"Furnas e o engenheiro José Pedro de Oliveira"
Itamar Franco

Até 2016, para um crescimento em torno de 4%, o Brasil precisará instalar 42 mil megawatts (MW) à sua capacidade de gerar energia. É um desafio enorme. Significa acrescentar mais 40% a todo o esforço de geração conduzido no setor elétrico até hoje. Sem empresas públicas eficazes isso não é possível. E entre elas, ponteia Furnas, responsável pelo abastecimento do Sudeste e do Centro-Oeste, operadora de 10 usinas hidrelétricas e duas termelétricas, responsável por 10 mil MW na oferta, 20 mil quilômetros de linhas de transmissão e 44 subestações.

Furnas construiu e opera um sistema de extra-alta-tensão de 750Kv corrente alternada e 600Kv corrente contínua, transportadora da energia de Itaipu, que é um dos mais importantes do mundo; mais de 50% dos domicílios do País têm suprimento de energia garantido pela empresa, do mesmo modo que mais de 60% do Produto Interno Bruto (PIB) dependem de sua energia.

Administrar tal empresa requer experiência, conhecimentos técnicos, comportamento ético a toda prova e ligação à causa da energia elétrica provida por empresas estatais, como era o caso do engenheiro José Pedro de Oliveira. É preciso lembrar que, no passado, foi conduzido um processo de privatização que alijava as empresas públicas da responsabilidade pela geração, pela transmissão e pela distribuição de energia, mesmo diante da evidência de que foi graças a elas que o País criou, em cerca de 40 anos, um dos maiores e mais bem-sucedidos sistemas elétricos do mundo, e que assim se desenvolveu.

Nesse processo, privatizou-se o KW já instalado, vendeu-se o patrimônio público como se ativos depreciados fossem, imperaram contas feitas à base de fluxo de caixa descontado, pelas quais, por exemplo, as usinas que Furnas hoje moderniza e que gerarão mais 40 anos (Furnas, Estreito e Mascarenhas de Moraes) pouco valeriam. As conseqüências todos conhecem: o apagão! E o crescimento do País foi estancado.

Colocamos, então, todos nossos esforços para demonstrar à nação que a privatização de Furnas levaria ao desmoronamento do sistema elétrico estatal e importaria na privatização das águas, bem público essencial. Até a força recorremos. A empresa não foi privatizada e pôde continuar sua missão de gerar e transmitir a energia requerida pelo Brasil. Procuramos nas alianças políticas que se estruturavam para disputar a presidência da República a garantia da manutenção e da ampliação de um sistema estatal de produção de energia, administrado com seriedade, técnica, ética e transparência. Ombramos com o candidato Lula, irmanados por essa visão da coisa pública; participamos de suas marchas vitoriosas; Minas Gerais, que governávamos, lhe deu a mais expressiva votação.

Agora, ante a forma com que se processou a modificação no alto comando de Furnas, fomos obrigados a nos interrogar se falhamos no acreditar ou se foram ignoradas repetidas promessas feitas em praça pública. A substituição do presidente de Furnas presta-se a esse exame. Havendo incompetência, desvio ético, afastamento das políticas e diretrizes ministeriais e outras causas, menos comentáveis, o presidente pode e deve alterar quadros de uma empresa pública.

A saída de qualquer presidente, ainda que técnico e administrador testado em várias empresas, nesses casos, seria normal. Mas absolutamente anormal é usar uma empresa pública do porte, da importância e do significado de Furnas como moeda de troca numa relação entre os poderes Executivo e Legislativo - expressa, aberta, noticiada e confirmada por seus protagonistas -, o que salpica de vergonha os pilares da democracia, a independência dos poderes. Não foi para isso que estivemos à frente da batalha contra a privatização de Furnas.

Não foi para ler que tais e tais cargos do setor elétrico aguardam preenchimento, em decorrência de negociações para satisfação de interesses partidários, colocados muito acima das necessidades da nação. Vemos seguras, no aguardo de tratativas inconfessáveis, indicações de diretores de empresas responsáveis pelo abastecimento nacional, como Furnas, Eletronorte, Eletrosul e Chesf, sendo possível que os processos terminem com a posse de indivíduos de currículos absolutamente desfocados do setor elétrico e que vão partidarizar a empresa pública.

Descortina-se um círculo vicioso: são feitas indicações inadequadas; as empresas públicas tornam-se ineficazes; prova-se que o poder público não pode administrar: já se aproximam os compradores de ativos depreciados... Conhecemos essa história. O que não conhecíamos é que estivemos a apoiar um governo que, eleito graças a propósitos de absoluta seriedade, elencados em praça pública, resvala pela ladeira da absoluta falta de ética. Os mineiros que participaram dessa "barganha", por certo, terão nas urnas a resposta conveniente.

PS - Itamar chama de José Pedro de Oliveira (que foi chefe da Casa Civil do seu governo em Minas) o mesmo personagem de alta competência que eu identifico como José Pedro Rodrigues.

PS 2 - Quantas pessoas neste País podem ser recomendadas por um ex-presidente da República como Itamar?