Congresso está "em processo de depuração"
O Parlamento do país é hoje melhor do que foi no passado, diz Fernando Rodrigues, um dos jornalistas políticos mais lidos no Brasil

Eduardo Militão e Sylvio Costa

Durante o governo Fernando Henrique, ele foi o autor das duas reportagens que, provavelmente, produziram maior abalo na tucanocracia à época reinante. Uma, provando a compra de votos para aprovar a emenda que permitiu ao então presidente se candidatar à reeleição, em 1998. A outra, revelando - por meio dos famosos grampos do BNDES - que FHC teve, no processo de privatização, uma atuação pessoal no mínimo discutível sob o aspecto ético.
No governo Lula, tornou-se ponto de mira de muitos petistas e lulistas, que vêem nele (e em tantos mais) a encarnação de um comportamento hostil da grande imprensa em relação ao atual presidente e ao PT.


O seu blog http://uolpolitica.blog.uol.com.br/ e as colunas e reportagens publicadas na Folha de S. Paulo garantem hoje a Fernando Rodrigues, 44 anos e 20 no jornal, a condição de um dos jornalistas políticos mais lidos no país. Mestre em Jornalismo pela City University (Londres) e quatro prêmios Esso no currículo, está também entre os mais empenhados em ajudar a população a conhecer melhor os representantes que elege. Frutos desse esforço são o livro Políticos do Brasil (Publifolha, 2006) e o site www.politicosdobrasil.com.br, que reúne os dados informados pelos candidatos a cargos eletivos no país à Justiça eleitoral.

Habituado a acompanhar os políticos de perto, em Brasília, Fernando Rodrigues ficará longe deles nos próximos 12 meses. Tirou licença para estudar na Universidade de Harvard, num programa patrocinado por uma fundação privada norte-americana (Fundação Nieman). Antes de embarcar, concordou em conversar com o Congresso em Foco sobre essas coisas que tanto nos mobilizam e inquietam: Congresso, governos, imprensa...

Alvos freqüentes de seus questionamentos, Fernando Henrique e Lula foram brindados com um reconhecimento. Os dois deram, para o jornalista, uma contribuição fundamental à consolidação da democracia no país. Na contramão do senso comum, também reservou palavras suaves para o sempre criticado Parlamento nacional. Na sua opinião, o Congresso tem melhorado a cada legislatura. "Estamos num processo de depuração do Congresso", acredita.

Esboçou ainda uma autocrítica ao analisar o governo Lula e seus desacertos: "Eu acho que havia um despreparo de todos nós, do Brasil inteiro. Somos despreparados para muita coisa. Porque nós chegamos tarde ao baile da democracia". Causa-lhe irritação, contudo, a crítica genérica de golpismo e manipulação desferida por alguns petistas contra a grande mídia: "São uns débeis mentais que falam isso. Eles encarnam o Ubaldo, o paranóico, personagem do Henfil. Aliás, sem prejuízo para os débeis mentais, porque também não quero passar por politicamente incorreto. Estou falando do ponto de vista político. Débeis mentais políticos".

Fernando Rodrigues contesta os que vêem em uma radical reforma política a solução para males nacionais como a corrupção e falta de legitimidade dos representantes eleitos. No seu entender, o Brasil precisa do contrário disso, de estabilidade de regras. "Estamos consolidando a democracia, que está o tempo todo em risco, porque alguns cabeças-de-toucinho no Congresso e em outros lugares ficam achando que tem que fazer uma reforma política para mudar tudo porque tudo é muito ruim. Eu não acho que esse sistema político atual necessariamente seja muito ruim", diz.


Como você acha que vai estar o país quando você voltar dos EUA?
Infelizmente, talvez esteja igual. As coisas são muito lentas. Mas é assim na democracia. O processo democrático tem muitas qualidades e um grande defeito. O grande defeito é o ritmo pausado com que o progresso e as coisas vão ocorrendo na direção correta. Há quase inexistência de atalhos no processo democrático. Eu gosto muito de falar em termos comparativos. A democracia no Brasil é uma criança, muito jovem. Há quantos anos o Brasil, achado em 1500 pelo Pedro Álvares Cabral, tem democracia moderna? A rigor, de maneira bem estrita mesmo, com regras mais ou menos estáveis, é de 1994 para cá. Porque teve a ditadura militar. Antes da ditadura, vamos combinar, o país era outro, rural, não dá nem para comparar, era outro mundo. A ditadura acaba e a gente tem cinco anos de Sarney [1985-1989], que foi o presidente do PDS, que era o partido da ditadura. Acabou o Sarney, a gente teve um ambiente marcado por muita coisa. Terminou o governo Collor [1990-1992], veio o governo Itamar [Franco, 1992-1994] e só daí a gente passou a ter uma democracia mais ou menos regular no Brasil, com eleições regulares e com regras mais ou menos fixas, que é um valor inestimável. São poucos os países no mundo que têm isso. Tem alguns exemplos mais notórios: Estados Unidos, Japão, Inglaterra... Mas a maioria dos países muda a regra toda hora. O Tocqueville, naquele livro Da Democracia na América, criticava no início da democracia americana a mudança de regra constante que os EUA faziam. Quando eles decidiram parar de mudar as regras, eles engrenaram. E não existe sistema mais defeituoso de democracia no mundo que o americano. Tem mil defeitos. Eles não têm eleição direta para presidente, o sistema é distrital puro para eleição de deputados, tem praticamente guerra campal na definição dos candidatos, mandato curto, eleições que não são concomitantes... Qual é a maior beleza do modelo americano, a maior virtude? É que eles persistiram num modelo, a população aprendeu qual é o modelo e, daí, nesse modelo com as regras dadas, passaram a jogar muito bem.
Você pode discordar do que fazem os EUA no Iraque, onde quer que seja. Mas tem que concordar que eles construíram, com esse modelo, o país mais rico do mundo. Você pode falar: "Puxa, mas não era assim que eu gostaria que o Brasil fosse, porque eles são autoritários, imperialistas". Essa é uma crítica. Há 200 anos, o Brasil e os EUA eram a mesma coisa, dois países marginais. O fato é que, com as regras fixas que eles fizeram para a democracia deles, as quais se auto-impuseram, com a persistência que tiveram, fizeram o país mais rico do mundo. Então, algum valor deve ter. Você vai criticar a intervenção no Iraque. Isso é outra coisa. Estou falando do que produziu em termos de riqueza para uma população gigantesca como a americana. Esse tipo de valor eu acho importante estar se consolidando no Brasil.
Esta é a melhor coisa no Brasil no momento: estamos consolidando a democracia. Que está o tempo todo em risco, porque alguns cabeças-de-toucinho no Congresso e em outros lugares ficam achando que tem que fazer uma reforma política para mudar tudo porque tudo é muito ruim. Eu não acho que esse sistema político atual necessariamente seja muito ruim, que ele seja o produtor da corrupção, de todos os nossos problemas éticos e morais. O problema é outro. Porque i sso eu acho que é a parte boa do Brasil. E a parte ruim, a falta de saúde, de educação, transporte público de qualidade, a infra-estrutura dos direitos básicos do cidadão que o Estado, em todos os seus níveis, não consegue prover. O dia em que o Estado conseguir prover esses direitos de maneira mais completa de integral, disso vão derivar melhores padrões de ética e moral, somados ao desejo dos governantes de disseminarem bons valores na sociedade.

Essa sua crítica à reforma política é porque acredita que as pessoas tendem a votar melhor a cada ano?
Exato. Não tem aforismo mais sem razão do ponto de vista científico que aquela frase: "Todo Congresso é sempre pior que o anterior". Está absolutamente errado. Não guarda relação nenhuma com verdades históricas e quem fala isso fala porque é uma frase engraçada. A gente gosta de rir de si mesmo, uma qualidade do brasileiro. Isso é legal, porque bom humor é um sinal de inteligência. Mas eu acho que todo Congresso eleito é sempre, na média, igual ou até melhor ao anterior. O que acontecia antigamente, porque a gente não conhecia o que se passava, é que ão tínhamos instrumentos de aferição das falcatruas, das mazelas que aconteciam no meio político. Eu não tenho como provar isso cientificamente, mas tenho uma impressão muito forte de que é isso exatamente que ocorre. Acho que os Congressos durante a ditadura no Brasil foram frágeis, frouxos. Acho que o Ulysses Guimarães, que hoje é idolatrado, tinha imensos defeitos. Era uma pessoa que pensava muito em si próprio. Era muito egoísta. Eu cobri a campanha de 1989. Ele poderia ter ajudado o Brasil a ter um desfecho diferente, evitando o governo Collor. Foi proposto a ele apoiar algum outro candidato em determinado momento da campanha, porque ele não tinha mais do que 3% ou 4%. Ele se recusou. Enfim, essas figuras que são idolatradas hoje não eram, na realidade, os pais fundadores da pátria que eu gostaria que o Brasil tivesse. Eles não foram tudo isso.
Mesmo no início da democracia, na passagem da ditadura para a democracia, o Congresso que conviveu com o presidente José Sarney [hoje senador pelo PMDB-AP] foi o que deu cinco anos de mandato para o Sarney, quando deveria ter dado quatro. Foi o Congresso que produziu uma Constituição que, se é maravilhosa na definição de direitos para a população, é um lixo do ponto de vista da modernidade, porque é confusa, é longa e extensa demais. Foi um Congresso que permitiu que o governo Sarney distribuísse cerca de 600 emissoras de rádios e TV na base da fisiologia. Foi um processo fisiológico, brutal, que levou a tudo aquilo que a gente conhece. Então, não acho que aquele Congresso seja melhor do que o atual. Acho que ele era muito pior do que o atual. E foi pior do que os outros que o foram sucedendo. No início dos anos 90, tivemos uma grande CPI que culminou na maior cassação em série de deputados, que foi a do Orçamento. Nunca havia acontecido isso antes no Brasil. Depois outras CPIs acabaram acontecendo e estamos num processo de depuração do Congresso. O Congresso está ficando, não existe essa expressão, mas é assim que eu vejo, menos pior. E isso eu acho bom.

Qual a principal diferença entre os governos Lula e FHC?

Acho que os dois presidentes eleitos pelo voto direto que o Brasil teve depois da ditadura militar mais importantes foram Fernando Henrique e Lula. São complementares. São políticos de formação diferente. Fernando Henrique teve educação formal, padrão europeu ocidental. Lula não teve, mas é talvez o maior líder sindical e político da história recente do país, com uma comunicação inigualável. Fernando Henrique fala pra outro público. Mas ambos conseguiram, cada um do seu jeito, produzir um modelo que deu ao país a possibilidade de ter alguma estabilidade no campo da democracia formal. Isso é muito importante. São complementares. Um não existiria sem o outro.

Setores do PT dizem que a mídia é golpista e burguesa. Qual sua opinião?
São uns débeis mentais que falam isso. Todo partido tem gente despreparada. No PSDB, no PT, no PFL, que agora chama Democratas, na mais desastrada operação de marketing da história recente do país, quando um partido quer mudar de nome, que foi essa de mudar para Democratas. É igual alguém que é amarelo querer ser chamado de vermeho. Uma coisa assim inacreditável! Então, todos os partidos têm essa gente ignorante, com mania de perseguição. Eles encarnam o Ubaldo, o paranóico, personagem do Henfil. Eles são só isso mesmo: pessoas paranóicas que estão despregadas da realidade. E não têm muita noção clara do que seja mídia livre e, sobretudo, do valor da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão. Claro que não estou estendendo minha crítica a todos os petistas, mas só a alguns deles que são débeis mentais, e em todos os partidos há alguns débeis mentais. Aliás, sem prejuízo para os débeis mentais, porque também não quero passar por politicamente incorreto. Estou falando do ponto de vista político. Débeis mentais políticos.

Mas Fernando Henrique não foi poupado pela mídia nos escândalos anteriores?
Vou dizer por mim. Sou um jornalista que está na estrada faz tempo. No governo Fernando Henrique, fiz uma série de reportagens críticas no meu jornal. O meu jornal sempre teve abertura total para fazer a boa reportagem, praticar o bom jornalismo. Durante aquele governo, houve duas reportagens que vocês estão vendo penduradas na parede, que acho que foram muito incômodas para o Fernando Henrique e saíram na Folha. Uma sobre a compra de votos na emenda que permitiu a reeleição e outra, a transcrição completa das fitas do BNDES. Isso porque as fitas do BNDES foram divulgadas de maneira incompleta, numa primeira versão, de maneira a proteger a figura do presidente da República. Eu fico pensando: as pessoas me acusam de tucano. [Pega uma cópia da capa do jornal com a reportagem, de 1997]. Mas o que aconteceria se eu publicasse uma reportagem dessas sobre o Lula? É o presidente da República conversando com o presidente do BNDES, o Lara Resende, perguntando: "Se precisarmos de uma certa pressão para forçar a Previ?". FHC responde: "Não tenha dúvida". Quer dizer: mais crítico do que isso, com esse destaque? Acho difícil existir mais crítica do que a crítica correta, ouvindo todos os lados que eu e o meu jornal produzimos no período do governo Fernando Henrique. Eu acho que tem que ser assim com qualquer governo. Agora, o governo é presidido por Luiz Inácio Lula da Silva. Então, chegou a hora de a gente fazer reportagens sobre o governo Luiz Inácio Lula da Silva.