PAUTEIRO DE AGÁ

Édi Prado 06.08.07

De repente deu vontade de voltar a ser jornalista. Voltar a ser, quer dizer atuar diariamente. Porque jornalista eu sou por vocação, amor pela profissão e tenho um papel que me credencia legalmente a sê-lo. Não, por favor, não vamos entrar no mérito de Jânios Quadros que fi-lo por qui-lo. Muito menos dizer ele gostava de beber porque é líquido. Se fosse sólido comê-lo-ia. Não quero ser esse jornalista dos tempos verbais fora do tempo nem desses que se ajoelham diante de qualquer prato de jabá ou de uma sopa de jaraqui.

Quero voltar a atuar como o jornalista que registra o tempo, de forma imparcial, sem o tampão no olho como os papagaios de piratas. Quero mostrar as coisas que estão na cara de todo mundo e ninguém quer ver, como sentar a beira do trapiche à tardinha e contemplar o Rio Amazonas. Ver o Amazonas encher e todo o banzeiro do ir e vir da maré, com barquinhos subindo e descendo nas ondas e aqueles navios grandões que levam as nossas riquezas, passando de fininho lá longe. Ver o pousar dos pássaros nos tocos de árvores e traves de futebol. Essas coisas são tão banais que poucas pessoas conseguem ver.

Ver por exemplo, que a nossa cidade parece não existir pessoas com necessidades especiais, como são chamados os cegos, aleijados, idosos nem crianças. Reparem que não existe nada nesta cidade que foi pensado para essa “clientela” de habitantes. No trânsito, outro exemplo. O trânsito foi feito para máquinas e não se considera nem quem dirige essas máquinas como gente, pessoas humanas. O ser e a máquina se fundem e se confundem. O ser humano não é considerado veículo, por isso não tem vez, nem grito.

E os carros passam apressados, não respeitam os pedestres, velhos, crianças, aleijados, cegos e são prioridades em tudo porque são possantes e são máquinas. Cada atravessar de uma rua é um perigo iminente. É uma aventura. Mesmo na chamada faixa de segurança, se o pedestre não conseguirchegardooutroladonotempocertodos trintasegundosejámerecerseratropeladoporesse vacilo. Quero poder alertar como jornalista, que a cidade foi criada e deveria ser projetada para gente, pessoas humanas, não para atletas de obstáculos. Para lembrar quem administra esta cidade, quem governa o Estado, eles foram indicados, eleitos para cuidar dessa gente. Que os hospitais e postos de saúde foram criados para tratar da saúde das pessoas. Que os prédios públicos foram construídos para atender e a servir ao público.

Advertir que os monumentos e atrações turísticas deveriam atrair pessoas, não impedir que essas pessoas tenham acesso a esses lugares. O Monumento Marco Zero do Equador, um dos mais atrativos do Estado do Amapá , por ser um marco divisório do Planeta em dois hemisférios, onde os turistas gostam de abrir as pernas naquele lugar, para ter a sensação de estar onde o mundo se encontra e se separa. Mas quem arquitetou e construiu aquele monumento, não pensou nem na mãe dele ou, propositalmente não queria que ela fosse visitar aquele lugar cheio de encantos e magias.

As escadas que dão acesso à plataforma do marco divisório exigem jovialidade, destreza de equilibrista, coragem de encarar desafios ou desistência precoce. Turistas cadeirantes, permanentes ou temporários, deficientes físicos, me, pensar. É como se houvesse uma placa de advertência: Não se atreva a subir ou a descer sem ajuda. E que é um desastre para quem promoveu um grande encontro de turismo numa cidade onde sobram buracos para ruas esburacadas e falta segurança para caminhar entre os buracos.

Quero voltar a atuar como jornalista para alertar aos governantes que se programem antes de asfaltar uma rua, para semear por debaixo as canalizações necessárias, para não se repetir o ciclo de asfaltar, cavar e não asfaltar. Mas que o asfalto seja de asfalto, não temperado com manteiga, que se derrete sob o sol do equador ou se esvai com as fortes chuvas.

Enfim, quero voltar às ruas para relatar as ruas e o que acontece nelas, sem essa história de versões. Basta um verso que rime com a verdade dos fatos. Haja decisão, hein?