fabiana Ribeiro

As despesas dos brasileiros também são influenciadas pela fé, segundo o IBGE. Famílias chefiadas por espíritas - 2% do total - têm um gasto médio de R$3.617,28 por mês, o que é 177,9% maior que o valor mensal dos que têm à frente evangélicos pentecostais (R$1.301,35). Os evangélicos são os que mais pagam pensões, mesadas e doações - que incluem dízimos e doações às igrejas. Os gastos desses fiéis chegam a ser 38,9% superiores à contribuição dos espíritas.

- No grupo de evangélicos, há os mais estruturados e que são voltados para comunidades mais pobres, com menor escolaridade. E elas são mais enfáticas ao pedir dízimo e têm sistema de doação mais definido. Com isso, a doação mexe com o consumo:
esse evangélico deixa de comprar televisão e ir, por exemplo, ao cinema - disse Edilson Nascimento, gerente da POF.

Igreja ocupa o papel do Estado com assistencialismo

As famílias dos evangélicos pentecostais - como os adeptos da Assembléia de Deus, da Universal do Reino de Deus e da Igreja Nova Vida - reservam, em média, R$22,79 para dízimos e doações. Isso está acima do que é destinado a recreação e cultura (R$21,09) e plano de saúde (R$11,66). Já as famílias de evangélicos de missão, como os batistas, metodistas e adventistas - gastam R$57,87 com doações - mais do que o valor destinado à compra de remédios (R$55,54) e ao item higiene e cuidados pessoais (R$36,52). No grupo outras religiões, os gastos com impostos (R$49,07) perdem para as doações (R$59,16).

- As pessoas apostam na fé. Para muitos, é como se a doação à Igreja fosse um investimento indireto na saúde - explicou Flávio Conrado, antropólogo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), lembrando que, além do dízimos, os fiéis contribuem para obras missionárias e projetos sociais da igreja.

Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas (FGV), acrescenta que, via assistencialismo, há religiões que ocupam o papel do Estado, reduzindo problemas de saúde e trabalho. Hoje, segundo ele, os dízimos somam, por ano, R$3,7 bilhões. E a doação média por pessoa é de
R$16,62.

- É a ausência do Estado. O que leva muita gente a atrasar prestações de compras e pagamentos de contas, como luz e gás, para poder contribuir para sua igreja - disse Neri.

O pastor Adilson Neves lembra que, apesar da não obrigatoriedade do dízimo, 80% dos fiéis da Primeira Igreja Batista de Marco Sete são dizimistas. Por isso, não se espanta de ele - e muitos outros membros da igreja - contribuir financeiramente mais para a igreja do que para o Estado, com impostos. Outros gastos também tendem a ser menores, explica ele:

- É natural que os gastos com lazer, por exemplo, sejam menores do que as doações.
Afinal, não bebemos, não fumamos, o que já reduz os gastos. Além disso, a igreja também tem muitos cursos de formação. E ainda somos uma comunidade, o que faz com que o lazer passe por aqui - disse o pastor, lembrando que a igreja tem plano funeral e, no momento, negocia plano de saúde para os fiéis.

Conrado, do Iser, lembra que espíritas têm os maiores rendimentos. Segundo o IBGE, essas famílias ganham, em média, R$3.796 - quase três vezes o rendimento mensal das famílias que têm à frente evangélicos pentecostais (R$1.271).

- A religião espírita exige uma maior escolaridade de seus seguidores até para poder entender a linguagem usada.

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