MELQUISEDEC NASCIMENTO
ETANOL NA FLORESTA AMAZÔNICA


"Não temos conhecimento de nenhum projeto de cana-de-açúcar na Amazônia". Esta declaração de Reinhold Stephanes, Ministro da Agricultura do Brasil,demonstra o quanto o Governo do Brasil está interessado em fomentar a produção de etanol no País. O governo insiste em negar o óbvio,apesar dos dados estatísticos estarem demonstrando claramente que a Amazônia está sendo invadida por cana-de-açúcar para a produção de etanol.

Segundo o último levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vinculada ao Ministério da Agricultura, a safra de cana na Amazônia Legal - que compreende estados como Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará e Tocantins -, aumentou de 17,6 milhões de toneladas para 19,3 milhões de toneladas no período 2007/2008. Em Mato Grosso, por exemplo, foi registrada expansão da área plantada de 10%, enquanto no Tocantins esse aumento foi de 13% e no Amazonas, de 8%.O balanço da Conab não inclui a previsão de safra do Acre, em 2008. É como se o estado estivesse fora do alcance da cana. Segundo o pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Judson Ferreira, porém, a produtividade média local é de 80 a 100 toneladas de cana por hectare, igual a de tradicionais estados produtores, como São Paulo e Pernambuco. Dados da Embrapa indicam ainda que 3% do estado são propícios à plantação de cana. Hoje, 11% do Acre estão totalmente desmatados, sobretudo devido ao avanço da pecuária no passado.

Empresários do setor estão afoitos, quanto às possibilidades de lucros. Eduardo Farias, sócio majoritário da Álcool Verde, afirmou que seu grupo já está prospectando novos mercados para expandir ainda mais a produçãode Etanol na região da Amazônia Legal. Estamos de olho no Maranhão e no Tocantins - afirmou .Marcos Villela Zancaner, presidente da Pagrisa (Pará Pastoril e Agrícola S.A.), outro empresáriodo setor, afirmou: "Nós estávamos produzindo cana na Amazônia Legal quando achavam que isso não era possível". A empresa tem hoje uma área plantada de cana-de-açúcar de 11,6 mil hectares. Na safra passada, produziu 720 mil toneladas.Ademais,a região amazônica vem atraindo até investidores estrangeiros. O fundo de investimento Cooper Fund, de aposentadas americanas, virou sócio do grupo TG Agro Industrial/Costa Pinto, que produz álcool em Aldeias Altas, no Maranhão.

Interessado em transformar o etanol numa futura commodity, o governo brasileiro decidiu proibir por lei o plantio em território amazônico, para responder a questionamentos internacionais. Em um ano, deverá ficar pronto o mapa do zoneamento agrícola para a cultura de cana. O país será dividido em três regiões: onde é possível plantar cana, onde o plantio está terminantemente proibido e onde o governo pretende criar incentivos federais específicos para estimular à plantação em áreas degradadas, com pastagens. O Ministro Stephanes afirmou que " o zoneamento vai proibir qualquer possibilidade de plantação de cana no bioma amazônico e no bioma do Pantanal".

Não bastassem os dados oficiais da Conab indicarem crescimento do plantio em áreas de floresta, pesquisas acadêmicas confirmam a vocação de estados, como o Pará.O estado tem potencial para ser um dos maiores produtores de etanol do Brasil, concluiu a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade São Paulo (USP). Só na terra já desmatada, a área própria ao cultivo pode chegar a nove milhões de hectares. A título de comparação, o país possui hoje 6,6 milhões de hectares plantados de cana. A produção no Pará tem boas condições de produtividade, custos de mão-de-obra, de terras e de logística, com potencial para tornar-se uma das mais competitivas plataformas de exportação. O Pará, com um única usina, apresenta uma produtividade de cana mais compatível com o Centro-Sul do que com o Nordeste, o que evidencia o potencial do estado.A cana do Pará tem condições de aumentar a produção brasileira de álcool em 136%. Não é à toa que a era dos biocombustíveis chegou com força total na Amazônia Legal. A quantidade de distribuição das chuvas foi apontada como um dos fatores mais relevantes para a avaliação do potencial de desenvolvimento da cultura da cana no estado, portanto a única forma de se frear essa força econômica em expansão é o Governo do Brasil apoiar o projeto do Gasoduto do Sul, que permitiria um fluxo contínuo de fonte de energia abundante, limpa e barata para toda a América do Sul, suprindo inclusive as preocupantes carências energéticas do Brasil, Argentina e Chile, além de contribuir com a preservação da floresta amazônica.